sexta-feira, 22 de março de 2013

A boa



            O ressabiado do Sebastião, filho da Dona Maria do segundo andar, saía todos os dias de casa a uma hora certa, uma hora sem nada em especial, sem fato bonito, sem vestido pomposo, sem estilo arrebitado, também somente saía de casa devido a gritos nefastos paridos da garganta habituada a fixar rebites na parede enquanto pregava o peixe sem pernas na lota, saía o miúdo comido de cara, de pescoço atarracado, ao longe quando o via, ou quem o visse, pensava, pensariam assim como eu, também não lho diria, nunca lhe o disse, embora pensasse tão alto quanto pudesse na esperança, ténue é certo, mas ainda esperança que ele ouvisse, que ele percebesse que não tem pescoço, que tem a cabeça atarraxada no espaço entre os ombros, parece um pimpolho sem rumo enquanto todos os dias deste inverno se arrasta de mochila baça às costas rumo à escola onde gente pequena aprende a ser gente grande, onde gente pequena aprende os valores da monogamia e os malefícios da bigamia, não é isso que se ensina agora?, enredo-me em fios que não interessam para o presente, o ressabiado do Sebastião lança-se porta fora, esquivando-se na naturalidade que só a pratica pare dos berros temíveis da Dona Maria que de mãos na ancas e cara inchada, vermelha, cara de balão, uma cara de peixe balão com tanta espinha por espremer entre banquetes de gorduras que corriam face abaixo para caírem em cima dos filetes que nesta hora tão certa, nesta hora tão matinal já borbulhavam entre óleos estranhos, óleos únicos, fula em simbiose com gorduras que choviam e espinhas que rebolavam em bom banquete, cheias, de cabeças amareladas, vertem-se, não  conseguem conter mais, vomitam-se e uma gota mais grossa, mais branca, mais amarelada que caí em cima do filete negro nas bermas, o Sebastião que corre esquiva-se, salta e pincha escadas abaixo, uma sílaba que passa por baixo, outra que passa por cima e finalmente rua, caminha agora rua abaixo de mochila baça pendurada ao ombro, uma mochila que já foi do irmão que agora pescava caranguejos, e como Sebastião gostava de caranguejos, divertia-se ao lanche quando o irmão regressava a chuchar as pernas e a sugar-lhes o orifício do rabo, o irmão ria-se, que mãos grandes ele tinha com calos largos e achatados, um nariz curto, sempre vermelho eternamente queimado pelo frio, o irmão sorria também ele pensava como eu agora penso enquanto vejo o Sebastião a rir-se sem motivo entre poças numa rua esquecida e sem nome, uma rua que é rua porque lhe chamam rua mas quem é de fora olharia e veria casas velhas com tectos de chapa rasgadas, montes de pedra e caliça, pedaços de terras soltas encostadas a paredes de casas que agora não são casas, nem barracas, são coisas sem tecto e sem uso, terras que se achegam em busca de calor, em demanda por onde encostar num ritmo progressivo: lento, mas eterno, terras que quem de fora vê, rua que nada mais é travesse para quem é de fora, pois quem de dentro é, seja a velha do terceiro andar, ou a boa do quarto andar nada mais vê do que as terras imutáveis que no ano antes lá estavam, hoje nesta hora, na mesma hora em que Sebastião sai de casa rumo à escola de mochila pendurada enquanto foge dos gritos que servem de galo nesta rua, estes e estas que aqui chamam casa, que aqui chamam sua rua nada vêm de diferente, mas eu e tu somos diferentes, assim como aqueles que são de muitos lados que não a rua onde Sebastião caminha, nós vemos terras de cor castanha, claras, escuras, terras que fariam lembrar borras de café, terras que fariam lembrar aquela gosma que se cola na cana do nariz enquanto se procura aquele ultimo golo, tragar aquele ínfimo resto de café que na verdade já não o é, não é liquido é cor, e o nariz que pintado fica, que seca, e caminhamos rua abaixo, agora sim em ruas diferentes desta do Sebastião com uma mancha cor de merda