terça-feira, 9 de abril de 2013

Deixo-me de penugens (finalmente)



            - é isto, mas faça-me barato dona já que a vida está pesada,
            - a vida está pesada?, - retruca quem vende cousas mas pouco traga quando a bitola são as cousas da filosofia tão distintas das cousas ordinárias,
            - então não está?, - apanhada a jeito pela vontade de quem vende hortaliças e repolhos, flores e canários ainda em ovo, apanhada a jeito a anciã por sua vontade de descodificar  tão críptica afirmação, e embora a anciã fosse mais anciã do que a que vendia, mesmo que hierarquicamente inferior na longa lista de patentes entre as anciãs, não deixava também ela de ser uma anciã, a mais velha embora mais anciã que a outra nunca poderia dizer, nem eu o di-lo-ia, ninguém o diria em verdade que só porque veste penugens importadas tornara-se da noite para o dia numa mestre filosofa, quanto muito o expoente no qual me sentiria confortável ao denomina-la somente por sua enorme e mui complexa experiência de vida, assim mo disseram eu não sei se assim é, mas outros também de velhice talhada a cinzel na testa afirmaram convictos e sem sombra lançada pela dúvida para onde eu olhasse, e reparem que o sol ia bem alto no quando desta troca de perguntas e respostas,
            (nunca existiram perguntas, só respostas),
            - é retornada, - se o é ou não também não sei, se é bom ou não também ignoro, sei todavia que o máximo que posso dizer dado o arcaboiço da idade que se vinca e se diz, a mim diz,
            - estou bem patente aqui não vês?, - vejo, bem patente no estado dos alicerces, concluo, ou a conclusão dilui-se em mim para eu chegar a um certo fim,
            (não me questionem acerca do início que esse já lá vai, mui ao fundo, um ponto no horizonte),
            que a anciã, aquela a quem eu,
            - vamos, vamos lá,
            poderia ser num expoente máximo nada mais que uma aprendiz de filosofa ou filosofa noviça por mais paradoxal que possa roçar chamar a uma anciã de noviça, e por mais patético que seja pensar nela enfiada naqueles robes de tamanho L que dão às novas, tenras de carne, boa carne imagino, nenhuma curva digna de se ver, embora ainda se sentissem se a procura fosse dotada de afinco e dedicação,
            - então que quer dizer com isso da vida está pesada?, é que pesada não sei, difícil está sim senhora, mas não está mais difícil porque da noite para o dia se tornou mais pesada, está difícil minha cara, - aprendiz de filosofa teria eu acrescentado com um resto de língua bífida que se atrasara depois do toque de recolher, - porque o tostão não cresce e o preço da semente cresce, o que me leva a ter a cada ano de gastar mais tostão por menos semente, e não preciso de licenciaturas em economias, gestões, ou outros ditos cursos que ensinam como acautelar devidamente o tostão, nem preciso que a mim me chamem dona doutora Maria do Pimpolho para perceber, ou concluir, escolha o que achar mais propício minha cara, que com o tostão mais curto, e com mais tostão a ter que ser despendido para adquirir cada vez menos semente é só uma questão de tempo, e não muito acrescento se me permite o vislumbre de providência, até não conseguir mais que uma semente com todo o tostão que adquiro aqui a vender hortaliças, flores e canários ainda em ovo e outras cousas: batráquios, ou suas pernas, a si faço-lhe quatro tostões por cada perna e se levar quatro dou-lhe uma de oferta, já que de graça não posso, mas só leva uma de oferta se as quatro previamente adquiridas forem quatro pernas de batráquio piquenas, se no entanto levar quatro pernas de batráquio avantajadas, importadas lá das africas, não sei se  entende o que lhe quero dizer minha senhora, já leva a que era de oferta, isto é a quinta que ofereci anteriormente já vai espalhada pelas quatro avantajadas que adquiriu,
            a anciã piscou um olho já que enquanto as rugas descaiam perante a qualidade explicativa da vendedora uma penugem ficou atravessada na pestana, a anciã pisca, todavia, um outro olho, ou melhor, o outro olho esse sim a imitar as rugas estupidificado pelo espanto,
