quarta-feira, 3 de abril de 2013

Hospício da Lua, Rua 4 de Julho, Macondo



Bebo de uma fonte falsa que não existe, uma fonte de esperanças sem fetos, enquanto me sento num banco igual aos outros que me cercam, sento-me na mesma pose com o nariz enfiado, faz de conta que se enfia, enfio-o para que não percebam que estes cheiros me impedem de o ler, de me ler, estes cheiros rasgam-me penugens da carne e o nariz funga em trejeitos de velha dona de talho a limpar o suor que cai aos alguidares em cima da perna de peru do cliente do costume, o único cliente, nesta sala de espera, acrescento, sento-me e o cheiro a morto não vem, sorrio e pego num livro, distraio-me, topa-me à distancia e invade-me: cheiro a morto, cheiro a morto com mofos na pregas de carne agora hirtas, entesadas pelos fluidos que não rodam,
- que é fluidos mãe?, - a criança escutou-me, falaria alto?, arre,
- chiu menino, não ligues que aquele não sabe o que diz,
o cheiro caminha para, sobre, sob mim, invadi-me orifícios ciosos da sua privacidade e eu penso Por aí não, e eles dizem-lhe,
- por ai não, - ao que ele imperial, dono e senhor de paredes suas, bancos seus, gentes que mui orgulhosas da doença atravessam em digno passo a porta que corre sozinha, como a gente no ginásio na passadeira que nunca os leva a mais sitio que não aquele onde o passo direito incerto antecede o passo esquerdo coxo, retruque,
- em dia de tempestade qualquer porto é bom porto,
cheira a morto aqui, cheira a morto com mofos, pouco ou nada me adianta pensar em coisas alegres de nada me adianta pensar no que Saramago me está a dizer hoje, enfio o nariz para nada fazer além de enfiar o nariz para os outros pensarem que enfio o nariz, para que ninguém se aperceba da penugem que cai, para que ninguém note que cheiro o cheiro a morto que tanto me eriça a pele,
- tu, - diz-me um homem elevado na sua estatura desajustada, com um longo pescoço mal feito, mas não o suficiente para ser deformado, simplesmente mal feito, baldo, caminha, ainda não o é, não o disfarça, mas não se orgulha, inclina-se muito para o esconder na bossa que se eleva, para mostrar aquele tino fraco que cresceu de ontem para hoje, - aqueles gajos nos intervalos vendem boas merdas, - dir-me-á, eu sei que sim,
- eu?,
- sim, é a tua vez,
persegui-o confiante que para onde me leva o cheiro a morto não me seguirá, convicto e com razões, mal fecha a porta um espanador gigante de uma qualquer empregada embebida de clichés latinos passou o ar, agora de novo brilhante, agora de o cheiro a morto nem sinal, do cheiro a mofo nem sombra, sobra um cheiro a Sonasol, falamos de nadas, jogamos conversa janela fora,  impróprios são cuspidos para a calçada que tombavam com o peso de granitos escuros em cima de incautos, repare-se, repare caro leito que eles pesam quando caem de um quarto andar,
- estamos num quinto,
ainda melhor, ainda mais caem, ainda mais doem, mas,
- qual é a questão hoje?, - eu penso, (confesso faço de conta que penso e ele ri, ele sabe),
- qual é o efeito da lua na mente criativa?,
- como a abordas?,
- para já comecei a desenhar umas linhas numa faceta mais doutrinal, filosófica, tá a ver?, e histórica, ou estórica…, não sei se me entende,
- falta tanto,
- falta?,
- e a relação da lua com as marés e a relação com a menstruação?,
ele é a minha prostituta, veste uma bata que não usa, olha-me com aquele porte desengonçado de ema mal aparada e vende-se para me ouvir, para escutar minhas golfadas de vómito intelectual, conversas de almofadas em consultórios hermeticamente fechado com janelas de aços oxidados, em gabinetes ricos em despersonalização e lá fora um carvalho que dança e um canário que arrebita o olhar para me dizer, só com olhos, penso Que olhos grandes, eram maiores que o canário, o canário eram só olhos,
