terça-feira, 7 de maio de 2013

Adenda



Uma cama onde deposito um invólucro mal feito, mal medido ou medido por uma costureira mal aprumada, uma talvez, imagino, atrevo-me a sugerir: uma costureira maneta, coitada, mas talentosa para quem de dez só aufere cinco dedos e umas tantas falanges, de dedos roxos do frio nos invernos, dedos de rosáceas desenhadas quando o calor desponta, ainda assim dia após dia cerzia invólucros para pequenos e graúdos, juntava tecidos vivos ou recém partidos recolhidos debaixo de um rufar ritualístico, entre restos de homens, mulheres e crianças atiradas para o solo para o eterno sono, de sachola na mão, na única mão, levantava a âncora quando a lua se esquecia de cá vir, e comida pelo escuro, vestida de luto, o marido que já fora, agora servindo como pele para um qualquer, dizem os registos que é caixeiro-viajante e vende microondas, ferros de engomar e mata-moscas tudo marcado a letra mui pequena, quase imperceptível ao olhar despido: made in china, agora vestido com o invólucro do seu falecido querido dançava entre as campas da vida, e ria quando queria chorar, chorava quando o sorriso parecia querer nascer, coitada a costureira é maneta, sem uma mão muito ela faz, imagino, imaginem por favor o que faria se abençoada esta alzira possuísse duas mãos, em detrimento de cinco dez dedos, e, arre com todas as falanges à sua disposição, já que ela vivia para as peles que cerzia com pedaços de fio, ai de mim, cabelo de gentes, nada de tetrápodes, seus invólucros são nascidos de uma mui simples fórmula: amor e condimentos humanos naturais recentemente falecidos,
            - vai uma mini e uns tremoços,
            e um couveiro que desaparece noite fora enquanto ela de mão sã cava, a sachola ecoa pela noite enquanto um ou outro morto menos falecido ergue um olho esbranquiçado, já não bem esbranquiçado, assim talvez como cor de leite azedo, um ou outro humm de protesto que sai de uma ou outra sepultura mais antiga, mas a maior parte talvez porque mais mortos que estes que humm inda, talvez porque não aqui e onde estão querem lá saber do que fazem com suas recém largadas carnes nada dizem, enquanto agora de tesoura e bisturi vai cortando a costureira, vai rasgando a pele e músculo, com um mão ágil, digna de cirurgião, mas esta somente faz o que tem que fazer pelas duas sem um sinal nem que breve de doxomania como aquelas de homens e mulheres vestidos de batas,
            (fantasmas?,)
            em salas hermeticamente fechadas com metais frios, salas que sei que devem ser brancas, já que se não o forem não combinam, vem ele, ou ela já que arribo por este caminho, delgada, ou delgado, de cintura cingida por uma bata tão branca como a folha que agora me encara, folha que,
            ( - fantasmas?,)
            ela, ou ele transpõem as portas como deuses preparados para retalhar, pele, carne e ossos, massas encefálicas, tornar um sorridente egocêntrico num chorão incapaz de encontrar a própria cauda, estando ela todavia bem presa ali no cóccix onde o cirurgião, outro, este um homem, é, tem que ser, os homens é que são os cirurgiões plásticos incapazes mesmo que crescidos de esconder a perversão que lhes corrói as entranhas enquanto,
            - maiores, assim, ai que ricas maminhas minha senhora, isto claro digo a vossa excelência numa opinião, num opinar que me atrevo devido ao meu mui caríssimo e importante, sapiente quase me esquecia, saber de médico, e, este nunca me esqueço, de cirurgião plástico,
            este em causa fixou a cauda a pedido bem no cóccix,
            e um outro mexeu os ovos na massa encefálica e ele que ria agora chora, ele que egocêntrico agora sem centro, uma volta das trinta e três e nem vislumbra cauda, uma volta das trinta e três e cai sobre si mesmo, enrola-se, encaixa mui propiciamente a perna esquerda por cima do pescoço e estica a língua curta, infelizmente curta e eles ali à pendura, amorfos, pateticamente descaídos, apêndices de triste figura, e uma língua, a sua com certeza que nenhuma outra se atreveria a chegar tão perto de tal exemplo de triste apêndice, e, estica a língua já que uma lambidela e,
            - ai que fresco bom,
            já que uma lambidela e de triste nem sombra, todo eriçado, todo acordado, todo bem aventurado, todo,
            - bom dia!,
            com um sorriso que os maus madrugadores olham de esguelha enquanto remoem um bom dia contrariado, enquanto,
            - olha-me este filho da puta, - baixinho que não vale a pena ofender a mui sacrossanta mania consuetudinária de ser educado logo pela manhã,
            a perna que dói, a língua que fraqueja e o apêndice que ainda apêndice, o patético adornado com dois moranguinhos,
            ( - moranguinhos?,
            - não me sai melhor Amor,)
            ainda patético,
            mas isto que escorre daqui onde sentado me encontro, de perna cruzada, de cigarro enfiado na esquina da boca, um,
- vai fumar lá para fora, - que abica,
um miar, um ladrar, uma vaga de sons que nascem de mãos dadas com o cessar do dia em ser dia, tudo isto que aqui remato, que aqui, arre, vos empurro para as goelas e nem um piar adornado de olhos lassos azuis claros me faz hesitar, tudo para desaguar nos doutores que vestidos de branco, de cintura cingida por batas impecáveis, deixadas durante a noite a secar, a esticar, a consolidar,
            ( - consolida amor, consolida,
            - mais?,
            - mais amor mais,)
            em cima da camilha, e, de manhã entra na sala de operações: ela ou ele: deuses que retalham minha, tua, vossa, nunca Tua carnes, retalha até ao osso, cola ali, corta aqui, costura ali ao fundo, junta esta ponta com esta, este vaso com aquele, aquele célula em duas, e aquela ponta de intestino bem fechada com um nó frade, eles de bata branca então, por simpatia, por moda, por: já que eu tenho uma bata branca a sala hermeticamente fechada a metais frios também tem que ser branca, e,
            - é?,
            é,  enquanto eu olhava  o tecto, e no tecto luzes, no tecto uma aranha que atrevida passou pelos metais frios, que esfregava as patas, uma aranha que galhofava ao olhar para ela mesmo, de um olho para outro,
            (será que a aranha mais que uma alma?, vá, mais que uma alminha?, já que a aranha com tantos olhos, já que a aranha mais olhos que a gente, já que nós com dois temos ou assim me dizem enquanto crescia, ali entre aqueles dois pedaços brancos de coisa encefálica, entre um e outro neurónio que outros já foram comidos por ervas mal fumadas, ali entre esses dois pedaços aquilo é a alma, bem, a alminha,)
            assim como a senhora, uma alzira que costura noite fora invólucros com peles recentemente deixadas vazias de alma, ou alminha naqueles mais infelizes, naqueles,
            ( - que não acreditam em noxo senhor jesus cristo, - dizem as irmãs carmelitas de dentes colados em tensão enquanto esperam por uma réplica que as deixe arrepiadas não de terror, não de heresia, aterradas porquê pensam Ai, noxo senhor jesus cristo que é isto que se achega aqui entre as nádegas, )
            e a alzira tão talentosa mesmo abençoada só com uma mão, quiçá,
(atrevo-me a emendar a minha premissa, mudei de opinião, mudei de pensar, troquei de camisola, ou alguém me despe para vestir com outra cousa,)
com duas nem metade da habilidade, quiçá …, daí a minha bênção, se não: e a alzira tão talentosa amaldiçoada só com uma mão, mas eu não amaldiçoei, eu abençoei, se em detrimento de uma duas, nem metade da habilidade, nem metade do dom, nem metade da imaginação, e, jamais cerziria cousa alguma além de tecidos amorfos de lã, poliéster, licra, algodão, mas nunca epidermes e músculos, nunca moldaria cabides feitos de rádios retirados de sepulturas, tanto talento e para mim um vestido curto, um braço que não cabe no braço, uma perna que não cabe na perna e o pé?, nem se fala no pé, não cabem, não servem, um maior que outro inda para piorar a cousa já de si malcriada para mim,
eu na cama a medir-me de fita bem atenta enquanto um corpo sai do outro e quem visse,
- está na muda,
mas eu não estou na muda, encomendei um fato que não me serve, encomendei da melhor inda que maneta e ainda assim um braço que não cabe, uma perna que não reaparece ao fundo, um pé maior que o outro, um sexo que estranhamente está maior,
 enquanto o coveiro,
            - renúncia renúncia,
            já longe da primeira mini, já esquecido do primeiro tremoço, enquanto,
            - renúncia renúncia,
            ao ver o ás de espadas a ser cortado com a dama de copas,
            - renúncia renúncia,
            enquanto eu,
            - não me serve não me serve,
            enquanto a alzira,
            - e a menina que vai querer, mais rabo?, deixe ver, ui bem mais, que isto não é cu que se apresente,
            na mesa de pé de galo uma carta em letra fina, lacrada com um NR uma carta que grita indignação da cama onde me deposito,
            e ignorado,
            - é só o cu portanto?,
            a menina,
            - sim senhora,
            um braço que não veste o braço, uma perna que não serve na perna e,
            - senhora senhora por favor cosa-me de novo.

