sexta-feira, 7 de junho de 2013

Derrame incongruente



            A coerência não se encontra, sente-se, daí um derrame cognitivo imposto por vontades que me ultrapassam, daí um autentico vendaval, uma borrasca onde eu no epicentro me reformulo como uma casca de noz de velas recolhidas, tudo bem atado, galinhas na coberta, lastro solto para assim as ondas mais alto nos elevarem, tudo isto para me dizer, para eu saber, já que nem eu sei, mas, assim também saberá quem passar seus olhos pela ode, tudo para me permitir o lamento que neste momento não sou mais que um passageiro nesta tempestade, daí a coerência não se encontrará, somente se sentirá:
             

             os cães saltam, mas mesmo que eu olhe de esguelha eles entre latidos mal dados, concedidos a custo a esta, suponho eu, minha presença, dão de si para assim mostrarem que cá andam, mais e melhor, para assim admitirem que me notam, mesmo que a minha presença neles faça nada mais que um raquítica demonstração da sombra de uma possível ectopia, sabes,
            - eu vivo mas ninguém me nota,
            um olhar de viés de cada quando eu,
            - olá,
            e meu nome nem jaquim é, não encontrei na rua, na sarjeta a benfazeja sorte de uma nuncupação, mesmo assim deles somente um olhar de través, quando eu somente desejo, caro pulguento, um uivar à lua numa madrugada de nevoeiro, aqui contigo, como sebastianista entre os farrapos frios aguardo, e, um cavalo, o eco de cascos que embatem nos paralelos,
            -paralelos?,
            - sim aqui paralelos, e para o caralho com as calçadas, para o caralho com o algeroz, aqui caleira, sabias?,
            - já me tinhas dito, de facto, estás a repetir o mesmo,
            vivo em círculos em perseguição de uma cauda que se esvai, com um vestido curto, tecido por uma mão talentosa de uma costureira de carnes, ai que esperta, isto é lusitano para a nova moda do expert, já que expert nem dá erro no word, e, ai de mim word dá erro no word, redundâncias à parte, redundâncias cíclicas de um mundo perdido entre as marés, um oceano de mundos semelhantes, que diferem nos pormenores, dou-me, ofereço-me a uma teoria das cordas, tudo se cruza, tudo se interliga, tudo se resume a um momento, numa dada altura, num exacto lugar, numa determinada realidade,
            aqui sento-me no banco enquanto na esquina a recém-assassinada praça do piolho está a tentar respirar perante a ausência de volume nas gentes que taxam glúteos em suas cadeiras, sento-me,
            - olha um eléctrico,
            quando uma gaivota passa eu conto o tempo entre o bater das asas, penso Sei que Lobo Antunes diria não uma gaivota mas sim uma noiva, quando voa, grasna, se é que as gaivotas grasnam o som que ecoa entre os prédios que descem rumo a uma ribeira pálida, lá em baixo um rio vazio, um mar que já não entra, água doce que já não sai, uma cousa pálida, um leito seco, a junção de duas encostas, uma placa tectónica que embate na outra,
            dois passos,
            - de onde até onde?.
            dois passos do amor ao ódio, amar é semelhante ao que acontece entre duas placas tectónicas, eu empurro daqui, tu daí, e, arre, antes destruir tudo a ceder, inda uma vez que eu ceda despenques no meu colo, finalmente empalaste-te, arre, penso Aqueles dias no quarto lá na praça, ao lado da toquinha,
            - lembras-te?,
            - sim,
            - lembras-te mesmo?,
            - lembro-me ora de acordar com os putos aos berros ou com as gaivotas a assobiarem,
            - só isso e mais nada?, nem mais um acordar?, nem mais um bom dia vazio de palavras?,
            - ou com a tua língua enterrada em mim,
            sabias que quando só imagino-te semi vestida, um trapo que desliza, uma pedra no sapato que te força a dobrar, um tacão partido, uma chovada que esborrata teus olhos sombreados, sabes que quando só bordo-te na nuca da minha menina-do-olho,
            hoje, num dia que aparenta uma cianometria da cousa como os outros, vá concedo, um pouco mais escura a cianometria da cousa, uma gotícula ou outra mais rebelde, imberbe rebeldia que se solta e de mãos dadas cai para aqui, sabes que hoje de perna cruzada consegui só fumar dois cigarros, sentei-me no sofá, inda de pijama,
            - tu não dormes de pijama,
            - inda de cueca,
            - tu não dormes de cuecas,
            -  inda de boxers,
            - tu não dormes de boxers,
            arre pegas e melros,
            - durmo como então mulher?,
