quinta-feira, 25 de abril de 2013

LXXVII



Ao pequeno almoço, ao almoço e ao jantar,


“(…) quando os factores de erosão são o corpo que não pára de expressar-se, os artelhos que engrossa, eu incapaz de correr em Tavira
- Não me apanham
e por consequência eu numa cadeirita de lona como a vizinha dois toldos adiante, os factores de erosão são o meu marido, que não me procura há um ano, no extremo oposto da cama enquanto eu às voltas com as peónias que mesmo sem chuva se dilatam, me mexem, me conduzem a mão, eu prestes a pedir-lhe ajuda
- Pedro
para que me defenda das flores, acho que acredito em Deus
(devo acreditar em Deus)
mas não me vale nunca, as plantas uma espécie de febre, o colchão infinito e o meu marido perdi-o, quer dizer se eu fora da cama notava que o colchão pequeno, se lá dentro não acabava palavra, quilómetros e quilómetros para encontrar uma respiração, um braço ao passo que o resto do apartamento, muito menor que a cama, as dimensões de sempre, as peónias tornaram tudo tão incompreensível, difícil, estes dedos lá em baixo que deixam de ser meus, os meus não tão firme, tão agudos, a desencantarem uma saliência, a insistirem na saliência, eu
- Acredito em Deus acredito em Deus
e derivado à saliência eu do tamanho da cama, maior que a cama e, mal o nervo da saliência me abandona, a cama a caber no Estoril primeiro e no apartamento depois, Deus resolveu interessar-se e nenhuns dedos, nenhum nervo
(não
- Acho que acredito
acredito, tive uma medalhinha de Nossa Senhora em miúda, um dia não a senti no pescoço, espero que Deus não se zangue)
(…)”



*Eu Hei-de Amar Uma Pedra, António Lobo Antunes

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