encolho-me num sofá agora numa sala que é minha,
- tua o caralho, - diz-me como quem ordena, como ela ordenha, uma anciã fora de validade,
eu sentado encarquilhado munido de nada mais que um lápis de cera e folhas secas e caídas de um outono que passou à coisa de um dia ou dois, de joelhos colados, de costas curvadas, de sexo murcho, de unhas gastas de roídas, de cigarro entalado na orelha, de cigarro que fumega da orelha, olho um retracto que me diz,
- fala para mim,
e eu que não sei falar,
- mas sabes escrever,
rio, mas só me apetece ganir, ser cão e dar paulada em velhos que não deixam as cadelas andar com os cios que me alimentam o espirito, rio porque não sei que lhe dizer, sei o que lhe escrever, mas não tenho remetente, ou tenho remetente?,
- não me escrevas, - penso Mas qual é a razão?, - tu não tens remetente,
tenho pois,
- mas não o queres ter, - penso Mas qual é a razão de não querer ter o remetente que tenho?, - o teu remetente…,
e nas folhas cavadas em deformidades, folhas que estalam nas minhas mãos quando cerro duas letras a meio para criar uma nova, e lápis que sem cor, melhor, que com cor de sem cor que nada me oferece, escrevo o que minhas mãos desenham somente para se diluírem numa poça de incógnitas para nada ficar gravado além do que a minha memória contém: catrefadas de merdas atiradas lá para dentro e uma Alzira qualquer que grita por, para, com coisas peludas de vassoura na mão a abanicar o cu, um glúteo para cima, um para baixo, um pé para a frente, dois para trás e a vassoura que a segue num latido de cumplicidade, sem coleira, bem ensinada, escrevo, não te direi o que escrevo, mas escrevo-o em folhas que caem de putrefactas, em folhas que morreram, também elas cheiram a mofos, escrevo mas não te contarei em voz aquilo que desenho com lápis de cera, um lápis de cera o único que encontrei debaixo das almofadas cor de chuva em cima do sofá onde me engulo para um eu subsistir, para um eu dos meus ainda viver, um lápis de cor sem cor e que escreve para não deixar rasto numa folha que se desfaz, ainda persisto e divido as letras e os ditongos, divido as palavras e os predicados mas o sulco que deixam é o espaço que ocupam na minha memória, a Alzira abanica-se toda com um decote e um pendente que abonado e risonho se mantêm entre dois seios fartos,
- cheiram a Sonasol, - dizem-me,
eu escuto-os, assim como escuto o retracto que me pede para lhe dizer, e eu nada para dizer somente para escrever, mas onde escrevo nada fica gravado e lanço-o para a minha memória onde a Alzira os arruma em ordem alfabética, onde Alzira vê debaixo de moveis cheios de poeiras por pedaços já podres que deitam cheiros a morto, e piores: cheiros a mortos com mofo,
no caixilho um canário e ele só olhos, e um retracto que não me larga, e um retracto que me pede para lhe dizer e eu,
            - eu escrever-te-ei o que iria dizer,
            - não escrevas, se escreveres não terá remetente,
            - mas eu tenho remetente,
            - pois tens,
            - e qual é?,
            - hospício da Lua, Rua 4 de Julho, Macondo, - penso Pois é.


*sem acordo.


Cumprimentos,
NR


2 comentários:

Eli disse...

Cheguei ao fundo deste texto como entrei: sem remetente. Isto é uma realidade da minha condição de nómada. Sabias?! Se calhar não sabes, mas lá naquele escuro onde escrevo é o único lugar onde posso chamar casa e vai sempre comigo. Talvez também tenha uma morada em alguns corações, porém, vivo sem remetente.

Nelson Rocha disse...

Quando o disse imbuia-me de um eu que não este agora,

daí falo de mimos de quem realmente será nómada sem sofrer as consequências, a outra face da moeda, colho o bom sem sentir o frio,

*bom regresso,

cumprimentos,
NR