sexta-feira, 26 de abril de 2013

Um abraço



            Cerro os olhos para a noite, inda que somente na noite encontre conforto, somente no seu abraço, tão semelhante a outro que me guardou o corpo em tempos de outrora, um abraço, as mãos que se cruzam no meu ventre, um abraço, as mão que descem endiabradas, mas inda assim: um abraço e o teu respirar no meu pescoço, o teu respirar estica-se, crava as garras na carpete,
            (enrolo-me, confundo-me,)
            crava as garras na minha derme, esticas-te, tua pele nua na minha, sinto-te sem te ver, endiabrado pela luxuria caio na retórica de quem deseja nada mais que cerrar os olhos para um sempre, cego para a luz, cego para ti, cego para as tuas formas, para abraçado por ti, com o sentir te ver, com o tacto do corpo de desenhar em meus sonhos, uma perfeição que nem Tu alcanças,
            (e Tu inchada de raiva,)
            seu abraço agora longe, quilómetros de distância, lá se vão as memórias no jardim do piolho, os passeios pelo palácio de cristal, as galgadas por santa catarina, tudo tão longe que no horizonte, de mão em prancha a esconder a minha visão de um sol que nem o vislumbre da memória me quer conceder,
            dai agora sem o seu abraço, somente o Teu,
            (que eu ignoro, e, um olhar irado que me vaza a alma, um brado,
            - lembra-te de mim!,
            que eu ignoro, escuta,  escuta bem,
            - eu ignoro-Te,)
            Teu abraço vazio, Teu abraço frio, o dela quente, o dela de conforto, enquanto a insónia que me come as entranhas se esvai em farrapos quando ela,
            - dorme meu amor,
            enquanto meu desejo domesticado por um toque vazio da lascívia, e um,
            - dorme meu amor,
            seu respirar que massaja meu pescoço, que leva para longe a dor de um dia rodeado de uma mediocridade que lateja a cada esquina, seu sorriso, seu olhar, sua ternura e um,
            - dorme meu amor,
            acendo um cigarro, ela acende um cigarro,
            (Tu megera imitas com uma cigarrilha,)
            olho-te, tu de perna cruzada,  o tacão a roçar o soalho, dois dedos pálidos, os meus tão amarelos, penso Como manténs esses dedos magros tão pálidos?, enquanto os meus tão sujos de tabacos que me canibalizam as entranhas, que me oferecem o fim do dia com um sorriso, um que eu retribuo,
            - dorme meu amor,
            e em seu abraço parto convicto que um amanhã chegará, um acordar quando a tua língua passeia pelo meu peito, pelo meu ventre, pelo meu sexo que insiste em começar o dia antes do meu despertar, um bom dia dado entre nós sem palavras, um cigarro, um chávena de café negro azedo como a cara do limão ao sol,
            (azedou ao sol coitado,)
            ainda assim,
            - bom dia meu amor,
            (e Tu cospes ciúme, comes Teus membros em ataques de raiva, corróis-Te de inveja,)
            agora sem o seu abraço, somente com o Teu,
            (que eu ignoro,)
            agora sem nenhum abraço a não ser o desta noite que ecoa com os barulhos nascidos do escuro: um cão que ladra, um gato em disputa por uma fêmea complicada, não se resigna a cousa, um uivar lá ao fundo, uma lua que espreita for uma frincha de quem vive só quando não há facho que a ilumine, um ou outro foguete de romarias de chicos a dançar viras e cousas estranhas vestidos em saias por cima de saias,
            e, abraço teu nunca mais, abraço Teu nunca mais, somente a noite para me consolar, só o escuro onde me encolho e súplico pelo seu respirar no meu pescoço uma vez mais.

*sem acordo


Cumprimentos,
NR



6 comentários:

Bela disse...

Boa noite Nelson,

o teu texto induz uma réstia de lascívia momentânea...
Gostei muito, mesmo!

Um beijinho e dorme bem :)

Nelson Rocha disse...

Bom dia Bela,

Induz?, ups!,

(risos,)


um beijo,
NR

Emilie disse...

Fizeste-me viajar :)

Um abraço pode segurar o nosso mundo de desabar :)

Gostei de ler-te :)

Um beijinho*, Nelson :)

Nilson Barcelli disse...

Um texto intenso, a precisar de uma leitura atenta.
E excelente, como já me habituei.
Um abraço.

Nelson Rocha disse...

Emilie,

obrigado pela visita,

o sentimento é mútuo,


beijo,
NR

Nelson Rocha disse...

Nilson,

uma vez mais um obrigado pela visita e pelo cumprimento,

espero que o hábito se mantenha,

um abraço,
NR