terça-feira, 16 de julho de 2013

XCI



“ (…) Por sistema levávamos dois guias, derivado a que, se o primeiro armava aos cágados, dava-se-lhe o bilhete para Luanda e o segundo tornava-se logo uma jóia de moço, não dispara, não dispara. Distinguiam mosquitos na outra banda e no entanto, se estávamos no arame, punham óculos graduados ao domingo e cirandavam por ali às apalpadelas, aleijando-se felizes, nas esquinas das barracas, visto que não sentem as coisas como nós, não gritam, não se queixam, sorriem o tempo inteiro de cromados ao léu e as mulheres deles, para chamar-lhes mulheres, não beijam os filhos, trazem-nos às costas, recordo-me de uma, com o filho morto há uma semana, e aquela macaca com ele no lombo apesar do cheiro mais forte do que mandioca podre, puxando-o de vez em quando para que mamasse, arrancámos-lho à força e a estúpida, sem nos largar, soldado, soldado, enfiámos a cria num buraco, tapámos o buraco, e caia-me a alma em pingos ao chão se não se sentou em cima, mal imaginava que a gente distraídos começava a cavar para apertá-lo nas costas de novo, até que o miúdo, por acaso era macho, ia escrever por acaso era rapaz e emendei, lhe fosse caindo aos pedaços pelas pernas fora. (…)”



*Não é Meia Noite Quem Quer, António Lobo Antunes

3 comentários:

Eli disse...

Triste, como é triste o...

Eu não tenho uma lista, mas tenho uma estante. E, hoje, terminei aquele para começar outro. Ainda não sei bem qual...

Quando cheguei aqui e vi uma citação, foi como se me sentisse em casa, esbocei um tímido sorriso e li o Lobo Antunes pelos teus olhos.

Nelson Rocha disse...

Eli,

e que tal o ler através dos meus olhos?,


beijo,
NR

Eli disse...

Leio-o como se estivesse colada a uma cadeira (tua). Sabe-me bem.