quinta-feira, 16 de maio de 2013

Efeitos nocivos



Chovia, agora cessou, o que lamento, a roer as unhas em lamentos cantados, lamento que gotículas agora só aquelas que sobram esquecidas no algeroz que inda pinga, que inda pinga dado que roto, ruído pelas ferrugens dos tempos, embora minhas unhas roídas do lamento que a ausência da chuva semeia no meu invólucro,
            chovia, agora cessou, um sol que se infiltra no escuro que me cerca, entre as frinchas do reposteiro, caminha pelo tampo da camilha até mim, até me tocar numa luz, num bafejo de voz, um tom nasardo, que incomodo, que arrelio, um toque quente enquanto tudo o que prezo é o frio, um facho de luz quando eu prospero nas sombras, uma pedaço de luz quando eu somente aguardo, ansiosamente, pelo último trago do obscuro, sombras que dançam languidamente, que me enviam risos, me tocam, embalado por um ritmo frenético, ou assim parecerá a quem de fora observa, uma batida incandescente, no exterior, na persiana, gotículas enviadas por deuses e deusas menores lá dessas confusas metafísicas, eu curioso espreito, nas horas do sono espreito pela esquina do olho, espio ciente da raiva que cairá sobre mim se um mero hálito os despertar para o meu existir do outro lado, lá fora gotículas que embatem na persiana, um sol esquecido que não se aventura pelo reposteiro adentro, sentado, no escuro, sentado numa carpete de tecido rude, uma gata que seca o pêlo numa almofada escarlate propositadamente deixada numa mesa pé de galo, eu, que ainda escutava as gotículas que com a violência do martelo na bigorna batiam na persiana, a luz ausente, a luz uma inexistência que não penetrava na persiana, que não atravessava o reposteiro, que não repudiava as sombras, um escuro, um som frenético que me embala as entranhas, me acalma o fígado, já não diz através das mãos que tremem, ou dos suores em avalanche pelo corpo, outro copo se faz favor, os rins que ronronam no mesmo tom que a gata a secar o pêlo, os rins que já não chiam nas suas mecânicas com poeiras numa engrenagem que acima de todas as outras se requer perfeita, uns pulmões que me permitem sentir o sabor acre do cohiba sem parir tosses mascadas em sangue, enquanto aqui no escuro, e, lá fora gotas que caem, e, ao cair um som ritmado que marca o compasso do meu respirar entre a dança das sombras, um corpo, e, dentro deste corpo entranhas que por breves instantes trabalham sem perrices nos mecanismos, aqui não preciso do uísque, aqui não preciso de mijar, aqui posso sorver fumos que me deliciam sem uma tosse que ergue as sobrancelhas de quem assiste, aqui,
            chovia, agora um vazio no lugar do ruído, um mero eco frágil quando uma gota cai para o oblívio do algeroz roto, um sol que espreita e me diz cousas, não entendo, não percebo, fala numa língua que não escuto, fala num tom nasardo que me arranha a audição, rugas que se formam, olhos que cerro, orelhas que obstruo inda assim uma voz num tom nasardo que me chega aos sentidos, um sol que espreita, um sol que se esforça para me tocar, e, cada vez menos sombra, cada vez menos escuro, ouço mecanismos a emperrarem, o fígado a roer-se, os rins a chiarem, os pulmões a canibalizarem-se, o meu corpo a aquecer, a minha pele a escorrer de mim para mim, a face já no peito, o peito já no sexo, o sexo já nos joelhos, escorro, derreto enquanto ele naquele tom nasardo ainda sussurra ditongos disléxicos, o meu arrasto, patético a quem de fora vê, uma mancha, eu uma mancha enquanto me arrasto deixando pedaços na carpete, o meu corpo que se desfaz, um sol que fala, uma gata que ronrona, e, na esquina ao lado de um baú com revistas e jornais velhos a última sombra, que se esvai, que mirra, assim como este existir tolhido por este sol que insiste em falar num tom nasardo.




*Sem acordo




Cumprimentos,
NR

6 comentários:

Anónimo disse...

Nelson

absolutamente fantástico! As tuas descrições são deliciosas... sempre com aquele teu "acutilante" cunho pessoal. :D

Um beijinho :)

Nelson Rocha disse...

Será talvez o cunho que me defina?, enfim redundâncias,

um beijo bela e boa noite,
NR

Eli disse...

Pedaços que mexem com um lado qualquer que ficou trespassado...

Eli

Nilson Barcelli disse...

Prosa de encantar... como sempre.
Excelente, meu caro.
Um abraço e bom fim de semana.

Nelson Rocha disse...

Eli,

bom regresso, e, dou por mim a achar que existem demasiados lados trespassados,


cumprimentos,
NR

Nelson Rocha disse...

Nilson,

uma vez um obrigado por tuas simpáticas palavras,

bom fim de semana meu caro e um abraço,
NR