terça-feira, 4 de junho de 2013

Um ponto final de um Conto



            dia e noite escreve o que outrora foi, minha mulher,
            - já que come, e, dorme, já que limpo a sanita, o chão e os lençóis molhados dali deveria nascer algo mais que esta miséria de casa,
            daí ao,
            - devias escrever as memorias meu querido tio,
            daí ao,
            - larga essa arma,
            daí ao,
            - não faça isso,
            daí ao,
            - que estão estas mulheres aqui a fazer?,
            daí ao,
            - solte essa garrafa,
            daí ao,
            - depois de acabar este seu retracto pode fazer o que bem entender com o que lhe resta de vida,
            e, parece que chegamos a um acordo, inda que relutante, tacitamente parece-me ter acatado que uma casa não paga uma vida sendo pária para os pares, uma casa de alicerces podres não compensa o sofrimento de ouvir a esposa a quem jurei tudos e todos de dia e noite a sussurrar-me, dizer, bradar quando o avesso se mostra no lado errado da carne,
            - cabrão duma figa, que me enganas-te bem, ai se eu fosse mais nova, não me faltavam homens,
            inda, fadado inda a espreitar, assim discirno o homem no seu robe escarlate, a careca que brilha entre a garrafa e o busto de Tolstói, a nuca que desaparece a cada rabanada de vento que impinge o fumo em migrações pendulares, dia e noite desenha caracteres naquele pedaço de papel, mudo, ou surdo, já que cada vez que eu,
            - então como vai?,
            um silencio, um olhar, um pestanejar vazio, naqueles olhos quase transparentes de tanta visão ao longo dos tempos, de tanto hediondo e tão pouco doce, do doce destaca-se o dedo na boca, o silêncio que me impunha à lareia enquanto botas que enterradas na lama batiam ocas nas portas e um grito que ecoava pelo noite, um
            - Jasmim…,
            agora perro dos anos, agora entregue ao fim dos tempos, derrotado, mágoas, saudades e transtornos, ai de mim que odeio as suas dores já que na lareira, da lareira lembro com afecto, mas um olhar de esguelha da esposa e uma sina, se um sorriso perante suas demandas um tolher do sexo numa boca que nunca sorri logo a sós no quarto, dai o meu constante espreitar,
            (planar,)
            dai o meu constante dizer em voz doce,
            (grasnar,
            não grasnar,
            crocitar,)
            - como vai o trabalho?,
            um olhar, uma mão parada entre o A e o E, e nada a fazer a não ser esperar que ali naquele corpo a verter fluidos inda resida uma amostra de tino, uma demonstração de cariz sadio ,
            o grasnar,
            o crocitar, perturba-me assim como as memórias que se sobrepõem e se apagam mutuamente, sei que ele perto já que o cheiro a podre penetra facilmente entre os fumos, um cheiro agridoce, entre o sabor acre do cigarro, do segundo, terceiro, a quem quero enganar?, décimo da hora, desta hora,
            assim me topo a pensar na velha e nas suas penugens empertigadas, relembro, com saudade a velhota sentada na lareira quando eu era pequeno,
            - juntas assim os galhos, chegas a acendalha às pinhas e já está, fogo,
            recordo o natal e a passagem de ano, lembro-me do dedo na boca para não perturbar o crazy horse,
            na falta de melhor desfraldo a vela de estai para aquele extra quase nó, rumo às penugens que se formam, na falta de melhor deixo-me com a frivolidade do existir nos momentos que antecederam o que começa,
            (o jogral agradece os aplausos, inda que sem fim, pelo menos agora podem imaginar o rumo, o amanha, o que irá ocorrer,)
            agora um peso, antes um conforto, outrora um dedo na boca, um silêncio a pedido que concedia, uma mão no ombro, um grito no escuro para perseguir um rumo a um fim, a uma doca, um,
            - senta-te aqui miúdo,
            enquanto desemedava-me o cabelo,
            agora um robe e ossos, um olhar transparente, uma sílfide e um não corpo, uma permanência e não um existir,
            - ele já escreveu aquela merda?,
            - ainda não querida,
            um esgar, um elevar dos ombros, um sinal farto com a mão que me diz: era de esperar, um rebolar de olhos, no sofá de novo e uma voz estridente que se pronuncia como um furúnculo na testa para me irritar os sentidos, de mim um aceder topado num mar de revolta, um conformismo, inda que me pese pela frincha, para o ar pejado de fumos atiro, sem esperar retorno, sem colar remetente, num tom nasardo,
            - lamento que assim seja tio Jasmim,
            um lamento sentido, inda que pálido, inda assim um lamento perene.