            - nu,
            portanto:
            sentei-me no sofá, inda nu,
            deixo levar a cousa para o longe, do daqui, do agora, nem vislumbre, nem a ponta de uma vela no horizonte, na curva que antecede a descida até ao núcleo da terra, a fornalha onde seres de uma outra carpete mitológica batem metal, mithril em armas dignas de uma ou outra ode, capazes de unir homens debaixo de um só estandarte, de um só escudeiro, de uma só bandeira,
            divago já que quando observo o que me rodeia encontro muita cousa, muita cousa indigna num estar medíocre, no monocromático faz de conta que vivo que me cerca, eu sentado numa ilha bem no centro, enquanto me cercam idas às finanças, filas no supermercado, promoções no pingo doce, perguntas que ecoam numa espiral sem tecto à vista, dia após dia, dia após uma noite,
            - duas ou três tigelas de arroz para o jantar?,
             mas sentido?, sentido para outros, bufo, parece o rufar dum tambor enquanto caminho para a minha forca, caio na tentação, cedo aos pedidos líricos, nascidos da mera necessidade de o colocar, inútil, mas inda assim, luto para no fim não resistir, aguento o escudo erguido mesmo com uma flecha espinhosa enfiada debaixo do braço, e um cheiro a cebolas, as que morfei, que se escapa do estômago aberto pela Zulfiqar inda anónima, portanto, sentido para outros: bufo, parece o rufar dum tambor enquanto caminho para o meu auto de fé,
            o sentido do dia-a-dia evade-se, foge de mim, enquanto a outros em filas de hospitais, em filas para pagar a conta da agua, luz, telefone, o meo com aquelas publicidades apalermadas, que doem de ouvir, já que os executantes outrora roçaram o brilhantismo, os Monty Python enrolados sob si, deitados em cestas de vime também os viam e riam, e arre o sentido que me foge, enquanto a outros sorri tão franco, eu recuso-me, ou algo em mim se recusa, acabo abraçado pela monofobia, embora, da monofobia nem sinal, já que a esta eu amarro os seios, e, nela me enterro, já que eu a esta minha doce monofobia entrego oferendas: carnes de virgens, carne segada a uma virgem ruiva, já que este, mesmo homicida é o meu jeito, já que o dia-a-dia amorfo a mim concede-me nada mais do que a vontade por uma forca, a vontade por uma guilhotina, a vontade de um auto de fé, a vontade de me estirar um ataúde, féretro de fino carvalho, já que finanças, e cousas ditas giras, já que dão cor ao dia das oito às cinco, e, eu, quando me dizem de olhos lassos, mão no ombro, sorriso que abica, enquanto me consolam,
            - sabes que tu tens que trabalhar, tens que esquecer essa mania que pensa que podes escrever e tudo ficará bem,
            foda-se ai de mim na loucura, sempre redondo, comer cereais ao jantar,  fumar o charuto pela orelha, passar pelas velhinhas e declamar a Tabaqueira,
            - tomem lá suas velhacas,
            passar pelos cães e,
            - au au,
            com eles,
            - tomem lá seus pulguentos,
            também eu sei ladrar, também eu sei a letra da canção da canção triste,
            abro-te as pernas e procuro tuas carnes doce monofobia sempre ausente,
            do parapeito mal encontro o traço contínuo, imagino o que sentiria antes de um borrão no asfalto, pergunto-me, questiono-me até amago, mil questões de uma pergunta, inda que retórica, uma questão que me cerca, circuncisa-me a vontade, diz-me de olhos lassos, em tom baixo, tom também nasardo assim para somente eu escutar, diz-me entre dias impares, sai-me do corpo um tesão e na ponta um olhar zarolho, um piscar e uma pergunta, nunca respostas, quando uma, foda-se já foi, e, em mim uma corcunda de Notre Dame dado o peso de centenas de perguntas que dão à costa em consequência,
            solto-me desta cave, solto-me destas amarras, pedaços da Gleipnir que caem a meus pés num tilintar agudo, fungo,
            - como caralho fizeste isso?,
            - pouco barulho Fenris vai amputar a mãos dum outro,
            monofobia abraça-me, dá-me o teu corpo,  já que espreitas junta-te a nós puta de Transcendência, acende o incenso, liga as colunas, dá-lhe no chantilly,
            já que…,
            já!,
            sabes?,
            perdi-me, foda-se!,
            mil perguntas e sem tempo para orgasmos, nem que dados à pressão por quatro mãos rodadas e vorazes, para não falar de línguas e outras merdas censuráveis,
            amor hoje sinto-me um pouco dado ao nostálgico da coisa,
            minto…,
