terça-feira, 11 de junho de 2013

Oráculo ébrio



            Através da janela de alumínio caiado encontro um mundo roliço, um mundo que numa inexorável sina circula sem me conceder um olhar de reconhecimento, eleva seu nariz, um esgar involuntário quando o cheiro a plebe lhe trepa pelas fossas, mas despido desse mero momento espartano nem um sinal que este mundo reconheça o meu existir, pelas frinchas ínfimas do reposteiro um homem que dia sim, dia não, nos pares somente, nos pares em que o sol se eleva entre os dentes do mundo a nascente, um homem que nesses precisos dias, que feitas as contas não são assim tão poucos corta a relva do seu jardim, persegue com uma vontade férrea uma máquina, sem camisa, de barriga proeminente e eu um,
            - olá,
            o qual a janela contêm,
            e eu um,
            - está a ouvir?,
            que o reposteiro sorve com um sorriso bem real a olhar-me das malhas,
            lá fora um mundo que rebola sob si mesmo, um mundo que corre numa passada digna dum maratonista, corre em competição cerrada com outros paralelos quase iguais, semelhantes mundos, penso Talvez um,
            (basta-me um, não suplico por mais que um, um é mais que suficiente, num desses mundos semelhantes, por fora, na casca tão iguais, mas lá dentro os gotos com estruturas diferentes, constituições alteradas e pormenores corrompidos, por isso basta-me um outro mundo onde eu sentado a chuchar um rebaldio, numa sombra, de barriga proeminente, de boné do benfica, um palito gasto enfiado na esquina da boca, e, uma máquina que aguarda por mim,)
            já que aqui enquanto eu, um eu real, este eu, já que aqui na pele deste eu olho lá para fora e tudo me parece um degrade de cinza, uma vez que aqui através da janela meu espírito estala ao mesmo tempo que a minha visão sorve um homem que em inexorável tradição, de raízes fortemente embrenhadas no consuetudinário corta a relva com uma máquina, cujo som me desperta do pensar para o olhar, ao olhá-lo, ao vê-lo, vejo-me, como se a providência me tomasse de assalto me violasse as carnes e me concedesse assim um fugaz espreitar naquilo que me aguarda do outro lado do tempo, e, enquanto vejo,
            (enquanto me vejo?,)
             enquanto percebo que do outro lado não um vizinho, talvez um eu, talvez eu, talvez um eu agora que já de barriga proeminente corta a relva de sorriso desenhado sem custo e a assobiar o vira, enquanto o concluo engulo em seco, uma alma, ou uma chinesice que imita a minha alma que se parte com o susto, com o temor em mim lançado enquanto a providência me concede este incauto ver por baixo das saias do tempo, através das saias do existir,
            (gostaria de ser feliz enquanto em dias pares, lambido pelo sol empurro uma máquina de cortar a relva, gostaria de ser feliz quando todos os dias, duas vezes por dia perguntava ao cão, ao gato, à gata, à coelha, às galinhas, aos bois e às ovelhas,
            - duas ou três tigelas de arroz para o jantar?,)
            vejo-o inda lá fora e mil perguntas como a toda hora que me obturam a mente, delas não consigo perceber qual a mais afastada da,
            - duas ou três tigelas de arroz para o jantar?,
            mas uma especial que me persegue noite e dia, dias e dias, meses atrás de meses, anos que perseguem seus irmãos e inda persiste gravada em brasa na minha massa encefálica,
            - quais as influências da lua cheia na mente criativa?,
            (gostava de olhar para o sofá e para a mulher nua que me aguarda e na sua direcção me mover, assim como o vejo nas minhas costas,)
            mas perguntas embaladas por ventos ciclónicos  dão à costa, empalam-me a mente, não existem respostas só perguntas, reformulo,
            - não existem respostas só perguntas?,
            mas aqui o que parece ressoar como ondas curtas de rádio nos meus tímpanos é uma forma de pedido,
            (não uma pergunta, não uma resposta que mais tarde trará uma nova questão num ciclo sem tecto à vista,)
            um pedido, uma junção de ditongos que formam uma suplica numa voz edulcorada que me vaza os sentidos, não só me empala o cérebro com rajadas de vento dignas do apocalipse, de um apocalipse, o meu apocalipse interno, teu pedido que despoleta ventos capazes de fragmentar meu corpo em meros átomos ínfimos e moribundos, todavia quando a mim chega o vento, dele, só subsiste um murmúrio mavioso, num tom que aparenta esconder um segredo, um pedido que me pisca o olho,
            (assim percebo que o que me aguarda não reside num homem de barriga eriçada que anima seus dias através de uma máquina que corta a relva,)
            e,
            enquanto tuas palavras maviosas ancorarem no meu ouvido, um meu regresso sempre garantido dum reino daquela Puta, enquanto tu me segurares não existe âncora que me arraste, assim como não subsistem questões quando meus sentidos provam tua voz, teu pedido, estas megeras questões que nunca finam, que com a violência do martelo na bigorna todos os dias me moem os ossos, me levam perto da loucura, já que eu num agora inda me encontro, vejo-me no espelho a murmurar,
            - qual será o efeito da lua cheia na mente criativa?,
            daí,
            do teu sofá onde tu vertida sem trapo que me oculte tuas formas embebidas no laranja que rasga o reposteiro, uma luz dum este dia, e, perguntas como,
            - um mais um dois?, nunca, então porque me dizem que um mais um é dois?,
            e,
            enquanto matuto, uma mente que se persegue a um ritmo endiabrado, trinta e três voltinhas por minuto, de ti, do teu corpo, uma só vez, um só pedido, uma só palavra embebida numa capa mélica,
            - anda amor,
            e,
            - vou sim.



*Sem acordo.

Cumprimentos,
NR

2 comentários:

Anónimo disse...

Nelson,

mais um texto excelente! Consegues embrenhar-te pelos pensamentos (reais e imaginários) em movimentos sincopados pela ironia constante...
Deve-se com certeza ao efeito da lua cheia na tua mente criativa. ;o)

Um beijinho :)

Nelson Rocha disse...

Nem sei se uma maldição, ou um fado benfazejo esta influência da lua,


beijo,
NR