sexta-feira, 8 de março de 2013

Gentes




            De um ou outro lado da estrada olham com a duvida presente nas suas frontes, uns dizem entre murmúrios que escondem,
            - anda às putas, - prontamente corrigidos,
            - andou às putas,
            outras e outros de sachola que sobe e desce, ao fundo, em campos pouco asseados olham ao longe, de palma da mão para evitar o sol, observam-me enquanto caminho de cigarro espetado na esquina da boca, enquanto ando numa anormalidade tão atípica, num ritmo tão acelerado, de tiques que surgem, de bola de esponja que aperto,
            - suicidou-se, - corrijo: dilui-me, corrigem-me,
            - tentou suicidar-se,
            um ninho de ratos, uma abóboda de inexistência, um mundo cruel dentro de uma passividade tão latente que pulsa também ela desta minha bola,
            - meteu-se nas drogas,
            - leves?,
            - não pesadas, olha para ele, com aquelas olheiras, olha como as mãos tremem, olha como ele nos olha, está aqui mas a mente está ali na próxima dose, é um drogadito de merda,
            pessoas, gentes, altas, baixas, amarelas, caucasianas, pretas que me olham, que me medem, que me julgam, outros de gravatas e fatos feitos por medida que me analisam, que me picam o cérebro com um cinzel enquanto perguntam com um brilhozinho nos olhos, semelhante ao puto no circo a ver as contorcionistas,
            - aqui dói menino?, não?, e aqui?, se pressionar aqui vês coisas que não estão lá?,
            - como posso eu saber se estão ou não lá…,
            condenam-me,
            - atchim, - espirra um rato,
            - santinho, - cantam todos em tom monocromático, um som profundo nascido das gargantas enegrecidas de maldizer e corte e costura sem vagar, sem agulha, sem tesoura,
            aqui no meio, no olho da borrasca observo com calma quem me olha, todo o circulo que se aperta e alguém que me acerta com um pedaço de giesta para ver se ainda estou vivo, aqui no meio o quanto me rio, aqui no meio o quanto desespero de rir,
            podem-me tirar tudo, mas não me tiram a mente, se a demência é o que me espera aguardo-a como um sorriso como um condenado aguarda a guilhotina, espero-a com este sorriso que recuso despir pois no fim do dia todos foram, todos partiram e aqui, sem querer estar aqui, convicto todavia que se ali estivesse pensaria no quão bom seria estar aqui, em todo caso só, isolado nesta montanha moldada em forma de ameias que criei olho-os de sorriso presente,
            pois vós tendes vossas tendências, maldizeres e julgamentos, vocês têm sociedades e tratados, vocês tem equações definidas onde colocam o pensar em translúcidos mecanismos mecânicos importados,
            - made in Vila Real,
            ups que são nossos, mas no fim do dia eu abraço-a e o resto que se dane, abraço-a, amo-a e o resto que caia em mil infernos de Dante, no fim do dia tenho-a e o resto, mil perdões, que se foda,
            - tens o quê meu cabrão em busca de putas chochas e usadas, paradas na beira da estrada em banquinhos de madeira também ele chorosos como se lamentassem  o seu inglório uso, tens o quê?,
            - tens o quê meu suicida, meu anormal?,
            - tens o quê?, vai mais uma dose de heroína?,
            - meus amores no fim do dia que todos se danem, pois eu tenho a minha loucura.


*Sem acordo.

Cumprimentos,
NR

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