quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Trinta e três voltas por minuto depois

  Descasco-me, eu a mim, enquanto me olho, enquanto me observo, enquanto me leio, tiro peles que descaem, que querem cair, umas mais que outras, mas que desfalecem à inamovível força da gravidade, quero-me despir, quero tirar as capas, as personalidades que criei, que trocava para enfrentar aquele este, e aquele outro, 
  mas cansaram-se, ou eu me cansei, é difícil perceber onde acaba um eu, para começar um outro, onde acaba a imaginação, para começar a realidade, é tudo uma pauta suja de opostos que se atraem, entre musicas ritmadas, ou musicas calmas, em definições; e ai, que seria de nós sem as doce e incontornáveis, mas sempre tão certas (tão?) verdades?; antagónicas, que se digladiam em arenas sujas que crio dentro do meu mundo, que agora já não é meu pois afinal respiro, pois afinal sou real, pois afinal vivo, e não me cabe a mim decidir o quão finita pode ser esta realidade,
  daí dispo-me das falsas caretas que atirava para o meio da peleja sem medos das repercussões, e quem lê, e para quem percebe, arre para quem se aventura, muito se percebe no meio daquele meio típico, obtuso e incontornável sem sentido, muito se entende, enquanto camada a camada desenrolo a cebola que me faz e respiro, minha pele branca como cal, faz lembrar o reflexo do sol nos mares sem monções, e respiro, ergo-me sem ajudas de um ou outro e tento de novo: ergo-me, levanto-me, sentindo pesos arremetidos de um ou outro sítios, sentindo as consequências das minhas acções, enquanto as fiandeiras se riem, de joelhos, sem ar, a arfar brados preso, roucos e afunilados na garganta, riem-se enquanto me gritam em línguas estranhas de tom nórdico,
  - que te dissemos?, 
  - é verdade sempre o disseram: o destino é inexorável, de que adianta fugir do chão que arde quando onde eu piso, onde eu pisarei, nesta minha corrida desenfreada rumo à anormalidade sem vigência o solo já estará em brasa,
  o lamento que cerra a minha garganta, enquanto o mundo roda indiferente, quem sabe com um esgar de repulsa, imagino eu esperançoso, para uma vez mais me afastar dessas constatações, pois ele quer lá saber do meu eu, ou dos meus eu's, ou da minha loucura,
  dispo-me nesta tarde, desta capa, pois nada mais tem para dar, e sem capa, sem máscara enfrento a torrente de verbos e predicados que a minha mente tenta moldar, agora são; (arre porque levaram a minha loucura?,) é tão mais difícil,
  mas a metafísica não quer saber, pois lá fora,  onde o vento faz dançar os ramos das velhas árvores, onde sol ora espreita, ora se esconde, onde a chuva ora faz aquele barulho que conforta na janela, ora se abstêm, onde portões batem, carros passam, caleiras chiam e caliça voa, nada, mas nada muda, com ou sem loucura, tudo toda numa inexorávell estagnação,

  o tempo passou, prova só o pó que se monta em rumos aleatórios ao longo da mesa, mas aqui me encontro no conforto de um canto de alma que ninguém me pode tirar. 



Cumprimentos,
NR

*Sem acordo.

1 comentário:

Eli disse...

NR

Li e compreendi... abarca uma certa calmaria semalhante à falta de tristeza ou ânimos superiores. Às vezes parece que fico assim.