4 comentários:

Anónimo disse...

Assombroso! Mas que imaginação mais fértil! Já pensaste em escrever um livro a sério? Eu ia gostar de ler...
E já agora: para onde foi a mini e os tremoços? :D

Um beijinho :)

Nelson Rocha disse...

Olá Bela,

obrigado!,

e, já está escrito, até já esteve na calha para publicar sob a alçada de mais que uma pequena editora, mas como o interesse é das pequenas editoras acabo por receber sempre uma proposta em que eu teria que obter um número de exemplares.... e nha nha nha, até posso ter umas palavras no bolso mas tostões nem por isso,

(risos,)

um dia,


um beijo Bela,
NR



P.s. O prelúdio do meu pequeno tomo até está aqui algures no blogue, sob o título Prelúdio (reedição) se quiseres dar uma vista de olhos, a narrativa todavia é muito mais linear.

Anónimo disse...

Nelson,

comentei o teu prelúdio no próprio.
Gostei muito do que li... Acho que tens valor e de facto, é pena que seja tão díficil publicar em Portugal. Contudo acho que não deves desistir, porque um dia terás com certeza oportunidade.
Uma coisa é certa, rico de palavras és, mesmo que não tenhas tostões no bolso.

Um beijinho :)

Nelson Rocha disse...

Olá Bela,

realmente tempo não falta e para já o meu pequeno tomo está muito bem na gaveta a ganhar pó, aguarda pacientemente o momento propício,

e, bom olho, realmente a minha principal influência é indubitavelmente Lobo Antunes, perco-me nas suas obras, nas suas redundâncias, seguido sempre de perto por Tolkien embora numa tónica completamente diferente,


um beijo e um obrigado pelo teu gostar,

NR