quinta-feira, 9 de maio de 2013

Acordar



É só mais um começo, é só uma vontade, é só uma coisa que parece ser vida, renasço noutro corpo, noutro sexo, noutro ser, noutro estar, noutro existir, pergunto-me enquanto diante de mim o meu corpo aumenta, a minha mãe, suposta mãe que de mãe só o nome já que agora nasci e nunca a vi, e, lembranças do útero nenhuma a não ser o frio, o escuro, a música do emanuel noite fora, o abanar enquanto tolhida em conchinha pelo marido bebido, sim também o cheiro a cerveja morna, os pelos no umbigo dele, as unhas sujas com pedaços de terra não de hoje, não de ontem, de tantos dias atrás, unhas com tanta terra que lá quem sabe fósseis de pulgas, carrapatos e percevejos, enquanto em conchinha procura o calor daquela que agora foi minha porta, enquanto,
            - está quieto,
            - cala-te, - ele, - cala-te,         
            e ela não sorri, não chora, não está quieto que lhe valha, só um vago, fraco, que se perde no espaço entre as ondas curtas de rádios amadores,
             - olha o menino,
            mas eu menina, era menino, mas agora que renasci, agora que me ergo já bípede parido à cousa de minutos e um desencaixar de maxilares de espanto daquela que suponho a mãe, um grito histérico de uma parteira, um revirar de olhos, uma queda em baque abafado enquanto se desmonta no chão numa posição que me grita,
            - não sou natural, não caí assim,
            e ela não sorri, não chora, não está quieto que lhe valha, só um vago, fraco, que se perde no espaço entre as ondas curtas de rádios amadores,
            - olha a menina,
             a ecografia em cima da cómoda, semanas atrás na pausa para o almoço, já na tasca de um tio qualquer da vila, sentadas, quatro de perna cruzada a bebericarem café e ela,
            - olhem a minha menina,
            (lembro-me, agora que as memórias começam a ser montadas de onde vim, para onde vou e porque vim, lembro-me com uma irritação que se espalha pela placenta ainda colada à minha nuca, começo a perceber, lembro-me do frio, do escuro daquele útero, atrevo-me, embora não me lembre do outro, fétido, neste útero vi e revi o ritual do café na hora do almoço, diário, imperturbável, faça chuva, faça sol, faça aquele nevoeiro que na outra vida me fazia sorrir pela manhã, só nessas sorria, nas outras carrancudo, na outras nem bom dia, nem cousa semelhante, um ar glaciar, uma postura manienta, um esgar de mãos quando as chicas bípedes cá vinham para um,
            - bom dia menino,
            - ponham-se nas putas minhas caralhas,
            e um sorriso de quem já sabia, um da minha avó,
            - desculpem meninas, hoje não está nevoeiro,
            nunca percebi porque se dava ao trabalho, nunca entendi o porquê de se chegar à frente depois do meu arrematar da situação,  quando ínfima a hipótese de me redimir, inda assim avantajada em relação à minha vontade, embora não discirna como perdoar um,
            - ponham-se nas putas minhas caralhas,
            quando logo às sete da manhã, quando ainda os cães dormem, ainda os galos pensam se devem cacarejar, estas chicas se dignam a ignorar o olhar glaciar, a barba por fazer, as olheiras, o bagaço que já foi, para me oferecer um mero, simples, tão polido, com os vértices limados,
            - bom dia menino,
            mas nem o nevoeiro salvava os tasqueiros que infelizmente me levavam a fixar os molares nos seus braços e a não largar, as mulheres dos ditos de vassoura,
            - cho cho,
            não largo, as mulheres dos ditos de mangueira,
            - cho cho,
            não largo, já que até quando sem nevoeiro, sem meu dom sebastião, já que mesmo quando o sol brilha ou a chuva corrói os casacos um possível esgar de sorrir enquanto emborco o café que me acorda depois de despertar, um café e um cigarro, mas quando eu,
            - um café cheio,
            sem bom dia que não há nevoeiro, com um olhar glaciar que sangue mesmo no frio da manha ferve,
            e, ai de mim, maldições a deuses que desconheço e impróprios linguísticos que contenho censurados por um quase ausente decoro, o café sempre a meio,)
            daí o meu vómito agora que lembro, daí o meu vómito diário quando na tasca elas o bebericavam, mas minha suposta mãe água das pedras,
            (masturbação não fica só pela palma da mão diz-me a música,)
            já que café meio cheio, quando eu,
            - café cheio,
            agora que renasço e de recém-nado a mulher feita uma cousa de três baques de coração e um terço, e, uma pergunta que ecoa pelo meu espírito, enquanto as mulheres uma suposta mãe de quem furei carnes e deixei o cheiro a peúgas sujas do útero para trás, a outra parteira e uma terceira de camisola azul e um pompom em cada mão,
            renasço tendo partido à coisa de uns minutos, renasço fêmea talvez agora meus gritos não passem despercebidos, talvez agora o possa encontrar, talvez agora quando olhar a janela noite fora na esperança que com o nevoeiro ele dê à costa e assim me ofereça uma boleia,
- eu prometo não violar teu sagrado barlavento meu amor,
 talvez neste pedaço de carne que como o anterior: fétido, pejado de cheiros, secreções, tufos de pelo, parece um palheiro, um corpo nada mais é que um palheiro e como o palheiro um antro pérfido para desflorar virgens, também este corpo pouco mais me dá que o desejo de ser desflorada assim como uma floresta, assim como uma praia recém-lavada pela maré, mas aqui a minha esperança daí ter enfiado o meu pescoço do velho corpo na corda, daí ter-me pendurado, daí ter feito a aritmética, pensado bem no caso para não correr o risco de terminar enforcado e ainda vivo, e, eu ver as horas a passar e a vida com pouca vontade de ir, enquanto o ar me fugia e o corpo se revolvia insatisfeito pela minha decisão de ir, os cálculos felizmente correctos,
            (mas deixa nosso amor morrer diz-me a música)
            e com um salto e um crack o pescoço desencaixado e vida?, vida já foi e agora revestido num novo pedaço de carne ignoro as parvas que embasbacadas chamam por leviatãs, encontro meu reflexo e percebo que excelo, percebo que talvez ele venha, abro a janela, esforço-me de músculos ainda atrofiados, abro-a finalmente para simplesmente bradar aos céus, terras e oceanos,
            - dom sebastião?, já podes vir agora?.



*sem acordo.


Cumprimentos,
NR
           

2 comentários:

Bela disse...

Lá chegou novamente o efeito borboleta, o raio da transcendência e o renascimento de D. Sebastião... :D

Um beijinho :)

Nelson Rocha disse...

Lá chegou novamente o nevoeiro,

(risos)

beijo,
NR