            - não quero batráquios nenhuns, quero só dois repolhos,
            - vamos com calma, não há que pôr a carroça adiante dos bois,
            - à frente,
            - desculpe?, como diz?,
            - não interessa, são dois repolhos,
            - calma que ainda não me explicou essa da vida está pesada,
            - olhe deixe isso para lá, -  a anciã, a minha anciã (que assim caracterizo como minha, não como anciã, não a caracterizo como minha por amores desmedidos ou outra qualquer sensação de calor que me inunda enquanto aspiro as penugens que larga no carro, chamo-lhe minha somente numa tentativa infrutífera de clarificar a narrativa), começava a levar a mal tanta pergunta perante algo que para ela que a lançara sem qualquer segundo sentido, ou rasteira oculta, lançara aquilo que na mente de anciã, não, lançara algo que na sua mente de filosofa noviça não era mais que uma expressão idiomática e pouco mais além disso, quase nem lhe queria chamar figura de estilo, nem achava que era, era uma expressão quase sem vigor, sem corpo para com outras figuras se mostrar de cabeça erguida, era uma coisa pequena armada em expressão, mesmo assim as querelas que não lhe estava a trazer a malfadada afirmação, - ora, deixe isso para lá que não interessa nada afinal, e também esqueça os repolhos que já perdi a vontade, além disso auscultei alguém a dizer à coisa de dias que os coelhos têm uma esperança de vida muito baixa e com a minha idade é melhor não facilitar,
            lia-se, tacitamente convêm sublinhar, arre que me diz esta agora?, mal escrito nos relevos faciais de quem vendia pernas de batráquios a quatro tostões com a possibilidade da oferta, nunca dada, de uma quinta,
            - vai ter,
            - ai eu esta explico-lhe facilmente,
            eu que vos narro esta narrativa de forma mui coxa,
            (será possível ser algo mais que mero coxo?, mui coxo  será mais que ser coxo?,
            - não te disperses, isso são contas de outro,
            - rosário, sim, sim,)
            permitam-me aplaudir a pródiga fífia linguística que mesmo eu um fúfio narrador com pouco saber nestas artes não pude deixar de reparar e me deliciar, embora a arfar, a morrer aos pedaços pequenos de ar sonegado pelo calor de um carro que só não arde porque ainda não lhe deu na real gana para efectivamente arder, a papar um cigarro após outro já que assim o tempo deixa de se medir em minutos e passa a ser medido em passas, as minhas são longas, daí nesta minha contagem pouca cousa de tempo, tão pouca que nem lhe chamaria ainda tempo por mais falacioso que vos possa parecer a afirmação passou, no meio deste alguidar num quase ponto de ebulição ainda lidava com tesões,
( - tesões?, - lá vens Tu toda lânguida, toda pronta, - tesões?,
- não, tesão, fugiu-me o plural da coisa, portanto guarda por favor o mui Teu clímax antecipado na gaveta uma vez mais,)
 que parido da inactividade, do calor concentrado, do meu movimento para libertar espaço para as partes respirarem, enfim, apareceu petulante, inquieto e exigente por toque meu, toque de outra digna de corpo, ou digna de toque,  mas ainda assim não pude deixar a fífia que inexplicavelmente observei com toda a atenção mesmo estando ela, a anciã, no mercado e eu no carro em lento estrugido, uma vez mais tendo a anciã com a dita fífia demonstrado que perdera a paciência pela falta de consideração e respeito que a vendedora Senhora Dona, talvez Doutora, Maria do Pimpolho lhe apresentara com perguntas sem tecto, perguntas para as quais não detinha resposta, já que a seu ver não eram mais que meras expressões, conseguiu assim com uma nova expressão, quer era um pouco mais que uma mera expressão idiomática responder às perguntas que inexoravelmente surgiriam e aí equilibrar a equação que era este duelo entre duas anciãs vincadas pelo tempo,
