segunda-feira, 17 de junho de 2013

Um debate



            Meu Amor eu nunca te disse mas atrevo-me agora, já que lá fora o sol e a chuva dão as mãos e ao mesmo tempo derribam as telhas deste habitáculo onde me sustêm, na loucura de um cão condenado a viver num este existir que,
            (deixa-te de letras mélicas, palavras que no fim são redundantes, meias verdades, meio ditos para assim te, para assim nos vergares ao bem estar destas gentes, gentios, plebe que daqui já me cheira, aquele suor da plebe sabes?, deixa-me de novo tomar as rédeas, concede-me o controlo da fragata de linha na qual velejamos destinados a fazê-lo como um duo, permite-me a entrada nesse teu sagrado barlavento, e, tomar teu lugar, ninguém notará, prometo disfarçar tuas tão constantes, inevitáveis inadimplências, procurarei esse teu amor e com dedos arcanos, guardo na ponta dos membros gemidos que lhe concederei, encontrá-la-ei e vou-lhe oferecer um mundo, uma ida ao topo deste e de lá Vénus que nos olhará noite fora, lá em cima uma Vénus que nos espreita, que nos convida, mas de nós, desse teu amor nem um só olhar já que ela tão ocupada entre burburinhos moldados com teu, meu, nosso nome ao nosso ouvido,
            e, tu que lobrigas mas nada sentes, despe essa capa eriçada, isto não é por ela nem por mim, é por ti,)
            Sabes meu Amor, devo-te uma confissão, enclausurei-me nestes paredes, dentro delas, através dos meus sentidos, sorvo de tudo um pouco excepto que esta é casa minha, aqui olho uma estrada e oro a cousas sem sentido, oro cousas despidas de sentido para de ti encontrar um vislumbre, da tua sombra presente um bafo de realidade, contentava-me com um olhar curto da tua sombra de um nosso passado, procuro velhos odores perdidos nos relevos dos tecidos que aqui residem, procuro sem cessar,
            (lamúrias, só lamúrias atiradas ao vento, confessas-te quando devias soltar-te dessas amarras,)
            Amor eu cerco-me de velhos tomos de sábias palavras, engulo-as noite fora, predicados imprimidos em folhas agora amarelas, cercadas por capas em couro cozido à mão, por mãos frágeis e tão hábeis, lombardas de cores tão diferentes, e, dentro, nas páginas lambidas pelo tempo, nos pós que se elevam e me fazem tanta comichão no nariz, o espírito da letra neles incutido, que me massaja a alma, engulo de uma só estocada ditongos de Lobo Antunes, Saramago, Tolkien, Gordimer, Simic, Kafka, Gedeão, Pessoa, Al Berto, Casais Monteiro, Régio, Garrett, inundo-me de palavras, muno-me de expressões, tomo-as para mim como se só para mim tivessem sido paridas, e, Tu aí ao frio, ao relento, perdida entre equinócios sem tecto à vista, entre a raiva e o ódio, e, em todo este tempo dentro de mim uma confissão na linha de montagem, quatro céleres palavras secas que te fariam roer as unhas de medo, suores frios que correriam por tua carne de temor, e, perguntas sem respostas que brotariam duma mente confusa,
            (arre,
            - au au,
            ladra cãozinho,
            - au au,
            ladra vá,
            - au au,
            prenderam-te para não te dares a um mundo macarrónico, um mundo que nada mais é para ti, para mim, porra que simplesmente não é mais que uma imagem distorcida através de velho vidro duma janela caiada, a realidade que assim surge pejada de perguntas vazias de real significado, aqui te querem deixar onde cada dia é um decalque do anterior, e, mesmo assim queres dar razão aos que nos encarceraram,)
            - sim,
            ( - sim?,)
            meu Amor eu gostava de te dar a conhecer algo acerca de mim, algo,
            ( - não!,)
            meu Amor,
            - existe um outro eu.




*Sem acordo.

Cumprimentos,
NR

4 comentários:

Anónimo disse...

Nelson,

um espectáculo esta tua caminhada existencial... em tom de epistola. Adorei!

Um beijinho :)

Nilson Barcelli disse...

Gostei das confissões... isto é, da narrativa que lhes dá corpo.
Excelente, como sempre.
Abraço.

Nelson Rocha disse...

Bela,

é, tenho que caminhar se não posso me esquecer que de facto existo,


beijo,
NR

Nelson Rocha disse...

Nilson,

um obrigado uma vez mais, acalento sempre a esperança de uma simpatia tua a cada semana,


um abraço,
NR