quarta-feira, 1 de maio de 2013

Quando o predicado não nasce



            Sem um predicado que me cative viro-me para o vento e deixo-me comer, enrosco-me de mim para mim e deito-me no mosaico gelado, no alto de uma colina, um declive, uma planície que se prolonga até um encosta rochosa que temível se eleva mui acima de uma floresta de eucaliptos e pinheiros mansos, cruzo a perna, deitado no mosaico, cruzo a perna e escuto, já que sem um predicado sirvo-me deste vento que me traz murmúrios pejados de notícias do norte, do sul, do oeste, mas nunca do este,
            (e um eu pio concede o esclarecimento, ilumino a cousa com um parco facho que crepita em gordura animal, espero eu que gordura animal, abstenho-me de escutar o que o este, o leste me quer oferecer pela simples razão que assim me o disse Tolkien, sim disse-o somente a mim, ainda me lembro,
            - nunca escutes o leste,
            o eco ainda me chega ao ouvido,
            - nunca… o… leste,
            assim desaguo agora, ainda de perna cruzada deitado no gelado mosaico,)
            o vento traz-me notícias do norte, do sul, do oeste, e, agora corrijo meu erro anterior: o vento oferece-me quase numa bandeja de prata, servida com adornos de tentação, o vento agora não o vento uma mulher, agora sem correntes de ar a vesti-lo, agora um vestido escarlate, agora um vestido purpura, e, enquanto me sorri corre o meu corpo com uma única unha cor de uva, parece que arranha ao leve, arranha mas não fere, cada vez arranha mais, a cada arfar meu crava-se um pouco mais na pele, rasga um pouco mais, com cada arfar mais longo, mais pesado, mais parido do que nascido da necessidade de morfar oxigénio, quanto mais se crava, mais fere, paradoxalmente menos dor sinto, ou a dor deixa de ser dor?, em concordância mais arfo, mais pesado se torna o ar, mais quente se torna a pele, gotículas de suor tomadas de pânico nem chegam a cair para o oblívio erguem-se em vapores fervidos numa existência tão efémera que quase me atrevo a concordar com os doutos quando sugerem que foi tudo menos uma existência, o vento traz-me notícias de todos os pontos cardeais ao contrário da minha primária, mui precipitada premissa assim vos digo,
            - mil perdões,
            tenta-me com o leste, com o este, tenta-me para eu aceder a escutar que corrupios homicidas ocorrem nessas cadeias montanhosas tão longe, mas ainda recordo,
            ( - nunca escutes o leste,)
            e, eu nunca o escuto, em bandeja de prata, ou envolvida em águas mornas de termas que me cozinham o corpo até num,
            - ding
            estar no ponto,
            à virga-férrea a brisa, ainda era brisa, a brisa torna-se vento, o vento ainda é um mero vento, o vento ergue-se em rajadas dignas da época das monções, um vento que leva a madeira salgada a ranger enquanto ampara o pano das velas,  um vendaval que ganha corpo e eu quase a querer descruzar a perna,
            (ali ao fundo Tu fazes croché aparentemente indiferente à borrasca, agora uma borrasca que se eleva, e, mesmo aqui sem mar vagas pródigas capazes de me colher à poupa elevam-se, vagas capazes de provocarem o meu rodar sobre a própria ré, e, dou-me ao pio da coisa e lanço umas conjuras mal montadas a um poseidon, enquanto rodo com todo o pano das velas recolhido, encolhido perante esta borrasca que colocou esta casca de noz a rodar sobre a poupa, sem ímpeto para escalar a próxima onde frontal, estagnada no vale entre uma que já foi e outra que se ergue, e de poseidon nem um sinal, nem um dente do tridente,
            - minúscula?
            - achas que isto é hora?,
            - poseidon com minúscula?, és tão querido,
            Ela pousa a bolsa do croché, coloca as agulhas num beiral, ergue seu corpo e com um movimento da mão esquerda, um quase não movimento, uma cousa praticamente imperceptível ao olhar despido, um comprimento papal, um… arre que me faltam dotes descritivos, arre que ainda rodo sobre a poupa,
            calmamente Ela regressa à cadeira, sentada de novo, cruza a perna uma vez mais, pega nas agulhas, pega no saquinho do croché e continua,
            e, eu já com o pano todo desfraldado rumo ao horizonte,)
            e, eu ainda com a perna cruzada sentado no gélido mosaico enquanto olho para baixo, até bem lá ao fundo onde uma montanha se ergue temível, e na sua sombra uma floresta, olho quando na verdade escuto a brisa, sorvo o vento que me traz notícias, boatos, murmúrios de sussurros que ainda estão em fila de espera para um dia virem a ser zunzuns do norte, do sul, do oeste e,
            ( - nunca escutes o leste,)
            do leste,
            - nunca te escutarei.


*Sem acordo.


Cumprimentos,
NR

2 comentários:

Anónimo disse...

Ui, que hoje estás extremamente bucólico e virado para a natureza... :D
Terás perdido o sentido de orientação? ;o)

Um beijinho e bom feriado :)

Nelson Rocha disse...

Olá Bela,

é verdade: ando sempre sem norte,


beijo,
NR