sábado, 6 de abril de 2013

Um amanhã



        Papel encarquilhado e amarelado, unhas cinzentas que o arranham em sons ritmados semelhantes ao do cinzel na rocha, remendo-me do frio enquanto escrevo entre espasmos de recordações, sofregamente resmungo para mim o quão lamento o pouco talento lírico que me imbui, demasiado absorto para encontrar lógica na fronte da verdade: alterações mínimas na metafísica que me cerca, fogueira que pé ante pé foge, brisa que se manifesta numa sala fechada a frio carvalho, um ar gélido que me inunda o corpo e me adormece os envelhecidos membros, o fumo que cuspo dos pulmões forma agora estranhos padrões no tecto quando deveria simplesmente elevar-se inerte, minha pele arrepiada, minha nuca sente um bafo longínquo, mas longe de estar afastado o suficiente, ou perto quanto baste para ser realmente perto, ergo o olhar como se alguém me o impusesse na minha frente, a menos de três passos encontro o vislumbre do mórbido, da sombra, do negro, do tenebroso, revejo como se através de um falso espelho o mais escuro dos breus e eu sem um facho que me valha, disponho-me assim de cohiba já quase ardido na boca, copo de uísque quase tragado, robe escarlate de veludo, sem roupa interior, prostrado assim na fronte do meu término, meu prazo de validade expirou, levianamente leio ansiedade na sombra que me cerca e me sufoca, sorrio e ela estanca como se atacada, sorrio até minhas rugas rangerem e tudo pára,

            - finalmente, - sussurro com destino mas sem destinatário, do outro lado da barricada: na terra da sombra se algo fosse passível de ser visto encontrar-se-ia surpresa estampada naquele que não tem rosto,

            minutos passam, o impasse inicial diluísse e um som de papel velho a quebrar surge do meio da mancha negra, não duvido que quem agora sorria era outro, imagino a pele seca e colada aos ossos a retesar-se enquanto um sorriso macabro nasce, pergunto-me se saberia o quão feliz me estava a fazer, ligo a aparelhagem para escutar slides: retratos da cidade branca,

            - onde estão meus amigos?, - começa a voz grave, - atropela-me os sentidos e a alma para não deixar vestígios, - termina,

          dispo o robe escarlate enquanto sorvo o resto do meu velho uísque e apago o cohiba, finalmente pouso os meus chochos glúteos na fria cerejeira do tampo da secretária e aguardo, de olhos fechados, aguardo o colher da foice, segundos somados que dão em minutos, minutos parem horas e inexoravelmente o sol raia, um abutre irrompe escritório adentro e vê-me: nu, olhos fechados, erecto,

            nem a morte me livra, nem Hades me quer ver, de volta ao trabalho, digo-vos que a inspiração é como os coelhos: vem, vai e fode como o coelho desmistificado da páscoa que somente vive para terminar dentro de um guisado, também a inspiração somente me ataca para terminar em vossos esbaforidos olhos durante o intervalo da plagiada ficção nacional,

         arre, pensas que não te vejo ai minha Puta?, deixa-te estar enquanto relembro tempos de outrora.




Cumprimentos,
NR 

2 comentários:

Anónimo disse...

Gostei imenso do que li! Escreves de uma maneira filosófica, abordando a morte/envelhecimento como tema fulcral...
Muito bom mesmo.

Beijinhos :)

Nelson Rocha disse...

Ofereço-te um obrigado por tua simpatia,

volta sempre que o desejares eu cá estarei a comer-me naquilo que muito bem definiste como maneiras filosóficas,


um beijo,
NR