domingo, 10 de março de 2013

Um ele



            A posição fecal em que se encontra deve-se somente a uma indefinição latente, como se a indefinição fosse a doença que lhe corroía as entranhas, lhe inchava o pâncreas, lhe rasgava o estômago, lhe fazia o fígado pingar como algerozes sem cuidado,
            - define-te, - vozes atiradas ao vento de um qualquer barlavento lá longe na costa onde quebram ondas de fúrias mal contidas, fúrias de todos mas não dele, fúrias daqueles que olham o indefinido, como se o definir da sua existência fosse uma doença, - venérea, - sublinham com olhos bem abertos, - sífilis de portos sujos e podres, portos que cheiram a urina de marinheiros de longos cabelos que gastam xelins em bocas gastas, em fornos lassos, - de mãos bem erguidas, de suores bem visíveis que lhes cobrem o corpo, - não são suores,
            - então são o quê?,
            - é água parida desse algeroz que chamas fígado que me molha a existência,
            um indefinido que não se encontra nem quando se olha ao espelho: em dias ímpares,
          - vês-te como uma flor tirada de mãos minhas que agora descansam no meu colo nuas sem agulha que as resguarde de frios paridos da inactividade, - mãos de velhas e anciãs que nunca param, que nunca cessam, que nunca comem quando a gente grande para quem cozinharam come, - mais tarde, - dizem-lhes enquanto pavoneiam por cozinhas e corredores entre panelas que fumegam e esquentadores que só pegam com três pancadas secas no lado direito num típico plok, plok, plok,
            - arre que me acordas, - grita ele dum quarto ao fundo, escuro, sem marcas, vazio, um quarto nu de coisas, nu de existências onde somente o indefinível dança sem roupa que o cubra, - que a cubra, - corrige-se, impõe-se no medo que o julguem enquanto cruza a perna e estica a tromba para roçar na parede,
            em dias pares,
            - vês-te como o hediondo,
            - não é ele também indefinível?, definam-no vá,
        fiandeiras sentadas em bancos acolchoados com sedas trazidas por galeões e caravelas de longínquas terras, em antigos tempos, fiandeiras velhas, idosas, rasgadas, usadas e feias, outras belas e formosas, despidas no quão pouco vestidas, numas os seios que descansam no colo, as nádegas que se sobrepõem entre pedaços de carne que pende, noutras os seios pequenos, nalgumas não mais que um curto relevo branco como cal, de carnes tenras e virgens, de penas firmes, todas elas todavia agarradas a construir, a costurar naperons em salas largas e circulares ornamentadas com pilares criados por Midas e seus irmãos, um chão de mosaico que sem tocar parece gélido, ai sentadas em profundo conforto eterno elas riem enquanto tolos lhes pedem definições,
            - meu querido o hediondo és tu em dias pares, és a maldição que procura a ida para onde não te enviamos, sem saberes que a tua mera pergunta e indefinição nada mais é que a resposta à nossa luxúria, que entre orgasmos rimos, e tu ai que te róis e corróis, enquanto dás trinta e três voltinhas por minuto na demanda pela inocuidade,
            ai dele, ai do seu fígado que pinga como algerozes sem mimos.


*Sem acordo.

Cumprimentos,
NR

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