domingo, 7 de abril de 2013

Hei-de seguir uma penugem



                Hoje não sei como lhe dizer, como nunca o soube escrever, hoje já que me dizem para ir, e, eu que não quero ir, ainda assim,
                - vamos, - ainda assim, - vamos lá,
                como lhes dizer?, como os fazer ver?, penso Escrevo um bilhete, mas não consigo escreve-lo, escrever?, nunca o soube, nunca consegui, nunca conseguirei (presumo) escrever o que nem dizer sei, daí o,
                - vamos, - daí o, - vamos lá,
                e marcho mas, marcho murcho,
                atrás de quem mo pediu, confiante na minha alegria, de meias cerzidas, mui mal cerzidas acrescento, eu atrás ainda assim, mas ainda assim atrás escuto,
                - ai que bom, sempre vamos, - cabelos, só encontro cabelos, ali, no ali donde eu atrás nem sorte, nem forte, nem outro orte que me lembre, ali só cabelo, mesmo na fronte digna, (inda), de falta de atenção só cabelos, penugens vá, que não quero cair na ofensa a um ou outro cabelo bem constituído já que eu nunca vestido no meu melhor casaco de tino insinuaria como penugem, cabelo, penso Parido,
                (censuro-me para o bem da moral e dos bons costumes desta nação já sem tino (sem casaco de tino) para suportar mais comentários, insinuações, ai de mim até mesmo provocações nascidas de imberbes mal nados, sendo eu, acrescento em nota de confissão depois de umas avé marias e padres nossos batidos em castelo que embora bem criado desaguei num fúfio inglório,)
                persigo, inda, um ninho de cabelo sem fronte, mesmo sem se virar sei que de fronte nem queixo, mostrar-me-ia não cabelos mas sim penugens, pensaria Não são cabelos mas sim penugens, penugens de velha,
                (mil perdões, censuro-me uma outra vez),
                penso Não são cabelos são pequenas penugens de uma anciã, melhor me exprimindo, desta anciã, penugens vindas de terras longínquas, onde o mar é doce e o ar entranhasse na pele como pó de ossos calcados, penugens que navegam em barcos grandes com trezentos metros da proa à popa, atravessam oceanos conhecidos e outros ainda por cartografar para entregarem nesta alfandega, onde homens mui vigorosos, com ares mui severos e olhos bem abertos, nunca piscam para humedecer o leite do olho, mui atentos, todavia o requisito mais importante na alfandega, isto da que falo, da que conheço pois quando a anciã me diz,
                (e eu sem saber como lhe dizer, como o escrever),
                - vamos?,
                (e eu sem saber como lhe pedir),
                - vamos, - ai a minha sorte, - vamos lá, - acrescento inda em penitência,
                (mais uma avé maria, mais um padre nosso e agora um sinal da cruz para arrematar a coisa),
                quando a anciã mo diz e eu não nego pois não sei negar, acabamos nesta alfandega que eu conheço, onde mês sim, mês não, sendo este presente um mês sim desaguamos no douro para um,
                - Olá como está?, - mui sincero a Leixões, um, - Olá como estás?, - à ponte, um, - Olá silos como estão hoje?, - finalmente um, - Olá alfândega,
                onde homens que embora munidos de todos os atributos  que atenciosamente enumerei ainda à coisíssima minúscula de um minuto ou dois, tinham a juntar a todos esses um outro que os elevava à mais alta consideração entre gentes gerais, mas especialmente entre os seus colegas agentes da alfandega de sítios outros que não este onde agora nos situamos,
                - bom dia senhores agentes, estou cá pelas penugens,
                e eles nem sim, nem não, nem nim agora que penso nisso, mas agora que penso não é o que penso enquanto aguardo um nim que seja pelo menos para animar o ambiente, enquanto os olhos,
                (olhos, com olhos bem abertos, olhos de feto a contar os dedos que brotam daquilo que na falta, minha, de arcaboiço linguístico direi que são membranas),
                e penso,
                (agora penso mesmo),
                Que narinas grandes, narinas de cavalo de porte, narinas dignas de cavalos de guerra treinados para se erguerem com um cavaleiro pesado, ainda mais pesado com cotas e elmos resplandecentes, mocas, espadas, machadas e escudos largos e quadrados feitos do mais velho e imperial carvalho da região, treinados para com esse peso se elevarem por cima de falanges de lanças pontiagudas, treinados para espezinharem homens caídos em fugas caóticas que tomados pelo medo que lhes berra presente em detrimento do constante latente sussurrado em voz rasa, viram as costas ao calor ébrio do confronto, ao cheiro a cavalo também convêm deixar a nota, cavalos também treinados assim como quem os monta que antes de serem cavaleiros tornaram-se guerreiros, mas divago,
                (esforço-me enquanto me traga,
                - quem?, - penso Voltaste?,
                - o divague),




 (...)



*Sem acordo.



Cumprimentos,
NR


4 comentários:

Anónimo disse...

E tu podes deixar-te embalar na maré que te leva, que te transporta nesta aventura que é a vida.

Um beijinho, Nelson :)

Nelson Rocha disse...

Se me deixo embalar mais ainda desaguo onde o mundo acaba,

e depois?,


um beijo Emilie e um obrigado pela visita*

Anónimo disse...

Texto complexo! Transportou-me para a história dos Mercadores da Idade Média, contudo uma história passada em pleno século XXI.
O que faz a literatura, até nos faz viajar no tempo! :)

Beijinhos :)

Nelson Rocha disse...

Faz viajar e tira comichões pelo menos foi o que me disse o alfarrabista do costume,

um beijo Bela,

e um obrigado pela visita*