sexta-feira, 19 de abril de 2013

Penso



            Olho o que me cerca com um olhar que penetra cimentos, caliças e carnes, um olhar que na carne penetra além do mero ser,
            (já que o afirmo, reitero que nada me aborrece mais que o mero ser, eu não preciso de ser para existir, como não preciso de existir para ser, permito-me, concedo-me, bem embrulhado em papel com pandas cor-de-rosa e tartarugas amarelas, e, com o digno laçarote azul menino pequeno, isto é azul bebé em hipotermia, mas é melhor progredir para não descarrilar, uma vez mais, da tónica, progrido concedendo que mesmo que não existindo, no sentido mais lato em que possam montar a cousa para a expressão vos oferecer algo, mesmo se despido de ser, despido de existir, mesmo assim tão nu de cousas que tu, ele e ela têm no bolso do casaco, ainda assim penso,)
            penso, sempre a pensar, caminho de cigarro, empenado pelo bolso, enfiado na esquina da boca, mesmo aí penso, penso agora encostado numa praia enquanto o mar é dividido em dois por rochas, que aborrecidas, essas sim por um existir quase eterno, suspiram bitaites para o ar,
            - é assim moisés, é assim que se divide o mar,
            e as coitadas nem precisam de um cajado bendito, ou benzido o que mais vos aprouver, penso enquanto o olho, penso falaciosamente que é infinito, penso enquanto Tu me olhas nesse teu cavalo branco,
            (- é esse o cavalo de um Sven?, um cavalo de outras leituras?,)
            penso enquanto me envolvo em batalhas carnais entre os lençóis,
            (de seda?,)
            com fêmeas, ou machos, aqui também o que vos mais aprouver, esses, ou essas, ou ainda, quiçá ambos demasiados ocupados para pensarem Porque pensa ele?, penso enquanto penso imaginando que abro caminho de sabre numa mão, de pistola de pólvora,
            (espero que não esteja húmida,)
            na outra mão, por uma qualquer coberta de um qualquer navio de linha corsário,
            (nunca pirata, não há glória em assaltar a coberta de um navio pirata,)
            sei,
            (Tu disseste-me, eu acredito, tenho que acreditar, sou impelido a não duvidar,
            - tu existes,
            mas nem Tu me podes embriagar com doces sussurros, que mesmo despidos da Tua luxúria inerente aos predicados, ainda está bem presente no tom,)
            que embora exista,
            (eu concedo-Te que existo,)
            existo somente numa inexistência, pois aqui,
            (não vos digo qual aqui,)
            pois aqui e agora,
            (um agora que é o já,)
            cousas,
            ( - são pessoas, são gentes, - diz-me Ela,)
            não me detectam no seu radar visual, não faço bip quando o traço passa pelo local onde me tarraxei ao solo, sentado enquanto olho um mar que penso, que falaciosamente penso como infinito, assim como as rochas quase eternas, cousas bípedes, de frontes diferentes, tezes tortas no tom, de membros curtos, longos, algumas com um membro em falta,
            (sentirão sua falta?,)
            nenhuma destas cousas a quem Tu chamas pessoas confirmam a minha existência, quanto muito parece-me que confirmam a minha não existência, dizem-me, sem nada dizer, concluem para mim, sem nada somarem, olham-me com olhos lassos que contam estórias mortas,
            - tu não és,
eu não sou, é o que me dizem sem dizer, penso, enquanto penso imagino, ao imaginar o que imagino: imagino-me a pensar,
(progrido,)
em eterno pensar elevado a um outro pensar, enquanto a toda a hora Tu me sussurras e desses lábios tão bem montados nesse corpo, que só agora vi ao meu lado, neste aqui, sussurros vestidos até ao seu âmago pela luxuria inerente a essa carne que vestes, fiada pelas costureiras dos deuses,
(benditos crocitos, benditas gaivotas que crocitam sem tecto à vista, com a força do martelo na bigorna,)
e o teu sussurro, minha doce megera Transcendência perde-se no pequeno espaço entre os dois bancos, num em que Tu estás, noutro em que eu me encontro taxado ao solo, um espaço pequeno, pejado de catrefadas de tabacos que escaparam ao seu ser enrolado, ao seu ser fumado,
(que me dizem desse inexorável destino agora?,)
espalhados entre o travão de mão e a caixa de velocidades, sem sorver o que me dizes,
(aquilo que as gaivotas levam para longe na ponta dos seus bicos, aquilo que sobra e caí no espaço entre o travão de mão e caixa de velocidades,)
percebo, enquanto cousas bípedes passam em movimentos pendulares nunca finados, movimentos sem propósito,
(ou assim penso, condenado ao eterno pensar,)
nem um olhar travesso, mesmo quando eu de cócoras rosno a quem passa, enquanto de cócoras me entrego a um uivar, mesmo sem lua, nem um,
- está bem meu caro senhor?,
quando me deito no chão,
(desatarraxei-me,)
empurrado por ventos ciclónicos que só eu sinto,
(com um pé aqui, e outro também aqui, mas um aqui é daqui, o outro é oriundo de terras sem nome, em locais metafísicos, que só eu conheço, onde só eu vou, embora nunca só para estar só, enquanto Tu,
- estou aqui pequenino,)
tudo me convence,
(e o Teu sussurro que se perde, ausente, para me convencer de algo diferente, ainda assim o seu roçar na minha pele enquanto gaivotas o levam na ponta dos bicos arrepia-me o corpo, acorda-me a gula por esses Teus lábios injectados de carnes tenras,)
convencido que existo numa inexistência, convencido que sou o que sou, digo que quando sei o que sou,
(assim como as rochas,)
aborreço-me,
(e ao contrário das rochas,)
apresso-me a mudar deste meu ser definido que encontrei, para desaguar num eterno,
- aqui e agora, mesmo despido de ser, ou sem ser definido, mesmo convencido que existo na inexistência, aqui e agora: Penso.


*Sem acordo.


Cumprimentos,
NR

3 comentários:

Anónimo disse...

Boa noite Nelson,

nunca vi ninguém escrever desta maneira sobre a metafísica do erotismo carnal.
Valha-nos Deus! Acho que até esse deve ter ficado desnorteado com as tuas palavras tão sofregas. :D
Notável descrição!

Um beijinho :)

Nelson Rocha disse...

Dou por mim, uma vez mais, a corar, e, infelizmente nada mais te posso oferecer que um humilde obrigado,

um beijo e boa noite,
NR

Jota Effe Esse disse...

Não li, mas gostei de ver tua disposição para escrever. Meu abraço.