terça-feira, 21 de maio de 2013

Aparências



            - É um sequilho se me fizer o jeito, aquele ali da esquina da montra que me sorriu quando passei por aqui, à coisa pouca de dez ou quinze minutos, ceda-me, mas, somente se não lhe fizer falta o jornal, e, um martini se me fizer o favor, e, antes que me esqueça, mil perdões, que quase deixei passar tal indecência, quase cometi o crime, quase, mas antes do definitivo cometi, deu-me na tola o juízo e então, meu caro, como já disse, mas, para não subsistirem duvidas, para uma vez que eu abandone o estabelecimento não ousem dizer cousas indignas acerca da minha mui pródiga, integra, irrefutavelmente sorridente persona, atrevo-me, com sua permissão a referir a correcção à minha anterior falta de decoro, educação e brio social, nunca em mim renegar para segundo, terceiro, ou um de terceira linha quinto lugar o brio social,
            (olho para a esquerda em busca de alguém que possa espreitar pela porta, enquanto danço com os dedos entre teclas descarregando o que fluí, uma necessidade que se infiltra debaixo da pele, enquanto fumo e espreito a estrada através das falhas na vinha, sento-me nas escadas e escuto alguma coisa que saí disparada das colunas, cousas escolhidas a dedo para não ofenderem os meus mui sensíveis, notavelmente sensíveis sentidos, cousas longe do tal tom nasardo, que quem vai lendo já escutou e atrevo-me a insinuar que também não gostou, a voz do goucha de manhã, os agudos estridentes, criminosos insinuo, digo, da julia pinheiro, enquanto escuto o que escolhi tudo é arrastado pela enxurrada de ditongos musicais que me sobem pelas costas, comichão, comichões, comichão boa, não daquela que tenho que coçar e deixar a derme irritada, cousa boa, cousa que a mim tão pouco dado a sorrisos e a bons dias, cousas que promovem o bem estar dos meus ouvidos que perseguem a cauda para na cesta, para a sesta formarem um bom colchão entre as camisolas velhas dadas pela patroa, toma lá que quentinha esta é, enrolam-se para dormitar inda assim as vozes tímidas, pela calada como assassinos e usurpadores infiltram-se para me caluniarem, mas, aqui nem calunias, só uma musica, uma vinha, um cigarro, uma escada, uma sombra lambida na esquina pelo sol, um olhar de esguelha para a porta para confirmar que ninguém me vê enquanto o corpo se quebra em movimentos involuntários, enquanto de cigarro à pendura, preso na esquina dos lábios escrevo num engenho, os dedos limitados à sua astucia natural não chegam para o jorro, abano-me e não vejo como o parar, não topo o botão off, não consigo não quero, espreito a porta, temo a censura, temo o louco que já na tasca atiram, se com guita no bolso excêntrico se nu até ao caroço de florins e cousas pesadas que medem o valor de gentes pequenas: tolo, maricas, cousa bípede com manias e tiques estranhos, ainda que espreite, e, tema, inda que o medo se sobreponha a quase tudo, nada me sobe pelas costas como este arrepio da melodia que bate à costa, uma vaga que quebra naquele tónica que amacia os sentidos, e, enquanto olhamos o infinito, a vaga que quebra sobre si no seu peso, ao fundo, prolonga-se, e, fim?, fim nem vê-lo, para a tasca sou tolo, em casa o silêncio, o esconder o que visto, ou melhor, visto o que condiz com a maré sendo cá dentro uma pintura tão mais, porra que me faltam expressões, e, o mar, o oceano que sem fim se estica até ao horizonte, um eu, o que se desgarrou daquele nas escadas o qual o corpo abana, o que olha de esguelha, um eu que fugiu daí e manteve só a comichão nas costas, e, a vontade debaixo da pele para descarregar o que surge, não lhe perguntem, não me perguntem, o que é, inda assim da tasca, o que é?, e, nada a dizer quando da porta, que tás a fazer?, mas um eu aqui que já foi, um invólucro em piloto automático, enquanto me reúno com o que zarpara à cousa parca de minuto ou dois, e olhava o mar, a vaga que caía sobre si, que cedia nos seus alicerces ante o seu peso, ante o seu desequilíbrio, e, um quebrar violento, areia que se rasga, cicatrizes curadas pelo agressor num toque de afecto, enquanto a vaga desfeita se espalha pela praia, um toque de curandeiro enquanto as crostas feias são alisadas, são esquecidas, um esgar de dor da areia prontamente apagado, para inexoravelmente ser redesenhado quando a próxima embalada quebrar sobre si, ceder