segunda-feira, 1 de julho de 2013

Primeiro mistério



            Sabes como é olhar o destino enquanto ele, com uma veemência papal, se recusa a dar uma mão?, se recusa a entrelaçar os seus dedos com os meus, nossos,
            (ele em vera sabia,)
            sabes como é sentir um impulso tão vernáculo, que sem tréguas, sem bandeira de parle, arrepia caminho por tuas, minhas,
            (suas,)
            entranhas, que remói os sentidos, enquanto nos chegamos ao grosso do povo,
            - uma bica se me fizer o favor,
            em esplanadas anónimas e,
            - boa tarde é uma água das pedras também,
            (um nariz,
            o seu,
            que se ergue,
            uma daquelas imagens dignas de um cartoon da disney: o odor, o fumo, o alcatrão, e um corpo elevado, de calcanhares a roçarem os glúteos, e, uma narina, duas narinas que tragam um rasto, um levitar, uma, duas, dezenas, várias esplanadas anónimas, numa dessas praças sem nome, numa cidade sem maiúscula que olham incrédulos enquanto o dito plana rumo,
            - saiu-me a sorte grande,
            - então?,
            um povo enleado que em uníssono não encontra em si uma cousa mais digna do que,
            - então?,
            enquanto um levitava, enquanto ele de olhos que brilham, a menina-do-olho que dança a um ritmo frenético, como naquelas noites em salas obscuras em que as colunas o empurravam para o caos de uma moche, então enquanto ele,
            - saiu-me a sorte grande,
            enquanto levitava,
            um povo que,
            - então?,
            - uma prisca,
            no chão, neste chão, entre os vértices de dois paralelos que formam este passeio,)
            mas,
            sempre que tenta chegar-se a ele, um incauto, o incauto!, o incauto anónimo, desta estória, deste conto, desta narrativa,
            (- chegar a quê?, quando?, como?,)
            ao horizonte, ao destino,
            na esplanada de bica numa mão, de água das pedras na outra, de prisca na orelha, e, a bicanca torta, funga daqui, funga dali, e, um som como o da panela rota e uma segunda presa na caixa, um homem,
            (se é que homem, nunca o defini, nunca o defini em tais termos,)
            tenta também ele ser um membro deste tão exclusivo clube, junta-se à corja que o rodeia, cinge-lhe a cintura, aperta-lhe os seios,
            - desculpe minha senhora que não a vi,
            - ah?,
            - perdão, desculpe minha senhora que a vi, como poderia não ver tamanho par, mas sem querer coloquei as minhas mãos no dorso de tão pródiga, voluptuosa…,
            (funga daqui, funda dali,)
            dança a rumba quando a batuta assim o dita, quando o vira surge no menu nem pensa duas vezes e da plateia que assiste um,
            - porreiro pá,
            lá dentro um vazio, mesmo quando da corja sentada nas patas traseiras, encostada à sombra, numa bancada cerzida de restos de andaimes de outros tempos, de outros labores, mesmo quando um grito que ecoa, e, assim o diz não uma, nem duas, uma cousa mais elevada, um eco que se multiplica como coelhos, uma praga de,
            - porreiro pá,
            portanto uma execração de porreiros pás,
            inda assim sempre que o vê, estica a mão e ele escapa-se pela curva do horizonte, foge-lhe pelas frinchas, uma unha que se crava no seu antebraço para se escapulir imbuída nas gotículas do suor,
            (sabiam que ele só quer fazer parte, só quer beber bicas e sorrir quando lhe dizem,
            - que rica mosca que tens na cara,
            mas acaba sem destino, já que o,)
            - cabrão,
            que lhe foge do peito indignado,
            (um fungar mais fundo,
            já que o quer é um vislumbre no amanhã, e, do amanhã nem hoje dá sinal de si.)



*Sem acordo



Cumprimentos,
NR

5 comentários:

Anónimo disse...

Nelson,

ao ler o teu texto, lembrei-me da actual remodelação do governo. De Victor Gaspar em Maria Luís Albuquerque... Só resta saber se veste calças ou saia como o seu antecessor. ;O)
Excelente crítica social!

Um beijinho :)

Eli disse...

Gosto desta forma de ser transportada... Revi-me num passado meu que teima em repetir-se falacioso e o destino goza-me enquanto puder, porque eu troco-lhe as voltas.
Concluo por estas alturas que te entendo... Afinal, era uma falta de coordenação minha. Estranha esta constatação. :)
Obrigada por teres aceite a lama de ontem (risos, lol, assim seja).

Nilson Barcelli disse...

Porreiro pá...
Isto é, gostei do teu texto, uma narrativa interessante que me faz lembrar o Lobo Antunes.
Um abraço e boa semana.

Nelson Rocha disse...

Eli,

entendes-me?,

ai de mim, que agora entendo eu, que talvez me esteja a tornar demasiado translúcido,

ora essa,

(risos)

Beijo,
NR

Nelson Rocha disse...

Nilson,

só me resta fincar o pé no chão, vestir aquele olhar de quem quer passar despercebido, e, abanar o corpo naquele trejeito de quem se escapa através das correntes de ar,

e,

obrigado pela simpatia,


abraço meu caro,
NR