presa no nariz, todos com tanto decoro incapazes de alertar, mas Sebastião está feliz agora que caminha na sua rua, tão feliz, não, menos feliz, mas ainda feliz, menos todavia, pois quando suga com uma perícia natural aquele buraquinho do caranguejo todos pensamos: pratica menino, pratica, uma vez mais descambo no fálico da coisa, Sebastião de mochila presa por uma presilha ao ombro esquerdo no estilo que a moda ordena, mochila que antes de ser do irmão já fora de um primo que agora estava lá para a terra dos negrinhos e antes de ser dele fora de um conhecido que geria uma alambique ilegal nos tempos cada vez mais da outra senhora, esta mochila tem sangue digno, tem árvores genealógicas profundas e fundamentadas que quando estudadas e seguidas com afinco conclui-se inevitavelmente que esta mochila, a mochila que Sebastião trás às costas é herdeira directa do alforges de D. Dinis enquanto este caminhava de pinhal em pinhal, ou melhor caminhava entre futuros pinhais, Sebastião ia rua abaixo evitando as poças de águas estagnadas, não chovia, nunca chovia mas as águas ali estavam esverdeadas, no meio da rua, ali ele vê a velha do terceiro andar e pensa, ali ele vê a boa do quarto andar e imagina, até eu imaginava, enquanto ela se curva para apertar o cordão de uma bota que não calçava e com aquele rabo colado à ganga que infelizmente efectivamente vestia, um rabo colado à ganga com colas de tubo amarelo, tão colado, uma ganga tão fina que Sebastião não via calças, não via ganga, Sebastião via o rabo e que se foda a velha do terceiro andar sem dentes, velha que sabia, que ouvia mesmo quando ele pensava, velha que atirava ossos e lia sinas, velha que noutros tempos servira como skald em exércitos de conquistas de homens lá de cima, do tecto do mundo, homens com nomes como Ragnar, Ivan, Oda e mais que eu não sei e ela não se lembra, homens altos e loiros, homens fortes de peito largo e músculos torneados por anos a remar em barcos compridos de madeira leve, barcos ornamentados com escudos de muitas cores, com cabeças de bichos estranhos, bichos que não são daqui, nem desta rua que para mim é travessa, nem de qualquer rua deste mui nosso mundo físico ou meta, não eram simplesmente daqui, homens ornamentados com braceletes finas de oiro que pendiam dos braços suspensas pelo fim do pulso e o inicio da mão, homens de elmos reluzentes e cotas de malhas raspadas de sangues secos, homens com machados e espadas, especialmente espadas forjadas lá em cima, no tecto do mundo em bigornas tão quentes como o sol, espadas com nomes fortes que ressoavam ao longe, que ressoam no tempo assim como: Bafo de Serpente, que se lixe a velha que a boa do quarto andar está com o rabo colado na ganga e apetece-me tanto, e um grito que ressoa pela calçada que não existe, maremotos que se formam nas poças de águas estagnadas e D. Dinis que espirra quando a mochila diz ao alforges que lhe doem as costas, a água sai das poças e empurra terras castanhas contra paredes de coisas que já foram barracas, que já foram casas, que já foram apartamentos e Sebastião uma vez mais corre como uma locomotiva entre poças, entre vislumbres de risos mal disfarçados da velha que já sabia que aquele grito viria, entre a boa que agora que ele passara, o quanto Sebastião esforçava a vista para olhar de esguelha mas já não a via, e agora a boa sem calças e no meio enquanto olha de frente, naquele triângulo da púbis nada mais se via que uma tromba pendente, uma tromba esquecida por homens de capa branca em salas hermeticamente fechadas, longa e chocha, abanava ao vento como quem diz até já Sebastião, Dona Maria ergue-se na varanda e recupera o folgo enquanto resmunga para o cão que mia, o gato que ladra e a ovelha que essa sim bale, arre Sebastião tens que ir para a escola.



*Sem acordo.


Cumprimentos,
NR

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