sexta-feira, 12 de abril de 2013

O eco



            Os meus pés despidos de adornos de lã que me aquecem em dias frios como este, que me aquecem mesmo quando o frio não investe contra as minhas paredes mal caiadas, meu corpo encolhe-se tolhido por ventos glaciares, correntes de ar que se infiltram por frinchas microscópicas nesta casa, nesta sala ao fundo da casa, uma casa sem telhado, mas com um baloiço, quem em noites com ventos, noites em que acordo encolhido pelo frio, acordo tocado pelo abraço rude, tão diferente do toque cúmplice de uma amante,
            ( - Meu?,)
            abana-me o lençol roído por traças e outras da família durante banquetes também quase microscópicos, para estes todavia basta uma lupa, uma lente amplificadora da realidade, para assim discernir o irreal da definição concreta capaz de ser sorvida por meus olhos esbranquiçados pelo frio, este que me inunda as extremidades, e lá fora um baloiço que guincha em queixumes, ferrugens paridas pelos anos que passam inexoráveis, entesam suas articulações e ele,
            - grim grim grim grim,          
            noite fora, sem tecto à vista, descalço com tufos de coisas sem nome por tão sujas, por tão pequenas que se colam, entre passos nuns, talvez por serem especiais escuto um nhrum quando uma das que em banquetes se deliciavam é apanhada desprevenida num corredor vestido de portas, quem nem abrem, nem fecham, são portas simplesmente, que ali estão, sempre estiveram e nunca foram abertas ou fechadas, nasceram por engano, ou o engano ocupou o seu nascimento e foi-lhes assim dado um nome impróprio à sua função, deveriam quiçá ser estátuas em detrimento de portas, mas ainda assim agora, enquanto o frio me encolhe os membros, os adormece, a mim,
            (serei eu um eu sem os membros?,)
            a mim o frio acorda-me, mas a mão direita enrolasse sob as falanges, o rádio roda sobre si mesmo, ainda é extremidade,
            (será?,)
            roda e roda até criar um berço imaginário de mantas que não existem para assim se enroscar a ronronar para um sono que anuncia em voz branda o meu fim,
            os meus pés ecoam, na solidão da noite gélida o eco anuncia-se como um bom amigo que me leva a sorrir e a dizer-lhe,
            - não imaginas o que vi hoje,
            mas não digo, não posso, mas quero, se o disser não serei um louco perdido a falar com nada mais que o seu eco, de membros, extremidades vá, e mesmo ele erecto, todos roxos de um frio que não cessa de investir, que não cessa de se infiltrar entre frinchas ínfimas, buracos roídos nas janelas da madeira por aves de bicos duros, aves que me acordam noutros dias com crocitos sucessivos, mas hoje, mas agora,
            grim grim grim grim ainda o baloiço,
            mas hoje e agora se nada me tens a oferecer, se mais nada bordaram para mim as fiandeiras em seus naperons, nos seus gelados palácios protegidos da ira da hipotermia por um Ódin zarolho, mas hoje, aqui e agora enquanto a vida se esvai de mim, enquanto o ar se torna supérfluo a cada passo que a existência se torna menos terrena, mais meta, menos física, mais metafisica, cada vez mais, aqui e agora, caleiras deixam de ser caleiras, já não as escuto, já não encontro o eco de nadas, nem o eco do eterno pingar da caleira em dias chuva, nem o eco do eterno pingar, pinga e uma agarra-se à irmã rumo ao oblívio, as gotas sempre sorriem mesmo quando caem para ainda em forma líquida deixarem de ser gotas e renascerem como uma quase inexistente, de tão pouca existência poça de água,
            aqui e agora enquanto o frio leva o calor da cruel vida de mim nada me parece mais propício do que pensar na companhia tão boa que era o eco das gotas que desamparadas, mas ainda sorridentes que sempre caíram do algeroz torto, entortado por ventos ciclónicos, nada me parece mais importante que as noites em que seus ecos me impediram de tragar a loucura como um banquete à muito desejado.


*Sem acordo.


Cumprimentos,
NR

5 comentários:

Anónimo disse...

Hoje presenteias o leitor com um texto mais leve, contudo muito interessante e cheio de ecos da tua escrita. Gostei muito!

Beijinhos :)

Nelson Rocha disse...

Bela,

e eu gostei que tivesses gostado,

quiçá se abrisses a janela e erguesses a que presumo fechada persiana o eco aí também dê à costa,


beijo,
NR

Anónimo disse...

Nelson,

não posso abrir a janela, uma vez que habito uma Casa de portas e janelas lacradas. Há ecos que não me chegam ao ouvido ;o)

Beijinhos :)

Nilson Barcelli disse...

Para não me repetir, porque diria "excelente", digo-te apenas que se nota que deves ter muito prazer na escrita. E deves divertir-te imenso.
Nelson, tem um bom fim de semana.
Abraço.

Nelson Rocha disse...

Caro Nilson,

numa só palavra,

- indubitavelmente,


bom fim de semana e um obrigado pela visita,

cumprimentos,
NR