segunda-feira, 15 de abril de 2013

Uma página em branco



      A página em branco, eternamente branca, eternamente infindável, as ideias que não chegam, atrever-me-ia se estivesse encostado ao rude da coisa a dizer: as ideias não se vêm, coisa que não digo, cousa mui mal vestida de decoro, com falta de tom, peca pela ausência de sonoridade poética, também não o sou, mas ainda assim também não o digo, não me atrevo a dizer que as ideias recusam a ganhar forma, quiçá na tónica rude, de mãos calejadas, na pose de quem ao fim do dia se senta num fardo palha, não se revejam agora em funcionários governativos altamente zelosos e acabem a perguntar-me de onde chegam os fardos, como chegaram os fardos e quando chegaram os fardos, diria ganham formas fálicas, mas cerco-me, ou melhor, enrolo-me, aproximo-me em passo manso da cama, nada mais que uma cesta de palha ruída nas esquinas por dentes mal cozidos a gengivas comidas por escorbutos velhos, daqueles lá longe em fragatas de linha de quarenta e muitos canhões, dou três voltinhas para criar um declive nas velhas camisolas de tias distantes que chegam todas atarantadas, de rosáceas bem desenhadas paridas de um copito a mais, um copito bem cheio a mais dos normais três ou quatro para erguer bem o dia, Agora sim, dizem depois do ultimo trago, agora sim o sol dá dia, e, zarpam porta fora de vela bujarrona bem cheia, o estai esse já um pouco murcho, típico de tias latinas sempre com gente a mais no convés e pouco olho para as velas de um navio redondo, mas coisas náuticas à parte que pouco ou nada se relacionam com o que aqui se desenvolve: a página em branco que eterna fica sem mostrar vontade de se ir, de se vir melhor mal dizendo,  eu enrosco-me, e, de esquina, de iris bem inchada, tecnicamente aumentada pelo aproximar da câmara num ângulo convexo ao meu estar, ainda vejo, já que olho aproveito para ver, embora nada mais encontre que uma página em branco, que com a veemência e confiança na importância da sua presença parece afirmar, parece dizer-me, A mim ninguém me preenche, a ela ninguém a desflora, a página em branco tão virginal como as intocáveis oráculos, essas ruídas de inveja das devassas skalds que no fim do dia fazem o mesmo e adornam a esteira em prazeres bastante mais satisfatórios para as carnes, regressemos no entanto à tónica, seguro-me, seguro a língua que autónoma mal resiste à vontade de lamber o nariz ainda com restos de comida, ainda na cesta mal montada, ou bem desfeita, fica a cargo de quem por aqui se viu tragado e agora não larga a massa narrativa, ou simplesmente lança rezas a deuses e deusas para que tal cousa termine antes que a luz se extinga dos seus olhos, e já que adornei por essas águas, estas águas melhor explicando o sentido, também digo, agora não na cesta, nem acerca da página que dada à marosca se recusa a vir, ou recusa a acatar meus afagos para se vir e assim ser preenchida, preencher-se vá digamos, portanto também digo, Que se enquanto tragais estas letras que juntas lá parem um ditongo ou outro, sendo esses que finalmente vos fornecem umas palavras mui mal vestidas de congruência e mui mal ensinadas na nobre arte do acatamento e do oferecer coerências directas em detrimento do meu sempre torto, mal oleado e com nhins de ferrugem nas dobradiças despidas de fluídos lubrificantes de marca branca, se durante o vosso passeio visual por este porto a luz se extinguir dos olhos nada lamento, já que nada vos ofereci, nada vos pedi e ainda para bem da moral da cousa nada vos devo, já que nem há banca devo, e aí refiro-me, ou descrevo-me como o palpável felizardo desta mera retórica metafísica que bem tento desenhar nesta página que recusa inchar de ideias moldadas em predicados, portanto se o acto quase hediondo, mas sem quases agora: herege de me ler vos cega, vos oferecer como compensação uma eterna escuridão de mim não receberão uma carta em braille violeta (alguns perceberão o porquê do violeta) a dar conta, a dar-vos conta do meu mui ausente pesar, ainda assim depois de tão longa bolina cerrada fora do rumo inicial dou comigo onde estava: enrolado numa cesta roída, com a língua a procurar migalhas no focinho a olhar com uma iris tecnologicamente inflamada presa na página que se recusa a preencher,
            e somente agora concluo que com estas patas, mesmo que as ideias merecessem a atenção de serem transportadas da minha imaginação, para a minha mente, para daí em simbiose animal se mesclarem num algo novo meramente teórico resultado claro do que imagino, com o que sei, com o que lembro, e ai sim tudo batido em castelo sairia para as patas, que somente agora percebo que são patas em não mãos como ontem, para assim tudo fluir do meu corpo, pelo meu corpo para dentro da folha, mas tudo cai rumo aos bastidores, tudo desaparece, tudo me parece irrelevante, quando tudo não pode ser transcrito para a folha que inchada por saber que tem razão, inchada já que entende mui bem, facilmente, uma folha mui inteligente habituada a que tratados, códexes e outras cousas eruditas sejam escritas, não nesta, mas noutras, e ao contrário do que se pensa todas partilham um só pensamento, portanto não será falacioso pensar que esta folha sabe muito, sabe tanto que percebeu com clara antecipação ao meu entender que com estas patas só me resta perguntar, perguntar-lhe, perguntar-vos, perguntar-Te, Como posso escrever quando as mãos deram lugar a patas caninas?. 



*Sem acordo.

Cumprimentos,
NR

2 comentários:

Anónimo disse...

"Uma página em branco" que tu tão inteligentemente preenches com as tuas divagações metafóricas...
Gostei bastante!

Um beijinho :)

Nelson Rocha disse...

Coro de deleite por tua simpatia,


beijo,
NR