*Sem acordo



Cumprimentos,
NR


4 comentários:

Anónimo disse...

Narrativa emparelhada pelos diálogos das memórias do tempo...
E o jogral lá recebeu aplausos merecidos!
E onde estava ele, já que surgiu assim do nada? Continuava em cima do palco?
E não me batas por favor... mas eu sou como as crianças, gosto de perceber tudinho! Sou chata! É do pó! :D

Um beijinho :)

Nelson Rocha disse...

Boa tarde Bela

tanto pó dá comichão, todavia
dou-me ao esforço de tentar ser linear e concluir que um mais um afinal dois, bem, o coitado do jogral não era nada mais que uma metáfora para a atenção desnecessária dada ao que indevidamente tomámos atenção, indevido visto que vazio de fluídos dignos, enfim... o bardo entrou enquanto o velho caído em desgraça o desenhava, o escrevia assim como o relembrava, regressa ao palco no fim p'ra agradecer claro, como poderia não lhe conceder isso, já que enquanto o sobrinho dado a ceder perante as vontades da mulher, dado que enquanto observado foi o relembrar do jogral quase barroco de tão abusivo nas manias linguísticas que concedeu ao velho dado ao velhaco um riso oculto, teria assim que lhe conceder, melhor, teria o coitado de velho de lhe conceder a honra de agradecer os aplausos, já que embora sem um fim, uma indicação, factos que levam os ouvintes a desaguar numa conclusão,

isto engata em outras estórias e demandas, mais propriamente isto antecede aquelas crónicas parolas das penugens,


beijo,
NR

Anónimo disse...

Nelson,

obrigada pela explicação... mas
enquanto tua leitora sinto-me por vezes perdida nos teus textos, que são de enorme qualidade literária, contudo algo difíceis de interpretar, confesso. Ou então alguns "são só para inteligentes", o que não é o meu caso! :D
Isso deve-se ao facto de serem exactamente pequenos excertos de um todo linearmente bem construído... mas apenas na cabeça do autor (tu). Logo seria difícil alguém fazer essa interpretação tão linear como fizeste. Desculpa ter sido chata e obrigada mais uma vez pela síntese!

Um beijinho :)

Nelson Rocha disse...

Boa tarde Bela,

Eu não sou apologista da tal leitura de praia, isto é, abro o livro vem uma rabanada de vento e já estou na última página e inda assim percebi tudo, daí o meu encanto quase doentio com Lobo Antunes, já que a estória nunca se encontra nos predicados mas no sentido subliminar, escondido entre insinuações e nuances, eu sei que o que escrevo muitas vezes pode ser uma dor de cabeça para digerir, o que me faz também apreciar com um maior vigor quem se dá ao trabalho de os tentar dissecar, quanto ao ser ou não inteligente, para as urtigas com a mania dos doutores, o que escrevo, foi-me dito por quem me é muito próximo, é um desaforo, nunca foi, nunca é, nunca será estruturado, é um vómito instintivo, daí a ausência dos tão definitivos pontos finais, os parênteses surgem como uma necessidade já que em simultâneo ocorrem mais que uma desavença de predicados e eu arranho-me a tentar dar vazão à cousa,

bem alongo-me,

e, concordo, tudo junto, não duvido que um dia a oportunidade surgirá, faz um sentido muito claro, já que embora instintivo, um desaforo vomitado, no fim existe uma linha condutora e um número de conceitos que inexoravelmente surgem sempre,

aproveito para te agradecer o esforço de dissecar o que aqui vou parindo, e, não tenho problema nenhum com as perguntas, somente deixo a nota quem nem sempre sei inda a resposta, às vezes só chega mui depois da cousa dar à luz,


beijo,
NR