segunda-feira, 3 de junho de 2013

LXXXVII



“De antanho a era
em  que o vazio existia,
nem areia ou mar
nem ondas revoltas;
por forjar a Terra,
por cobrir o Céu:
um abismo aberto,
sem folha de relva.

Os grandes Deuses então
deram início à labuta,
o maravilhoso mundo
mui bem construíram.
Vindo do sul, o So
dos mares saído
reluzia sobre a relva
verdejante nas manhãs.

Os seus salões e santos
no cimo se erguiam
com coruscantes empenas,
colunas douradas,
baluartes em rocha talhados,
erigidos em esplendor
forja e fortaleza
de armação imortal.

Brotou o seu júbilo
em muitas cortes,
onde os homens engendraram
da astúcia das suas mentes:
sob colinas de Céu
bem alto erguidas
viviam por entre risos
há muito tempo.

Terríveis formas se ergueram
de tenebrosas fendas
sobre montanhas inteiras
junto ao Mar sem Margem,
da escuridão amigos,
inimigos imortais,
antigos, não engendrados,
emergidos do vazio ancestral.

Ao mundo chegou a guerra:
as muralhas dos Deuses
os gigantes sitiaram;
a alegria cessou.
Moveram-se as montanhas,
o majestoso Oceano
encapelou-se e trovejou,
o Sol estremeceu.

Os Deus reuniram-se
nos dourados tronos,
na destruição e na morte
profundamente reflectiram.
Como podia o destino ser protegido,
os seus inimigos prostrados,
os seus trabalhos refeitos,
a luz reacendida.

No fogo da forja
da flamejante raiva
foi o mais pesado martelo
preparado e brandido.
Trovão e relâmpago,
Thór o poderoso
precipitou-se entre eles,
derrubou e dividiu.

Amedrontados fugiram, então,
os inimigos mortais,
das muralhas batidas
miravam incessantes;
de volta ressoou a Terra
rugindo o mar
e montanhas de gelo
na margem do mundo.

*

Uma sibila há muito silenciosa
a sua canção ergueu –
os paços a escutaram –
ela no alto se erguia.
De destruição e morte
sombrias palavras proferiu
sobre a derradeira batalha,
sobre os Deuses sitiados.

“O corno de Heimdal
ouço retinir;
a Ponte Ardente
abate-se sob os cavaleiros;
o Freixo geme,
tremem os seus galhos;
o Lobo desperta,
guerreiros cavalgam.

A espada de Surt
rubra fumega;
a Serpente sonolenta
no mar se agita;
uma embarcação sombria
das margens do Inferno
as legiões leva
para a luta derradeira.

O lobo Fenrir
por Ódin aguarda,
por Frey o formoso
o fogo de Surt;
o Dragão das profundezas
será a destruição de Thór –
será de tudo o fim,
será da Terra a ruína?

Se no dia da Destruição
de pé se mantiver imortal
aquele que a morte provou
e morrer não poderá mais,
da serpente o assassino,
semente de Ódin,
não será de tudo o fim,
não será da Terra a ruína.

Terá na cabeça o elmo,
na mão relâmpago,
ardente o seu espírito,
no rosto o esplendor.
A serpente estremecerá
e Surt vacilará,
derrotado será o Lobo
defendida a Terra.”

*

Os Deuses estavam reunidos
nas alturas resguardadas,
sobre a destruição e a morte
profundamente reflectiram,
e a lua prateada
mandaram velejar
em mares de estrelas.

Frey e Freyia
formosas coisas plantram,
árvores e flores,
ervas agitas;
Thór na sua carruagem
trovejava sobre eles
através dos portões do Céu
até às colinas de pedra.

Não mais haveria Ódin
de andar sobre a terra
sob o peso do saber,
portador da desgraça,
o Senhor dos senhores
e dos Deuses sitiados,
a sua semente lançou,
o pai dos heróis.

Valholl construiu
vasta e brilhante;
as lajes eram escudos,
as vigas eram setas.
Dali os corvos voavam
sobre os reinos da Terra;
às portas uma águia
soturna aguardava.

Muitos eram os convivas:
triste era o seu cantar,
javalis comiam,
canecas esvaziavam;
os soberanos da Terra
sentados com seus saios
por um aguardavam:
do Mundo o escolhido.




*Volsungakvida En Nýja, Upphaf (O início), J.R.R. Tolkien

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