quinta-feira, 11 de julho de 2013

Uma ideia oferecida



           Noite fora assobiava sentado no tronco de uma outrora nobre oliveira, assobiava baixinho o hino da alegria enquanto na capela a dez passos dele, onde a luz fugaz dos círios denunciavam a sua presença, uma família velava a que já lá ia, sentado, comido pela sombra parida da noite de um inverno, o coveiro, enquanto calamistrava o cabelo com brilhantina importada espera, aguarda com a paciência que aprendera a lidar com os mortos, teresa gomes jazia, seu corpo embalado no vestido da primeira comunhão, seu cabelo encaracolado, suas unhas pintadas, limadas, seu decote escondido,
            - a porra do aviário,
            nas escadas, sem tento na língua, sem cuidado, o patriarca da família já tinha concluído que a culpa da desgraça que a tão tenra idade levara para longe sua filha era doa aviário, devido ao podre edifício o corpo desmaiado nos campos de centeio tornara-se cadáver durante a noite, e, só pelo cheiro  distinto a morto deram com ela na manhã seguinte a uma ausência inexplicável, nas escadas, rezingava, lançava olhares de soslaio a um coveiro,
            (dançava, na espera eterna que tão bem lhe servia, dançava, já que amanhã teria trabalho para fazer, já que hoje, neste agora um cadáver na capela no meio dos círios,)
            o gomes munido da arrogância típica, de quem só dá valor às cousas quando as vê descerem o ralo rumo ao incógnito, e, mesmo ai precisa de um estalo bem entalado no cachaço, culpava tudo e todos, até o coveiro,
            (que a meio perdeu o tino no hino da alegria,
            - foda-se,
            para o ar, acende um cigarro inda virgem, repuxa o cabelo, verifica na sombra se bem frisado, se ausente de corninhos metediços que o incomodam, e, se já tem um trabalho atiçado à critica, e,  se todos os dias olhares de soslaio quando bebe o martini de manhã na tasca, se  à noite
            - é uma sopa se me fizer o favor,
            e as mesas todas ocupadas, mesmo que quase vazias, só,
            - pode-se sentar aqui meu caro,
            do devorador de pecados,
            e,
            - deixe lá eu como a pé,
            que na hierarquia destas lides esse inda está mais fundo,)
            à mãe que a perdeu de vista, ao irmão que a atazanava enquanto se sentava à sombra de perna escachada a ver a égua no cio a chamar o macho, um rebolar da menina-do-olho, um piscar de olho, maroto?, sim, maroto, maroto para não insinuar outra cousa, e para a irmã de boca cheia, hálito sujo, gengivas caídas, dentes escuros do tabaco, debaixo das unhas crostas das lides de à duas semanas enquanto tirava estrume das galinhas,
            - anda cá maninha, senta aqui,
            - porco,
            - ó teresinha senta aqui,
            culpava o frigorífico despido de água, e, sequiosa lá foi a moça à fonte de cabaço desajeitado na mão para nunca mais regressar a sorver ares frio do inverno,
            - a puta da empregada,
            também levava com força o martelo que escapulia à bigorna para atrás das suas saias negras se mostrar presente, enquanto essa chorava, corria entre as sombras, as poucas que os círios lhe concediam,
            (- minha filhinha,)
            um olhar da porta que a deixa varada,
            (pensa Não me digas que aquele sovina de uma figa, aquele cabrão pensa que a culpa é minha,
            - manel,
            - diz,
            - logo não te esqueças de trancar a porta e soltar o cão,)
            mas a empregada que deixe a cousa para lá, a culpa era clara, diante dele, mesmo das escadas o hediondo edifício surgia, com luzes amareladas, o aviário,
            o padre fechava a capela, a empregada ia para casa de cintura bem cingida pelo manel, a esposa já tinha ido com dois calmantes e meia caneca de vinho maduro, o irmão fugia para o curral pela calada, o coveiro enroscava-se de pescoço retesado para não tocar na coxa enquanto se limpava para passar a noite no seu tronco,
            ( - tá quase, já me cheira,)
            um assobio que se alonga,
            e, um pai que caminha entre centeios mirrados, era simples nesta equação em quem desaguava a culpa,
            (nele nunca, jamais, um que quando a filha viu a luz jogava às cartas no café, quando,
            - já nasceu,
            - é home?,
            - não,
            - até amanhã,
            ele que quando via o irmão,  
            - senta aqui teresinha,
            olhava para o lado, encolhia os ombros e pensava É normal,)
            - cabrões do aviário,
            retira a Winchester do ombro, bate à porta,
            - ora boa noite,
            bang.



*Sem acordo


Cumprimentos,
NR

3 comentários:

Eli disse...

Gosto do fundo.

(Esta foi a impressão imediata. Mas, logo me esqueci dela.)

Reparei na forma como os acontecimentos rodopiavam num espiral que me disse que deveria voltar a ler, mas fui teimosa e se só por uma vez se pára para escrever, a leitura deve proporcionar-se da mesma maneira.

Remeteu-me para um livro, que mete umas tantas simbioses do género... mas não te vou contar para já qual é, porque é muito fácil adivinhares.

Nelson Rocha disse...

Eli,

eu relembro-te,

- gosto que gostes,

oh vá lá, que livro é?, fiquei cusco,


beijo,
NR

Eli disse...

NR

:)

Gosto que gostes que goste!

:)

Ainda não vou dizer... li algures, que esperar é uma virtude! (Hehehehehehe)

;)