            amor hoje sinto-me um pouco dado ao bruto da coisa, então dá-me o jeito, prometo que não demoro nada, demoro pouco mais que nada, isto medido em tempos concretos, de quatro isso, vou-te arrancar punhadas de cabelos e de ti espero nada, nem ruido, nem gemido, nem ai que sobeje, já que hoje é acerca de mim, não é acerca de ti, não são tuas carnes, é, um mero sexo inchado, uma mera casualidade de eventos que me trouxeram aqui,
            assim como neste exacto momento musica se molda na minha frente em ilusões físicas, eu que me segrego, quase totalmente apartado de mim, inda abancado no sofá, com as mãos a dançarem, arre a pele arrepia, um arrepio em cópula com as minhas costas, enrola-se nas pregas microscópicas da derme, pêlos erguidos, dores, sem dores, quais dores, aqui, ergo-me perante o ar atónico de pares que se pensam altos, sem moralidade minha, com a moralidade deles, eles elevam-se tão alto, espreitam para mim, dentes sujos e gengivas inflamadas que eu espreito e nada mais, encontro uma cousa estranha enquanto me julgam, atrevem-se montados lá no alto no farol desta metafisica a espreitarem para mim, eu aguardo,
            - please stand by,
            - loading please wait,
            e no fim, depois de processar, depois de pensarem os prós e os contras, depois de considerarem as milhares de pertinências ligadas a esta minha conjuntura, depois de medirem meu falso balir em tom nasardo assim como todos os outros que além a horas certas, em dados dias, sem se aperceberem que estão a balir a horas certas e em dias oferecidos por outros, depois de muito verem meu falso acatar deste mundo, depois de muito persistirem na perseguição das minhas verdadeiras intenções, depois de muito considerarem tudo, bem somado, colocado em forma numérica na fórmula matemática que estipula o resultado da justiça, depois de perceberem a minha ameaça, dado o meu inconformismo, erguem-se eriçados de suas cadeiras, em seus fatos feitos por medida, munidos de factos e redundâncias cíclicas, vá falácias argumentativas, para assim um mais um dar para engano de todo um planeta dois, quando sabemos que um mais um nunca dois, então um grito de cara inchada, caras bonacheironas enrugadas de nojo, do esforço, gotículas de suor, olhos paridos da doença das vacas loucas, e, um brado que ecoa no palácio, que faz as fiandeiras vizinhas se levantarem e deixarem cair os naperons, um berro tão forte que se propaga por vales e charnecas, planícies e dentes deste planeta e de uma outra metafisica, onde em Gondor um Maia dá um pincho de susto,
            - culpado, culpado, culpado,
            assim me vi, assim me encontro, mesmo quando fugo do real para o metafisico, onde Tu me aguardas com um sorriso lânguido,
            a pele compra tabaco na esquina e enrola dois cigarros, um para cada eu que hoje decidiu arreliar um terceiro meu eu,
            um Jasmim, um James Dillon, o terceiro meteu férias, o quarto na pesca, o quinto em Kalimdor, e, eu assisto imponente dentro do meu envelope enquanto para as velhacas,
            - putas!,
            sabes que assim só mais um olhar,
            sabes que assim somente mais repúdio,
            lá fora as gotas agora sustêm-se nas frinchas da persiana, vejo-as enquanto me sorriem, através do reposteiro vejo seu corpo e sua simplicidade, e só me apetece ganir, ser macaco e subir a árvores, só me apetece esquecer, já que elas que mesmo face ao fim sorriem, eu que me pergunto,
            - seria feliz como uma gota de orvalho?.


*Sem acordo.
(sim, longo é a inflação)
Cumprimentos,
NR

4 comentários:

Anónimo disse...

Nelson,

derrame de palavras congruentes, coerentes e extensas...
O texto está longo, mas perceptível... até consegue fazer inveja à inflação(já que ninguém a consegue explicar/entender).
Adorei a parte dos teus "Eus", que conseguem ultrapassar os meus...
Meeeeddddoooo!!! ;o)

Um beijinho :)

Nelson Rocha disse...

Medo?,

(risos),

não mordem,


beijo,
NR

Eli disse...

Por vezes remeto-me à minha insignificância, mas quando ela fica orgulhosamente grande (como eu), tem a necessidade subjacente de se mostrar. Revelo, portanto que te li como quem ouve vozes... entendendo e deixando-me levar. Poderei dizer que "entrei em ti", se assim mo permitires.

Nelson Rocha disse...

Eli,

a verdade que tudo o que escrevo nasce de conflitos tão meus, como escondidos na minha psique, a verdade é que é um prazer ter alguém que se atreve a desbravar o que derramo e assim se aventura em mim,

beijo,
NR