segunda-feira, 3 de junho de 2013

Primeiro parêntese de um Conto



     (o jogral interrompe, a audiência sustem a respiração, temem o fim antecipado, temem que a cousa termine antes de deslindarem sequer um fio do fim, uma possibilidade fatalista, um enredo a dar de si para assim arribar no que antecipa o desenlace, sem sinal do dito o jogral interrompe a estória, a performance, o nervoso miudinho, o ocasional apupo, o olhar de esguelha, um gato que persegue um roedor entre os bancos de madeira roída pelo inexorável contar dos grãos da ampulheta eterna, um bicho que corre impassível perante realidade, que no palco, um palco que eram duas estacas, estacas que eram duas cadeiras, um palco que era uma mesa aparada de pernas em cima de duas cadeiras, três para dar melhor balanço, e, o bicho que sem olhar, sem se importar não percebe o ar carregado de duvida, de insegurança, enquanto a audiência pensa se um breve repasto garantirá a vitalidade do jogral para assim resumir o seu acto, se, um fim sem fim, o pior dos fados: aquela incógnita que nada difere, mas mui mais relevante, mui mais agressiva na mente da condição humana que a outra prima da mesma por parte da família materna, aqui na tasca o público embasbacado, um ou outro tetrápode voa entre pernas de carne e madeira, mas aqui o público come-se em duvidas, se terão que recolher ao calor das camas nesta noite de inverno com o enfermo fado de desconhecerem o desenlace, sabendo, ou melhor ignorando mesmo uma possibilidade cogitada das circunstâncias que cercaram, que cercam a narrativa para assim os ávidos que escutavam o jogral agora em silêncio inda em cima do palco, assim temem não encontrar aquela esperança que mesmo sem um fado dado, podem sempre conjecturar um fado deles, um destino, um fim dado a partir das premissas, com ou sem falácias a cousa é irrelevante já que uma possibilidade é melhor que uma saca vazia de opções assim como dois duques valem mais que um ás, mas aqui nem isso lhes fora oferecido daí um temor, uma duvida, uma questão: a irrelevância do tempo oferecido no auscultar desta epopeia, que deveria, seria suposto empalidecer perante, que deveria não ser mais que uma sílfide perante, mas não é, mas nada disto deveria ser relevante perante o outro fado, um de cariz inexorável, um fado que conhecemos, que todos ouviram, traçado em naperons antigos por velhacas arcaicas de glúteos taxados em bancos de madeira em vastos salões cavados na mais dura pedra, sem janelas, nos joelhos tecidos, nas mãos agulhas, no olhar o destino e assim desenham o amanhã, meu, teu, vosso, nosso, o de todos excepto talvez o Teu, mas inda assim, não é por falta de vontade da parte dessas fiandeiras temerárias, impiedosas, descambo para uma vez entrar na esteira de quem me antecipa neste caminho, este público que carcome as unhas, que atiram para o repastado jogral pedras imaginárias em forma de ditongos,
      - anda lá com isso meu cabrão,
      esquecem-se, presos na cerca tecida pelo talento do jogral, que um fado empalidece em comparação com o real, temível fado, temível e inexorável, cruel que chega a todos, em todas as idades, em todas as eras, a todos e todas, mesmo animais, e dentro dos animais a todas as raças e cousas de estilos diferentes, aves também pecam por sofrer desse inevitável remate e sabem-no, bípedes mamíferos, nós também conhecemos o que refiro, agora meramente esquecido ante a estória interrompida antes do cerne, mui antes do desenlace, répteis também sofrem do fado, predadores e presas, insectos e peixes, quase todos, como em tudo digno em peso e importância de assim ser denominado de cousa, portanto como em tudo digno de ser cousa existe excepção e dizem os doutos que alguns já conhecendo o fado, como todos, já que peixes, aves, mamíferos, bípedes, tetrápodes, repteis indefinidos, esquecidos, e, extintos já sabem é o cariz inexorável do viver, o fim inevitável, o regresso ao pó, mesmo em cinzas daí ao pó será um clique informático ligado a uma linha de fibra óptica, será tudo um instantinho, o que quase todos, ou pelo menos nós bichos com mentes, almas, cérebros funcionais em pleno, ou mais perto do pleno que outros bichos ou bichas ignoramos, e, com isso pouco ou nada nos incomodamos, embora o jogral dê por si refugiado atrás do balcão a comer um pão com queijo e a beber uma cevada fermentada, o que sabemos é que do pó fomos paridos e ao pó retornaremos o que não sabemos e nada parece incomodar, ou se incomoda é uma borbulha de cabeça branca pronta a espirrar, a ir para não regressar, é que assim como a estória cujo fim é uma incógnita irritante uma comichão na virilha para os machos de pernas escachadas, sentados na pose digna de homem forte, de macho eriçado, a pergunta, ou melhor a incógnita que deveria fazer parte da equação seria: se vamos perecer, e, isso pronuncio com a convicção, atrever-me-ia a sugerir que o jogral é irrelevante quando à costa uma vaga brutal parece cerrar para quebrar na praia e com ela a pergunta crucial: se do pó ao pó é comummente aceite como um cariz inexorável do acto de viver, pergunto-me o porquê de procurarem o fado da estória, conto, historia, enxurrada de predicados do jogral, arre denominem a cousa como mais vos aprouver, todavia, em detrimento de questionar esse fado, não questionam se nós do pó ao pó, e, se disso convictos e certos que inexorável, arre homens, mulheres, crianças, bichos e bichas, arre porque ninguém se pergunta acerca do quando, como e porquê, dado que essa incógnita detêm a honra de ser a primogénita quando comparada com todas as outras, isto para quase toda a fauna, retiro da fórmula somente uns esquisitos que confirmam a regra que aparentemente sentem quando devem ir, e, arrastam-se ao longo de charnecas, planícies e dentes da terra para assim perecerem onde escolheram, e a esses retiro meu chapéu, meu aplauso, num suicídio falaciosamente assim dito por mim quando suicídio, quando todos temos noção assim como os bichos referidos que o cariz inexorável daquele momento era bem patente, e que a morte vinha, e, se a morte ausente, uma Morte chegaria maior que a inferior morte do bicho em causa, então revejo o meu dito, e, atrevo-me a emendar que embora sabendo o seu fim, e quando o dito fim, o bicho escolhe o local não para um suicídio, uma ida antecipada que acorda a morte de madrugada com um aviso vermelho no beeper, não, este era esperado e foi a horas, simplesmente ao contrário de nós e tantos outros bichos e bichas, com tantos nomes, tantas diferenças, espalhados por tantas classes e em cada classe inúmeras subclasses, estes ao contrário de todos os outros sabiam quando iriam ceder perante a insondável morte),

(...)



*Sem acordo.

 

Cumprimentos,

NR

2 comentários:

Bela disse...

Acho que o teu jogral representa bem a nossa actual sociedade, que tão burlesca se tornou, que já não há destino/teatro que a salve...

Um beijinho :)

Nelson Rocha disse...

Um messias então?,


beijo,
NR