terça-feira, 14 de maio de 2013

Sono travesso



Um deserto, os meus pés furúnculos pegados,
            - qual pegados, à batatada, pegada tou eu com a vizinha do toldo na praia,
            um deserto, os meus pés, os meus pés, eu sem pés, comidos pela areia, tão fina, tão ínfima, tão seca que só,
            - ai mãe que isto dói,
            - é a pedra no rim,
            tão ínfima que só a pedra no rim que com um,
            - já me fui,
            cai ao fim de uns dias na sanita de excelso mármore, importada por mui pródigos importadores de mármore para uso e usufruto de lavabos, ao contrário de uns primos que importam todo o tipo de mármore, estes todavia só cousa chique, cousa que brilha, cousa digna de se puxar o lustro na casa de banho, inda assim erguidos no alto da hierarquia dos nichos de mercado, já que entre os nichos, o nicho do nicho é sem dúvida o destes pródigos mercadores, destes marcos contemporâneos, ainda assim sapientes da sua magnificência e importância para o topo da pirâmide social, já que oferecem a esses mais dignos, vestidos em sedas que outrora chegavam às catrefadas em galões de quilha quase submersa, o vigia lá no topo, qual topo?, tal o peso das sedas que o topo não mais que um pulinho de coxo e já está à altura dos olhos daqueles que nos cais, de olhares ávidos, de bolsos cheios de florins e pepitas de oiro, prata, diamantes, esmeraldas, safiras, tudo por uma seda, que passaram de geração em geração, de pai para filho, e, quando o pai se perdia antes do tempo, de avô para filho, e, se o avô já lá do outro lado, alguma tia afastada da família que o herdeiro nunca ouvira lhe pegará pela mão, o arrastará entre passagens subterrâneas do palácio, entre esqueletos e pó de ossos que agora nem ossos nem cousa física, pó e pouco mais, e, bem no fundo, no último compartimento do corredor mais escuro, dentro, na esquina mais obscura, na sombra centopeias gigantes, ursos, ursos?, não, sombras de ursos, quando a visão os apanha ratos raquíticos, tão longe da glória dos outros, dos bubónicos, e, nessa esquina, no ultimo e mais obscuro compartimento um baú, dentro do baú uma veste de seda púrpura, uma seda escarlate, uma seda cor alface, dentro do baú o seu legado, só com um olhar, num só esgar a tia desliga a sua já efémera vida com uma adaga, terminada sua função depois de a seda entregue ao novo digno usuário,
            agora sentados em dignos tronos talhados por artífices anónimos, importados por exclusivos mercadores que mesmo convictos da sua relevância conseguem fingir como baratas um olhar tão lhano que ante a freira dela só,
            - ai que bom menino tu és,
            um puxão da bochecha, um mordiscar da orelha, um cachaço de amor,
            - és o meu menino,
            e, um olhar inda lhano inda que ao andar na lama as botas se enterram, assim como a quilha,
            um deserto que me come, assim como um bicho me rói a fruta, a poupa do existir, acordo de um sono inesperado, desperto mas inda assim durmo, nem sonâmbulo nem outros ai que espertos comentários, de uns tantos ai que espertos de bata e um diploma taxado à parede com um pouco de fita-cola, já que o martelo arranha nas mãos, suja as unhas, despe a dignidade da sua irrefutável glória, antes a fita a cola, antes o diploma torto, já que mesmo torto impressiona as garotas que quando,
            - ai doutor que me dói aqui, será a apêndice?,         
            um apalpão, um toque, outro apalpão, um terceiro só para ter certeza,
            - ai doutor pelo menos pague-me um copo antes, deite este comprimido lá dentro, isso, agora, força, estou quase desaparecida, desapareci, agora, isso, agora sou um invólucro, agora,
            outro apalpão, e um acordar para a realidade, um olhar que já não impressiona, um olhar que já não deixa cair um fio de baba, uma inspecção mais atenta ao diploma torto, e, suspeitas,
            - não o apêndice menina, é a pedra no rim,
            eu que desperto e por instinto, inda a dormir, não é sonambulismo, mas inda a dormir, desperto todavia, levo a mão ao chão onde um papiro e uma pena, ergo o olhar, inda a dormir, ergo o olhar e uma cópula entre gafanhotos, o gafanhoto,
            - importas-te se à canzana?,
            e à canzana é,  as hastes em frenesim, não eram hastes, mas de tão ínfimas, só passíveis de serem cousa vista devido ao contraste na parede, as hastes em frenesim e com um abanico já foste,
            - vi-me,
            e, um sorriso nos lábios falsos da fronte extraterrestre da bicha e com um cerrar das mandíbulas arranca-lhe da cabeça, um corpo que procura a cabeça, as hastes, perdão, as pernitas do bicho sofregamente em busca da cousa que falta, uma para a outra,
            - e agora?,
            uma gafanhota a gingar rua abaixo, parede abaixo aliviada, relaxada, um cigarro em miniatura enfiado na orelha que desenhei,
            também eu após a cópula sem cabeça quando,
            - tens a pila pequena,
            um olhar lhano, e, um gesto simples, um abanar de ombros, uma coisinha da sobrancelha, uma gosma que cai do tecto, inda assim tempo, antes de limpar o suor entre os seios, inda assim
             - tens a pila pequena,
            e, não sem cabeça, ou melhor sem cabeça quando o ego se encolhe numa esquina, apoiado nas patas traseiras, nas dianteiras um pedaço de queijo, e, eu contento-me a roê-lo, enquanto do chuveiro, entre o vapor da casa de banho um,
            - tens a pila pequena,
            que ecoa, que desenha no vapor, um não convite para que me junte, somente um, logo no após,
            - tens a pila pequena,
            e, no deserto, penso em cousas ínfimas, areias, pedras no rim, cousas que inda mais pequenas, cousas que de rato levam o meu ego a ser gente grande, mesmo quando nua, debaixo do chuveiro um
            - tens a pila pequena,
            faz a batida do sono do qual despertei, inda que nunca tenha acordado.


*Sem acordo.


Cumprimentos,
NR

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