segunda-feira, 1 de abril de 2013

Ali



            Aqueles marcos dizem-me onde acaba o mundo:
de um lado um largo que só o é em nome, quando a ampulheta era mais nova, com grãos mais vivaços joguei lá à bola com pantufas cor de cão com pulgas, uma bola que eram trapos rotos colados com cuspe, fintávamos e um sempre a fungar, com um pingo tão longo que lhe chegava aos pés, confuso, confundia-se tanto o coitado, pensava que era a bola e lá ia ele a correr para duas estacas mal aparadas, tortas, espetadas ao biqueiro, havia um que usava as botas do pai, aquelas de biqueira de aço, e mesmo assim de pé tão grande os dedos, as unhas furavam pelo aço, devagar, mas certas, agora se o olhasse já via a ponta amarela de uma a despontar, como os rabanetes da Senhora Alzira lá ao fundo no quintal, a centenas de metros de distância mais ainda assim, com a violência do martelo na bigorna, Tende cuidado com a minha horta, e nós Sim, sim, com a cabeça, sem grado anuímos, mui certinhos pensando cá para mim, cá para nós o quão bom seria ter a roupa de domingo, agora curta, enfezada, sem fermento nos remendos, Põe fermento mãe, dizia-lhe, E ela cresce, mas não crescia, um toque atrás do outro no que não era a bola, era cuspe, e ele Golo, grande golo que marquei, tudo ri, até ele quando percebe que correu atrás do cuspe que lhe caia de uma narina de cavalo, agora não é largo, ainda tem cruz (o largo), agora rotunda, mas uma daquelas muito tortas, muito estranhas, com um chafariz que não deita águas, agora que o olho, (aqui da janela eu vejo-o, ou imagino que sim), não deita nada, Deita nadas, diz-me alguém,  
ali em baixo uma rotunda mal cozida, teve pouco tempo de forno ou assim me disse quem sabe da coisa, o polícia, É melhor assim menino, assim os carros andam como os ponteiros, penso Não é ao contrário?, mas quem sou eu para pensar, raquítica, na escola a coitada caia da  cadeira, entre os buracos onde deviam estar tachas de tão pequena, pisada por outras  maiores e belas, mesmo aquela que se instalou no largo e segura um chafariz na ponta do nariz,
mas aqui enquanto a beijo, penso Ela é que me beija, enquanto ela me diz, Nem um amo-te?, nem um tenho saudades?, e eu beijo-a, Vês-me como um orifício, penso Mas que rico orifício, mas amo-a, mas quero-a, mas desejo-a,
(distrai-me, não o digo nem o penso,
com a tua coluna erguida perante o avanço de língua bífida por carnes tenras,
- inda, - diria a Senhora Alzira,
vai-te, agora que me corres o pescoço, mas levas-me?,
- dás-me a mão?, - espera, - para onde me levas?,
Concedo-lhe um arfar de vitória, concedo-lhe,
mordi a língua, de mim não levas nada),
ali ao lado, (corre a unha esticada, esta não é amarela, é cor do escuro, a lua que me pisca o olho diz-me É cor de uva cozida, corre solta, deixa um sulco vermelho, incerto, uma gota que escorre, e eu que me violo em contenções, pari-me para fugir,
- anda cá,)
ali ao lado,(ergues-te em cima de mim), ali ao lado, (beijas-me o pescoço), ali ao lado, (arrastas-me as mãos), elas Para onde vamos agora?, firmes, meigos, ternos, arrepiados, acordados,
(violas-me,
- porque me violas?,
- quero que estejas aqui, - empala-se mais um pouco, um rebolar de olhos, um corar, um arfar, um esgar, um erguer-me,
(ergui-me),
cedem carnes tenras de sabor acre,
- que tu gostas,
anuo para não dizer, sabor que gosto, sabor de gelado em noite sem luas e maré vaza, ai aquele cheiro a memórias, sabor que me preenche, líquidos que me inundam,
- eu trago-te, - ainda empalada, - eu sorvo-te,
ali ao lado, uma cadência, a minha mão enterrada em peles, amarra, torce, meus dentes cerrados trincam ombro, ombros, colamo-nos, salivas agora pastosas que me impedem de cair, torces-te em busca de mais, carnes tenras que protestam onde, e um barulho que se arrasta enquanto a cola cede, a saliva dá de si,
- olha fogo de artificio,
ali ao lado.





*Sem acordo.


Cumprimentos,
NR

2 comentários:

Nilson Barcelli disse...

Tens uma forma de escrever impressionante. Que, aliada à criatividade, bem patente neste como em todos os teus posts que já li, me leva a crer que, se ainda não o és, serás um grande escritor.
Gostei imenso, como é óbvio.
Um abraço.

Nelson Rocha disse...

Nada mais te posso oferecer que um embevecido obrigado,

também me tenho entretido a violar o teu canto, com deleite acrescento,

se o sou ou não ainda não sei, mas o acto une-me,

um abraço,
NR