quinta-feira, 28 de março de 2013

Que me comes



            A chuva hoje teima em arrebitar a poupa, irritadiça estala como cereais, trinco, trinco naquele crunch, crunch, a minha avó sentada na esquina de uma escada que ninguém conhece, mas seus glúteos esticados, estilo panqueca,
            - imaginas?,
            prego para que sim, a minha avó olha-me de mão na cintura, de perninha,
            - perninha?, - sai aí de cima tu que me transcendes,
            - a maiúscula?, - comeu-se, como eu me como e comigo a ti, de puta a doce, não deixas de o ser, aquela,
            agora nua de pouca vestida, nas luzes lânguidas que dançam à sua volta, faúlhas de uma fogueira que num,
            click,
            se ergue imponente, na carpete de veludos importados, deitada, lânguida,
            - lânguida como?,
            desenha-o o tu, eu estou ocupado a come-la,
            uns lábios vermelhos que me sorriem, uma cor que muda, daqui pareces azul, dali rosa, quando me colo a ti morena, tez que o sol lambe e ri assim como eu gosto,
            - e a maiúscula?,
            doce ou puta de transcendência ainda te ergues dos recantos da minha existência, homens e mulheres que erguem as orelhas quando ouvem o papel que lhes diz assustado, indignado, preocupado,
            - ele ainda a vê,
            e fuzis,
            - fuzis?, - cala-te puta,
            e comprimidos azuis, amarelos, rosa, vermelhos, e funil, catrefadas de comprimidos esmagados, comprimidos na minha bossa,
            rumino,
            mas ainda assim deixo-me estar aqui, ela que pende, deixo-me estar aqui enquanto te personificas em desejos meus que nem eu conheço mas ainda assim ela chocha, tu lamentas?,
            - lamento,
            eu não,
            perna gorda e com pregas que caem umas sob as outras em ondas de rio que nunca desagua, de cara inchada, de cara manchada pela idade, pela validade que expirou e eu,
            crunch, crunch
            não me sorrias dessa forma, não te abras assim para mim puta, os comprimidos levam-te, vai, parte, amaldiçoa outro com inspirações bravias, parte e nunca regresses deixa-me enumerar números que são fechados, vazios absolutos,
            - sem mim nem um predicado decente somavas,
            contigo,
            - sem mim um mais um dará inexoravelmente dois,
            nunca, jamais não o digas, mas eles são fortes, fazem efeito e tu voas, teu corpo belo torneado em desejos meus escondidos em pregas da memória, em pregas de instinto tão longe que nenhuma carta náutica as encontrará,
            - sem mim não terás sagrado barlavento, sem mim,
            sem ti terei normalidade,
            - e meu corpo?, - e esse corpo?, - possuis-me uma ultima vez antes que essas drogas longe do ópio que me envolve te levem para onde possas balir em sintonia com os rádios de ondas curtas que todos os teus primos têm,
            eu foder-te?,
            - sim, como tantas vezes, como tantas noites,
            és a doce, és a puta, és a anormalidade que me leva para ali quando todos me gritam, até as folham que preencho noite fora,
            - ele está a imaginar outra vez,
            sai o funil, made in China, azul mal pintado por crianças de dedos curtos e unhas mal cortadas, que de tenras carnes já enrolam tabacos bem cheirosos,
            um bafo para ti, um bafo para mim, e agora tu que cruzas a perna torneada, o teu sapato, a tua pele, o teu corpo, e a cigarrilha que fumega de lábios vermelhos como sangue meu, não teu, nunca teu, não o tens,
            - ele imagina,
            - não imagines, - gritam-me dali ao fundo, minha avó de saias gastas, uma, duas, três, quatro, cinco…, e a seguir?, gato que mia, - chicaaaaaaaa…, - o grito que ecoa por paredes e azulejos amarelos de gorduras,
            ainda me olhas?, nua, nua em belo sem expressão, as sombras que te envolvem somente te elevam, ainda assim olhas-me com um olhar de doce puta,
            ainda assim ele chocho, pendente, caído, em aparente paz, um decrépito membro fálico, saco-a para chegar um amendoim que como com casca,
            - vem-te,
            vai-te, agora sou sadio,
            escolhem funis, escolhem comprimidos,
            - abre a goela,
            - abre-a, - dizem-me folhas virgens,
            - não imagines, - dizem vozes,
            - come-me, - dizes-me tu que te esvais por hoje.




*Sem acordo.


NR

2 comentários:

Nilson Barcelli disse...

Uma escrita desconcertante, quase sem respiração...
Gostei e voltarei.
Obrigado pela tua visita.
Um abraço e boa Páscoa, caro Nelson.

Nelson Rocha disse...

Um obrigado,

eu também irei,

cumprimentos,
NR