            - então a minha cara Maria não entende?,
            - eu não, ainda menos que a outra que já lá foi,
            - bem nesta é mui simples,    
            - ao contrário da outra, aparentemente,
            ainda impassível, um trincar de língua que não se vê, nem ninguém sente a não ser ela,
            - bem, diria, ou concorda o que mais lhe convier que os coelhos caseiros morrem cedo?,
            - sim, os meu acabam sempre em guisado,
            -  e o que lhes dá de comer?,
            - oh, restos em geral, verduras, as farinhas estão mui caras, ah, estou a ver o que quer dizer,
            -  já entende então?,
            - sim, sim, mui astuto,
            - bem, eu já não quero repolhos, ou melhor vou querer mas não são para mim, são para as gentes lá de casa que inda não têm que pensar na esperança média de vida  e noutras taxas que eu já extrapolei, mas não vou querer os seus que daqui parecem bem raquíticos, como os coelhos imagino se é isso que lhes dá a morfar,
            penso Será que entendi?, recapitulo para dar com a certeza: a anciã é velha,
            (perdões que uma vez mais Vos atiro meu decoro),
            penso O coelho morre cedo, e como o coelho come repolhos entre outros restos de verduras, o coelho morre cedo porque come repolhos, ignorando a falácia bem patente que aparentemente tanto uma anciã, como a outra, especialmente uma que é filosofa noviça deveria ter notado na primeira de mão, isto é enquanto formava o raciocínio no pensamento, mas talvez o vigor com que desejava sair do que de transacção económica desaguara em duelo verbal como vitoriosa a tenha cegado de certa forma para as regras do bom discurso, do bom argumentar,
            - vamos menino a outro mercado,
            - onde?,
            - ali,
            - ali onde?,
            - ali longe, -  e eu,
            - vamos, vamos lá,
            ( - que dia é hoje? – pergunto-Te?,
            - um ontem mui antes do primeiro ontem que conhecemos,
            - então se calhar Tens que corrigir isso, não?, - a Sua língua envolve-o, o hálito quente faz-me soltar um gemido mal contido, um que transborda de deleite, penso Arre, penso Com ânsia na anciã, e ela olha mas nada vê, ou melhor vê-me a mim a caminho de me vir, mas não vê o caminho que percorro, nem quem me traga para assim me levar no trilho certo, quem me traga com uma vontade impassível ao ser medida: um número que se eleva a outro, e se eleva a outro e assim contínua numa cadeia impossível de terminar, o seu término é uma inexistência assim como o seu inicio, como a anciã não A vê, ou o porquê de anciã não A ver a mim não ergue qualquer questão, o porquê de a anciã não o ver a ele, teso, erguido, envolvido por Sua boca é algo que escapa a qualquer doutrina que se forma entre gemidos que mal seguro com a ponta da língua, mas a cada segundo que transbordo da existência deste agora a única preocupação que inevitavelmente surge nesta física, e nesta Tua metafisica é se Tu,
            - desculpa?,
            é se Vós me ides tragar por inteiro ou não, penso Temo que se for o não a subsistir acabe a acertar  nas penugens que agora caem já que saliva amolece ao calor do sol, e eu cada vez mais perto, cada vez…, ergo-me ao ponto de encaixar Sua cabeça entre um sexo inchado, cada vez menos pendente, já não se via pendido por qualquer ângulo que se o espreitasse, um sexo inchado tolhido por uma boca de onde caem salivas, enquanto me ergo e entalo-A entre ele e o volante que ainda controlo, assim já não tenho que pensar se Vós me ides tragar por inteiro ou não, assim irás como ficarás, irás até ao fim, como ficarás até ao fim.)





*Sem acordo.


Cumprimentos,
 NR


n.a.: estes últimos três textos são um só caso se perguntem por algum sentido que parece nunca subsistir.

2 comentários:

Anónimo disse...

Boa noite,

um bocadinho extenso demais...
perdi-me um bocadinho, confesso!

Beijinhos :)

Nelson Rocha disse...

E confessas bem, deixei-me levar, mas não lamento,

um beijo,
NR