domingo, 31 de março de 2013

Invertido enquanto rodo



            O mundo roda ao contrário, de dentro para fora, as minhas entranhas cerzidas agora, a minha pele agora unida em fígados, rins e outros que me fazem inspirar estes alcatrões enquanto relembro um mundo que roda ao contrário, um mundo tão díspar a um este eu que agora me imbui, que sonha,
            - tu sonhas?,
            sonho,
            sonho com o rodar de um corpo em movimento perpétuo, rodo até o sentir aqui tão perto, o seu ar que me ergue aqueles pelos que não existem,
            (se não existem como se erguem?),
            ainda assim sonho com ele, enquanto rodo, neste mundo ao contrário, rodo de espada que cintila, de cota de malha baça, de escudo erguido, de elmo que fechei,
            - fechas-te mesmo?,
            confesso que agora não me recordo, quando olho não vejo, com vísceras a fazerem-se de olhos, esbugalhadas, esticadas, capricharam na maquilhagem, parecem-nos quase,         
            - parecem quem, parecem quê?,
            olhos,
            (onde estão os meus olhos?, ali ao fundo, caídos num saquinho ornamentado, arrepiado com frios, alastrado de calores, de penugens soltas, caído, horroroso, caído, engraçado, curioso,
             - olha como se mexe ao vento com olhos que agora não são olhos, são bolinhas de espuma dentro de um saquinho que pindérico abana ao vento pendurado com pregas de pela presa aonde não vês,
            eu bem que espreito, mas pregas,
            - vê-las?,
            nem vê-las, também se escondem, ou estes olhos (que não o são) presos com guita por mãos pretas de  mães monocromáticas,)
            rodo banhado por sangues e carnes de outros, rodo com a espada que me deram, anos que passaram até este rodar, dormi com ela tantas noites, agarrado a ela, quando meu pai de cabelos loiros mal-amanhados me olhou,
            (sem olhar reparem,
            (também ele virado ao contrário),
            me olhou com as amígdalas,
(penso que eram as amígdalas e me disse,
            - é tua,)
            amei-a como só um homem pode amar uma espada, agora que roda, tão delgada de tão afiar, sentado em árvores de grosso carvalho de costas coçadas e rabo entalado afie-a noites fora com águas, com pedras, amolava, amolava  e amolava, agora ela delgada que ao longe nem parece ter coisa no ar quando a rodo, pois eu também rodo, rodamos as duas, eu sem ver, não pelo olhos que eram testículos encrespados, mas pelo elmo que fechado me dava só duas rodas para ver, ali uma perna sem dono, ali uma cabeça sem braço, e ainda rodo, sinto o bafo na nuca de quem espera que eu rode, sem realmente esperar, tenta inverter o meu rodar, ou rodar ele próprio para o meu rodar cair na falácia de me levar aonde estava,
            ergo-a bem alto, temível em cotas polidas agora, temível com espadão que segurava, em elmo ornamentado de águia que caçava cobras, temível no corpo que me abonava, ergo-a tão alto quanto possível, se ele visse meus olhos presos com guita mal feita,
            (riem-se as fiandeiras),
            fugiria antes mesmo daquele esgar de surpresa, agora de terror, parece um feto encolhido, desço sobre ele meu julgamento enquanto lhe racho crânio, lhe levo um olho, lhe tiro um nariz, lhe corto carne, consciência, alma, na outra mão uma pequena machada tosca, atada com cordões grossos de pele de carneiro que lhe espeto onde ele pende flácido, se possível o olho ainda sadio roda sobre si em dores que não exprime com a língua arrancada por dentes,
            - teus?,
            sim,
            antes, coisa pouca antes, o chão era duro em pedras com minerais agarrados, de mãos dadas, um dia seco que os enrija, ao longo da paisagem esporádicos tufos púbicos à anos setenta,
            - e agora?,
            entre grunhidos, entre embates de escudo, entre homens que cantam a terra solta era lama, rios vermelhos que correm por cima, por baixo, pelo lado das minhas botas reforçadas com aços temperados na biqueira, na caneleira, no calcanhar, naquele pedaço de pele anónimo para mim por cima do calcanhar,
            (como se chamará?, será parte cima do calcanhar?, arre que já soube,
            - e agora não sabes?,
            quando me inverti foi para onde não sei e agora não o encontro, mais que não seja para lhe perguntar o nome),
            e a este também não pergunto, enquanto desprendia a machada com pedaços da virilidade de outro à pendura, pareceu-me ver um quase tesão que seria, mas não foi porque decepado, porque cortado, porque preso em lâminas mal afiadas de uma machada mal feita,
            minha espada é que ri, cuidada, sadia,
            esquivo-me para lhe correr o pescoço com a lâmina que o corta como se fossem manteigas quentes, pele, músculos, cartilagem e ele tenta falar, espirricha para ali, espirricha para aqui,
            e mais rios, mais fontes, mais corvos que crocitam, mais abutres que chegam cantando músicas esquecidas, e os corvos que vão e vêm enquanto Ódin em palheiros mal feitos usa o único olho para seduzir mulheres de homens que se erguem com escudos e espadas,
            minha mulher também ela aberta enquanto Ódin a deita em palheiros,
            - percevejos, ai eram tantos, - disse-me ela depois enquanto retemperava os lábios, não esses que vejo e me falam, os outros com um pouquinho de salsa e paninhos embebidos em águas de termas, - arre que Ódin é como um aríete,
           e eu aqui a cortar outro, mutilo este e ergo-me em escudo contra escudo, um que apanhei,
            (perdi a machada),
            - também para a grande merda,
            cantamos enquanto os cortamos, cantamos enquanto nos fodem as mulheres, cantamos enquanto meu pai me diz,
            - é tua,
            cantamos enquanto nos cercam,
            (cercaram-me),
            digno, canto e aguardo, esquivo-me, estoco, rodo, ataco, corto, e um pedaço de perna que cai,
            - de quem?,
            meu,
            e um pedaço de orelha, (a única sã),
            um pedaço de joelho,  um joelho que finca o chão, ainda longe de prostrado, mas perto de caído,
            bardamerda tu abres assim as pernas em qualquer palheiro,
            - era Ódin bebé,
            luto com espada lambida para quê?,  enteso-a para me empalar,
            (empalei-me, dilui-me),
            apercebo-me que ali ao fundo, se me arrastar, se conseguir talvez, vou perdendo intestinos, mas já não fazem falta, era só peso nos ombros,
            um adeus, agarro-a, a espada, um adeus que se foda a machada.




 *Sem acordo.


Cumprimentos,
NR

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