nos seus alicerces e com a fúria de um Poseidon saído do refugio de Baco verter-se-á na sua crosta lisa, frágil, ínfima, formada de grãos que de tão pequenos diria grãos atómicos, ante o mar, enquanto regresso para um olhar de esguelha dar à porta, um escutar indiferente ao é maluco coitado, da tasca, um mero murmúrio pronunciado entre os dentes, saído da língua bífida, um hálito que nunca deveria formar um som, sei que assim foi pensado já que o vento, a brisa, o ar que me sorri mo oferecem, enquanto me consolido debaixo da vinha, humilde depois de sentir o som das vagas que nascem do mar, tão humilde, sento-me, espreito e nada, o escuro da porta, sem olhos que espreitam, sem murmúrios, só aqueles vindos do norte, mas para esses o meu ide para o caralho, parece-me mui apropriado, munido de justiça, razoável, parece-me, arre…, parece-me…, nada se me enrolo aqui nunca sairei, e, onde ia?, perco a coerência dos assuntos devido a uma ausência de planeamento, a uma ânsia que surge debaixo da pele para aqui compor uma cousa, na falta de melhor expressão, uma cousa com ditongos juntos, predicados, na vinha, um cigarro, que já passou do segundo, o som que se repete, e a comichão que ainda trepa, mas a vontade de coçar inexistente, o vermelhão na pele inexistente já que esta comichão é como um beijo apaixonado, uma luxuria inchada de sentimentos, é como uma mula teimosa mas mansa chamada goquinhas, é uma bênção, um dom, é um desaforo de sentires que a custo evacuo, nunca todo já que o corpo não sustem o caudal, impossível de perseguir o volume do que penso, quando penso, e, como penso da minha mente parido à virga-férrea para a realidade,  a frustração, a raiva, daí de vela de estai inchada, saio ao mar para dar comigo no normal, ainda que dentro nos pulmões, nas vísceras, no pâncreas, no estomago, no fígado inchado tudo brade para o caralho com o normal, agarrem no normal pelo cachaço e espetem-no na parede que escorre como barro, mas inda regresso antes que nesta fracção entre o que me transcende e o físico, entre o real e o metafisico, entre o concreto e o abstracto, nesta diferença entre o amor de deus pelo diabo, e, o amor do diabo por deus, nesta diferença, neste buraco me perca para jamais dar à costa, naufragado, embebido, comido, ferido, nunca mais ser empurrado pelas vagas, enrolado, cambalhotas em sucessão, areias soltas de feridas abertas nos olhos, nas orelhas, os calções de banho que saem, os arranhões dos grãos atómicos de areia por cima das comichões, arre que não dou à costa, se não mudo a tónica nunca mais encontrarei um bom porto onde no bordel me enterrar em algo quente e com cada investida um pouco menos da raiva, um pouco menos do ódio por ti ó coisa normal,)
            - já que de brio social vivemos, não é verdade meu caro?, não precisa de responder que as suas sobrancelhas já disseram que sim, então permita-me meu caro reformular com toda a tenção ao detalhe imprescindível à fomentação de amizades e cousas derivadas, se aí de mim, aí de nós se não tivéssemos atenção ao que dizemos, como dizemos e quando dizemos, aí de mim, se não aprouvesse a vossa excelência ouvir o que digo e ignorar o que faço, já do que ouvimos vivemos, a palavra dita vale mais que acto efectuado, daí meu caro ainda que o carro em cima da passadeira, e, nem quatro piscas para salvaguardar a situação, a placa não se vê, a passadeira é inexistente para mim, e, cá entre nós que se lixem os peões, tudo claro dentro do decoro, já que se visse um lhe diria mil perdões não vi a passadeira, sabe como é a idade, deixei os óculos de ver ao perto em casa, permita-me antecipar com a devida coerência as minhas mais profundas desculpas, inda, que mal vire as costa um vá-se foder cuspa, digo a vossa excelência em confidência, permito-me à naturalidade da confidência diante de tão grande amizade que formamos quando eu provei minha digna educação já que me disponho aqui a corrigir um terrível errado, daí uma vez mais e agora para terminar, um terminar definitivo reformularei: bom dia meu caro, é um sequilho se me fizer o jeito, aquele ali da esquina da montra que me sorriu quando passei por aqui, à coisa pouca de dez ou quinze minutos, ceda-me, mas, somente se não lhe fizer falta o jornal, e, um martini se me fizer o favor.




*Sem acordo.




Cumprimentos,
NR

Sem comentários: