quinta-feira, 16 de maio de 2013

LXXXII



“(…)   
- Trinta
            e vinte e oito ou vinte e nova, era conforme, até à mesa, calcule-se, buscava adivinhar o último número das matrículas dos carros, os estacionados não valem, dizia nove e zero, dizia três e cinco, a mesma coisa com as marcas, a mesma coisa com as cores, se a empregada dos Correios demorava a sair decidia
            - Vou contar de cem a um e se não aparecer adeusinho
            não aparecia e ele de um a cem, resignando-se, aos noventa e cinco ela a fechar a porta e o meu irmão mais velho torcendo a biqueira no chão, amuado, tantos números por meia dúzia de minutos até à mercearia, mal surgiam os caixotes com os cartões dos preços tortos, em cima, uma ordem rápida, baixinho
            - Pisga-te depressa
            e ele a subir a rua de novo, vencido, deixando de lhe escutar os tacões, procurei o recado da Tininha na cova dos tesouros deslocando a pedra e a cova vazia, vazia não, um caco de espelho e o que me rala o caco, ia jurar que a Tininha por ali,
            - Clementina tão feio
            não perdeu nenhuma criança, o marido atenções, viagens, pulseiras, não professora como eu,
            - Professora que pelintrice,
            a aturar por um punhado de trocos a maldade dos alunos, advogada ou médica, se médica mostrava-lhe o meu peito
            - Já viste?
            e ela sem se deter
            - Fomos amigas há muito tempo esqueci-te
            apesar dos brincos de princesa e das pétalas nas unhas, acanhamento de contar-lhe da almofada de alfinetes, confessar,
            - Tive saudades tuas
            Clementina um nome que cheirava a álbum e a crostas de cola antiga, a Tininha, de bata, com o bolso cheio de canetas e estetoscópio ao pescoço
            - Eu não tive nenhumas
            e tanta frieza, meu Deus, em vez de me indignar afligia-me, procurando onde errei
            - Em que é que te ofendi?
            sem descobrir fosse o que fosse, emprestei-te o Ernesto, era eu quem abria os pinhões num calhau e magoava os dedos, consentia que tocasses a campainha da bicicleta do meu irmão mais velho e nunca te acusei
            - Não fui eu foi a Tininha
            não me ouviste uma palavra de troça
            - Não contes a ninguém
            não contei a ninguém que te chamavas Clementina, pelo contrário, garantia
            - Não se me dava de me chamar assim
            e não se me dava, qual a importância de um nome, a gente tem o nome que quer, não fui capaz de te dizer o que escolhi e pelo qual me dirijo a mim mesma quando, num impulso do vento, os pinheiros e o mar se calam e eu sozinha, os meus pais e os meus irmãos esfumaram-se, os melros já não pássaros, coisas, algumas vozes ainda mar não falam comigo, conversam entre si, sobra o meu pai criança diante do avô de chapéu a fazer a barba de manhã esticando a pele do pescoço e a navalha a subir espuma fora, no final o meu avô convidava-o a passar a mão nas bochechas avaliando a perfeição do trabalho
            - Parece um rabinho de bebé não parece?
            o meu pai para mim, tão pequena quanto ele, orgulhoso de mostrar-me
            - Vê como a pele do meu pai parece um rabinho de bebé
            e parece um rabinho de bebé, pai, tão suave, um rabinho de bebé que se podia estar a afagar sem descanso.
            (…)”


*Não é meia noite quem quer, António Lobo Antunes

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