quinta-feira, 20 de junho de 2013

Delatado



            És tão,
            (não, não começa assim, não o disse um eu, não o pensei, não o imaginei eu, nem outro qualquer que vista este invólucro, por isso, não, não começa assim,)
            - és tão,
            (sim, assim parece-me no limiar de um algo veras, assim anuo e permito-me, concedo-me a bênção, ou a cruz de progredir,)
            - és tão descaroável,
            diz-me uma vizinha enquanto passo, em larga passada pensando Será que contei as estrelas todas ontem, ou alguma se escapuliu, alguma se escondeu atrás doutra, e, não é então que uma voz…, uma voz…,
            (foge-me a forma correcta da descrever, não quero, não me permito, não me concedo a liberdade de oferecer numa bandeja de maça na boca a razão a incautos, ou a esta incauta em particular, não quero eu, este eu vestir a dada pele de um ser descaroável, não quero enquanto cerro os olhos em espera para a noite tragar, cerzidos a guita para assim esta noite não se desaforar entre as pestanas, aguardo assim com esperança que o sempre presente a cada esquina, aquele meu fado inegável, incontornável, aquele temível tom nasardo que tanto me arrelia não seja parido nesta noite em particular, daí o meu hesitar para categorizar uma mera voz isolada entre os crocitos sempre presentes daqueles que voam em círculo lá em cima, em constante observar, não quero durante sonhos ser perseguido pela razão em forma de cabeçudos a gritarem em tons nasardos,
            - descaroável,
            - descaroável,
            - descaroável,
            enquanto o público enlouquece, alguns pensam nos Beatles enquanto arrancam cabelos à molhada e os atiram para mim, tomates que embatem, saladas fora de validade, repolhos putrefactos, batatas roídas pela bicha,
            quero fugir a esta pele dada que cresce já sobre a minha derme natural, a este rótulo chutado para mim numa voz…,)
            - és tão descaroável,
            (quero despir o casaco que à força me vestem, pendurá-lo no armário ao lado do de cabrão, do de queles, do de tetrápode sem decência, do de porco, do de filho da puta, do de louco, do de ignorante, do de maricas,)
            assim,
            cedo-me aqui a uma censura auto imposta, cedo-me a uma censura também ela de cariz público, inda que esse tácito, cedo-me a suprimir a raiva que me inunda e se segrega por poros semi obstruídos, cedo os meus princípios para garantir o meu bem pessoal, por isso confesso-vos, um burburinho que vos atiro, a mais não me atrevo, mais não posso entregar devido ao receio de uma visita daquela trinca da demência sempre presente, ofendida pela minha simpatia,
            (ofendida pela minha mentira,)
            assim,
            num só trago, num hálito mal nutrido de ares, quase desinchado de vida,
            assim,
            vos digo quando,
            - és tão descaroável,
            ele, eu, talvez vestido de caraolho, sorriu, sorri, e retorquiu, retruco,
            - que voz… que voz… que voz sagaz,
            (em mil tormentas, em mil demências que enfrentei noite e dia, dias e semanas, semanas e meses, meses e anos, nenhuma dor surgiu de forma tão tremenda, nenhuma entrada em palco me marcou de tal forma, nenhum ferro em brasa galgou minha pele, criou vales, encostas, rios, lagoas e oceanos com tamanha violência como a mentira que proferi, como a traição que cometi,
            no outro lado, no lado oposto, naquele antípoda donde me encontro o Jaquim ergue-se do banco, com ou sem nome, com ou sem identidade, largando ao vento putrefactas expressões para assim amaldiçoar sua sorte com estranhos e obscuros encantamentos, mas inda assim, um de fado marcado por um nome sem norte cospe no chão de desprezo ao me ver,)
            - que voz… que voz… que voz sagaz,
            (deste lado,
             temi o tom nasardo da verdade nos meus sonhos, mesmo de olhos cerzidos a guita, de tudo para assim evitar o desaforar do sono, para assim pedir a deuses a ida e não volta de sonhos macabros marcados, dobrados por vozes naquele tom que me arrebita as orelhas em incómodo latente, pedi, cedi, menti para dormir, para acabar, aqui e agora, enrolado sobre mim mesmo, com as falanges engaiadas pelas unhas em estranhos ângulos, a boca entreaberta como quem busca, como quem exige retroceder a um antes e assim firmar vela no rumo certo, dou por mim a derreter-me de mim para o chão, a minha pele incandescente a esticar-se, e, enquanto se estica a soltar-se, a cair numa pasta, algo como magma, já que o ar deixou de existir, assim como eu caminho para uma cousa diferente do viver, tudo a partir de um momento, aquele em que me traí, aquele em que levei o Jaquim a sair da personagem, a irritar-se com algo mais que o nome que lhe marca o cartão do cidadão, tudo porque aceitei o julgamento popular e decidi soprar o oboé em concordância com a batuta do maestro, decidi balir a horas marcadas como os outros e,
            quando,)
            - és tão descaroável,
            (uma raiva, um tsunami de sensações, um crânio a sofrer o embate de uma pedra anónima, uma beata na menina-do-olho, uma adaga no peito, uma guilhotina no pescoço, uma corda, uma asfixia, já que a piedade, a puta da piedade deixou a vivenda, daí asfixia, daí uma mala, dentro da mala uma vizinha, a mala na mala de um carro, o carro no fundo do oceano, um despertador, um acordar, oxigénio que a sustêm enquanto lá fora seres de gelatina dançam valsas vienenses,
            perdoem-me quando,)
            - que voz sagaz minha cara.





*Sem acordo.




Cumprimentos,
NR

4 comentários:

Anónimo disse...

Há vozes que não nos largam, que num burburinho nos repreendem... e nos fazem sentir humanos. A voz da tua consciência é sagaz. Bom texto!

Um beijinho :)

Eli disse...

Eu nem acredito que escrevi um comentário enorme e ele avaporou-se, ou apavorou-se! :S

Nelson Rocha disse...

Bela,

sagaz e saída da casca, cousa irritante,

(risos,)


beijo,
NR

Nelson Rocha disse...

Eli,

ele há-de retornar, eu sou paciente por natura, e, afinal não a intenção que conta?,


beijo,
NR