terça-feira, 23 de abril de 2013

Quarto escuro



            Caminho por uma rua,
            (não caminho, corro,)
            corro por uma,
            (não é uma rua, é um túnel sem tecto à vista, com isto quero dizer sem fim,
            - porque não o disseste assim á primeira?,
            Sabes que passo o dia a tropeçar em mim, sabes que raramente encontro a minha cauda, sabendo eu, tão bem, que é transparente meu caro que me escutas enquanto penso, enquanto pensava, agora não penso, constato mui, assim como a casca da maça bem cortada, falta-me a palavra, falta-me o dom de encontrar as palavras certas debaixo da língua, perdem-se nas marés de saliva, por baixo da língua, em ondas que vão e vêm, ondas que aumentam em cadências enquanto com as axilas seguro suas pernas (reparem na minúscula) e rasgo-lhe carnes tenras de sabor agridoce, penso Não o disse assim à primeira como nunca encontro a minha cauda que sei que está lá também à primeira, bem centrada entre os cascos, quando a vislumbro, rodopio em eterna procura de a trincar, nem que seja com a esquina dos incisivos, e, trinta e três voltinhas num minuto depois (ele deixa usar a expressão) acordo tonto do sono em que perseguia a minha cauda para,)
            dar comigo a correr num túnel, sem luzes que penetrem em coisa escura sem nome mas frio ao toque, atrevo-me a esticar o dedo indicador, a unha amarela, a chegar-me à panela, ou assim pensaria o gato enquanto olha para o prato (é um pires do café) cheio de massa com bocadinhos de galinha já mastigados, já misturados, ele chega, estica a ponta do nariz,
            ( - arre homem os gatos não têm ponta de nariz,
            ignoro (com veemência,))
            estica a ponta do nariz e funga, aquele fungar de que cheira bem, mas não se sabe, a cousa fumega, e o pires tem cores que no mundo natura lhe dizem não comas, assim como nós seres humanos vemos o stop (o sinal), ali o bichano de cauda farfalhuda, lá vai ele aos sábados na frente da vassoura da tia Alzira que a abanar os glúteos, num movimento com a vassoura faz os pós saltarem, gritos de pânico que não ouvimos,
            (são de uma outra frequência impossível de ser captada pelos nossos mui limitados dispositivos de auscultação,)
            e a seguir passa a bichana (já tinha referido que era fêmea?,) a correr atrás da vassoura que dança o vira enquanto o Tony, aquele com o nome Carreira, aqueles que como as baratas por mais que pises eles continuam a multiplicar-se,
            ( - assim como os peixinhos?, -
            oui meu caro,
            - ai nosso senhor Jexus Cristo – largam âncora as irmãs carmelitas a roer as unhas, a roer a unha, a única que faltava, a do maior de todos,)
            a gata de nome anónimo corre desvairada atrás dos fios soltos presos no emaranhado de dedos, de filamentos,
            (estilo baleia azul a caçar camarão,)
            da vassoura e capta todo o pó que grita desvairado, em pânico, uma civilização montada durante a semana em que a vassoura esquecida na despensa, entre os sapatos com bolor e o esquentador, de memória curtas (os pós) aproveitaram para criar uma cidade cosmopolita nesta sala,
            (perdão neste túnel onde corro, mas onde ontem a vassoura correu, eu sei, eu lembro-me,)
            esquecidos que hoje, sendo desnecessário precisar o hoje numa cousa mais quantitativa, hoje a tia Alzira de glúteos soltos, abanicam para cima e para baixo num prum baixinho, abafado  pela rima de amor com pôr do Tony, e a gata que mia de raiva (agora a digna e orgulhosa mãe de uma civilização de refugiados no seu dorso), mia pela vassoura que endiabrada não pára, parece possuída bandida,
            assim como funga de desprezo quando finalmente domesticada decide ignorar o aviso do pires e avança para galinha com massa que ainda fumega, para somente ficar com a língua queimada e o orgulho ferido,
            eu relembro enquanto as paredes que frias parecem o são efectivamente, o toque, o mero toque cria um torpor, uma sensação de insensibilidade da ponta da unha que devagar se espalha até ao coração, lá fora o sol enterra-se em plasmas de outras estrelas enquanto a noite nos visita e com ela uma lua vitima de insónias crónicas, ainda assim com cara para sorrir, desenha,
            (se ela não o desenhar ergo minha mão ainda quente, aquela que não tocou, e, consoante meu coração arrefece ainda tenho o ânimo para desenhar na janela seu sorriso, e, agora assim olho-a: uma lua que só para mim sorri, perfeitamente enquadrada com a minha janela e com o sorriso torto que desenhei com a mão ainda viva neste vidro duplo num caixilho de inox transparente,)
            a noite cerrou-se e onde estou, a tia Alzira estivera ontem em ritmos de limpeza, mas agora noite e esta sala sem facho, nem a lua parece dada a mimos, parece que me encontro num túnel, já que onde estou agora embora uma sala daquela que é na retórica casa minha, onde um gato que é fêmea, portanto gata mia, e um cão que é cadela que de tão velha perdeu o cio numa esquina entre couves e dióspiros podres, cão,  gato  que são meus, assim como esta sala que mal o sol se foi para satisfazer as suas necessidades de tolher alguma estrela com seu membro deixou de ser uma sala para agora no frio da noite, uma noite sem facho, sem lua, ou com lua mas sem sorrisos, excepto aquele que eu desenhei na janela só para mim, que pouco me conforta, encontro-me, dou comigo, enquanto olho um espelho que imagino, dou por mim a entender que o frio que me inunda é fruto de uma verdade:  nada disto sou eu, tudo isto é a reflexão de outros naquilo que devo ser, e, eu como uma peça torta de um puzzle procuro o meu cais, o meu bom porto, com a borrasca já a revirar as casotas das galinhas no convés para somente encontrar um buraco escuro, frio ao toque, podre nas madeiras e com cheiros a mofos onde passo a noite em espera para ser decapitado,
            (ai doce misericórdia,)
            por uma gadanha de uma qualquer entidade que o consuetudinário da cousa dita: vestida num manto preto, sem cara, ou melhor com ossos de cara mas sem face em carnes por assim dizer, com as falanges bem definidas a agarrar a abençoada gadanha,
            penso Imagino que nunca o permitas minha puta de Transcendência.




*Sem acordo



Cumprimentos,
NR

2 comentários:

Anónimo disse...

Boa noite Nelson,

o teu texto já me fez rir, pensar, silenciar a emoção, e ter medo da morte... bons sentimentos para se ter no dia mundial do livro.
Ontem incomodava-te o bicho da ausência, hoje é a dita transcendência... :D

Um beijinho :)

Nelson Rocha disse...

Boa noite Bela,

eternas batalhas internas,

e a dita sempre à espreita,

um beijo,
NR