quarta-feira, 22 de maio de 2013

Vontade



            Sabes a quantas ando?, espera, não me respondas, ali na esquina, só te trago a cabeça a sair da esquina, uma forma frívola que esvanece, uma sílfide em forma e, vá concedo, estar, se te cingisse a cintura, efectuasse em ti uma toracometria os meus membros atravessariam o vácuo no lugar das entranhas, uma transparência no lugar de um coração que devia bater já que o teu hálito bate na minha cana do nariz, já que o teu respirar embate nos meus lábios, um ar pesado que me faz arfar, e, perdoa-me se erro, perdoa-me se na antecipação me atrevo a ir longe de mais, sugiro, insinuo, concluo, penso, e, finalmente transmito que a cada inspirar do teu ar expirado, o que em mim me incha, ergo as patas naquele andar que parece um marchar ante a batuta dum maestro, ergo o focinho e relincho, um fio de baba, uns dentes brancos, umas gengivas inflamadas, sugiro então, que quando expiro, te devolvo o adorno e tu também corada, se tu gente com carne também de rosáceas desenhadas, tu também aspiras mais depressa, mais fundo, tu também, arre se fosses gente, se caísses na tentação quando surges da esquina de acederes às frivolidades tão humanas, a este ramerrame que é existir, e, quando surges assim sem convite para te insinuares perante este mui meu ramerrão, um decalque de ontem, do mesmo dia igual a centenas ou milhares de outros, quebras o tal ramerrame para surgires assim uma cousa sílfide bem que roço os dedos e nada em ti para me agarrar, um hálito e pouco mais, uma forma que contrasta com a luz, uma inexistência que prova que existe, mas existe em tão pouca monta que o contabilista enquanto se acede a executar a toracometria concluí inexoravelmente,
            - aqui gente nem vê-la, há uma cousa, mas na falta de melhor não digo que seja gente, tetrápode, bípede, ou raça desconhecida, é uma amostra de cousa que surge na esquina para ti,
            colado ao que seria a tua fronte, meus olhos a entrarem por aquilo que seriam teus, mas daqui só vejo as imperfeições na taipa, relevos que não deviam existir, furúnculos, proeminências que surgem de tintas que incham e desincham consoante lá fora o sol ou a chuva, colado a ti e o que sinto é um halitozinho que inda assim me incha, me faz empinar a garupa, um relincho que atiro, por favor apanha-o, mas uma esperança vã, atravessa-te, embate na taipa, e perde-se nos corredores cerzidos a guita, um labirinto de corredores cerzidos a guita e Creta que se corrói de invejas paridas, colado a ti, procuro-te a cintura para a cingir, para em ti executar uma toracometria mas um ar azedo que atravesso, um cheiro a entranhas que se imbui com o meu respirar, mas de gente, de forma de gente nada digno de nota, nem de rodapé, nem de remissão, sôfrego enquanto o teu bafo me viola os pulmões enegrecidos, um ar tão quente, um ar cozido imbuído em lascívias cobertas a tecidos de veludo, um anúncio, uma antecipação que desagua num gesto para nada mais topar que uma sílfide,
            somente um ruído que forma palavras, um eco fora inda do horizonte, embora na esquina me olhes, embora eu já erguido na demanda, infrutífera, de cingir a tua cintura, inda assim um eco ínfimo perdido entre os filamentos do tempo e do estar, um eco que contorna as ondas de rádios de curto alcance, um som que lentamente forma um caudal, uma enxurrada, uma frase, uma interrogação,
            inchado relincho de cios que me comem a coerência, cios que querem extrapolar o ser, o estar, o pensar, somente flui a imagem de o descarregar, na falta de mais decoro na expressão, descarregar serve, visto o descarregar, portanto descarregar-me, inchado relincho só sabendo sem o pensar, já que tudo um desejo, uma vontade de te tragar, de te destituir da glória, de te roubar a dignidade, de te possuir o corpo, de me embrenhar nessas carnes, que imagino, tenras, somente um desejo, inchado relincho já que nada mais me ofereces que um corpo sem forma, um corpo sem carnes que inda assim expele este ar que me penetra os sentidos, daí o rasgar, daí o desejo de rasgar tuas roupas de tocar teus seios de mármore, mas, aí, da tua costa, somente a passividade e uma pergunta, uma questão, uma murmúrio que chega impertinente para me relembrar que tu inda sem resposta,
            - a puta da minha maiúscula?.


*Sem acordo.


Cumprimentos,
NR


2 comentários:

Anónimo disse...

Antes da "maiúscula" estava tudo bem, tu sôfrego... e as palavras também. ;o)
Brilhante!

Um beijinho :)

Nelson Rocha disse...

Coitada, a Transcendência ofende-se comigo quando me esqueço de tratar sua Dignidade com a dita letra mais avantajada,

obrigado Bela,

Beijo,
NR