segunda-feira, 15 de abril de 2013

LXXVI



                “(…) A orquestra calou-se. O violoncelista começa a tocar o seu solo como se só para isso tivesse nascido. Não sabe que aquela mulher do camarote guarda na sua recém-estreada malinha uma carta de cor violeta de que ele é destinatário, não o sabe, não poderia sabê-lo, e apesar disso toca como se estivesse a despedir-se do mundo, a dizer por fim tudo quanto havia calado, os sonhos truncados, os anseios frustrados, a vida, enfim. Os outros músicos olham-no com assombro, o maestro com surpresa e respeito, o público suspira, estremece, o véu de piedade que nublava o olhar agudo da águia é agora uma lágrima. O solo terminou já, a orquestra, como um grande e lento mar, avançou e submergiu suavemente o canto do violoncelo, absorveu-o, ampliou-o como se quisesse conduzi-lo a um lugar onde a musica se sublimasse em silêncio, a sombra de uma vibração que fosse percorrendo a pele como a última e inaudível ressonância de um timbale aflorado por uma borboleta. (…)”




*As Intermitências da Morte, José Saramago

2 comentários:

Anónimo disse...

Ora aí está um livro que nunca li e que vou de certeza ler com agrado...
Adorei este excerto, porque adoro música, adoro palavras e adoro a conjugação entusiasta dos dois.
Obrigada pela partilha!

Um beijinho! :)

Nelson Rocha disse...

De nada minha cara*

Beijo,
NR