quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Sina



            Ele rói as unhas de uns nervos que lutam para o inundar, (assim como eu luto contra o frio que invade meus dedos, minhas mãos como pedaços de glaciar tentam encontrar as letras neste velho teclado embrulhado entre migalhas de algo que enfio na minha boca, sem sabor, se o tem eu não quero saber, é-me irrelevante como aquele jovem que corre na passadeira e uma gaivota, seria uma noiva?, relaxa Lobo Antunes, não vou almoçar plágios, não me estico mais, mas a cabra da gaivota liberta sua inerente necessidade fisiológica que aterra como um pimpolho, aí de mim outra vez, uma vez mais perdão, atrevido na cabeça do jovem que corre entre carros amarelos e cor creme que correm em trajectórias destituídas de real relevo para o conto que vos atiro, atiro o teclado para o outro lado da sala que cai no meio de livros antigos de páginas amarelas e quebradiças, vira-me o cinzeiro com catrefadas de cinzas que mais que meras cinzas são pedaços de memórias minhas, de uma outra noite, de uma outra manhã, de um outro momento onde eu estando aqui não fazia o esforço tremendo necessário para efectivamente estar onde querem que eu esteja: aqui, estava ali, acolá, além, não interessa, estava de caneta na mão e de papel novo na minha frente, de face franzida, de olhares enrolados neles próprios que observam com um olhar académico, com um interesse científico os meus pensamentos que passeiam por questões tão fundamentais e eloquentes como: qual será o efeito da lua cheia numa noite de franzino nevoeiro na mente criativa de um qualquer demente que busca inspiração nas estrelas que já contou, isto claro se a maré for vaza?,) ele rói as unhas sentado numa cadeira que não é dele, (reparem como não tenho rumo, tudo isto foi para vos dizer que os meus dedos gélidos que me impelem a escrever trabalham com mais demora, mesmo com mais decoro, o que lamento profundamente, pessoalmente culpo-Vos, não, hoje não, culpo a medicação que me enfiam pela garganta abaixo de funil de cores claras, toda esta curva que executo, um traço perfeito que deixo neste mar, digna de um pródigo velejador foi para ganhar tempo enquanto ele rói as unhas aguarda que o sangue que jorra dos dedos desenhe padrões mesquinhos, mas que ela a oráculo com quem ele sonha se dispa e o lamba com uma língua réptil e um olhar de luxúria, coloque suas mãos no chão e a ele cole seus seios pequenos e bem formados e lhe toque com aquela bifurcação que se forma naquela tão longa e exótica língua, tal e qual uma preguiça que de forma tão relaxada descansa numa corda presa a um navio que cruza a linha do equador, uma vez mais perdão, não a ti, mas a ti O’Brien, ) as unhas são consumidas com a violência de alguém que sente as fomes de todo um continente, formam lascas que ele engole como tremoços, peles que ele lambe e mastiga, deixa-as derreterem-se na boca coma a poupa de um pêssego (que semeio mas nunca nasce), ele olha-a quando ela entra, ele que agora segura uma galinha que guardara no bolso, corta-lhe o pescoço e mistura seu sangue dos dedos rachados com o que a galinha larga de um pescoço guilhotinado, o chão de mosaicos frios é pintado com o tom escarlate, desenhos e padrões que  ninguém compreende são desenhados e ele aguarda, calmamente agora que não tem unhas para roer, que não guarda uma galinha no bolso tão perto assim de um tesão mal escondido que surge mal a oráculo surge das sombras, descalça com um andar que parece um eterno deslizar em que os pequenos pés não tocam o chão agora imundo, passo a passo, aproxima-se, lentamente tira a alça, primeiro a esquerda depois a direita, da túnica transparente que se interpõe entre o ar, que chia de gemidos de êxtases uns perto, outros longe, uns suspiram no depois, outras rangem dentes que não existem no quase lá, nua, branca como uma deusa para quem o sol nada mais é que um acessório desnecessário, (para mim que via o que via com os olhos enrolados enquanto cientificamente me comiam o cérebro parecia-me de todas as cores, uma mescla, numa tela perfeita, também eu, como ele que ruía as unhas queria uma resposta para a pasta agora coalhada que se formava no chão, também eu como ele queria saber o que caminhava para mim,) ela enfrenta-o, curva-se e roça seus seios, tal e qual os jograis lhes diziam, lá trás, onde a vista não alcança mulheres mui espartanas de vestidos negros e seios rapados olham com uma repulsa que se propaga como aquele ódio (que alguns me sentem e eu sinto a arrepiar o meu corpo num aviso, tão inócuo, como inexorável, que a morte caminha para mim) de gatas roça seu corpo esguio no escarlate, sua língua roça o chão e sorve-o sem um esgar de nojo, sem um sentido de desprezo, ai dele que agora roía a mão, chuchava o dedo, pensava em porcos a comeram as porcas em rituais de acasalamento impróprios para os sentidos, no meio do estrume, ele empoleira-se com patas sujas e pedaços de merda entre as unhas e ataca onde pensa que se pode enfiar para aliviar aquilo que urge na pele, mas coitado não entende o que  é, ai dele agora quando um tesão pródigo se aflora, rasga túnicas e fraldas para surgir imponente perante uma oráculo que (como eu) aqui não estava, estava num ali tão distante como as unhas que já foram engolidas, pela primeira vez seus olhos parecem humanos enquanto engole com violência aquela imponente miragem, larga o chão, larga o sangue que lentamente escorre pelo corpo abaixo, cospe a saliva que lhe inundava a boca e agora sem a leveza, sem a santidade, sem a aura inviolável da perfeição de pele branca como neve (de uma mescla de cores) caminha com passos que se sentem, passos que fazem um som semelhante ao de tangerinas esmagadas enquanto ela pisa o escarlate e mudava a pintura de um amanha, o dele, (e agora?,) aproxima-se, ele chucha o dedo e abana a cabeça em nãos que não sabia que existiam (assim como o porco), ela encaixa com um  gemido saído de uma metafísica tão longe como insondável para ele (para mim também), deixa-se estar enquanto as horas passam, sem movimentos enquanto ele cresce e evolui, enquanto ela  sente pela primeira vez numa eternidade seu vácuo ser preenchido por algo que pulsa, por algo que respira, que vive ao mesmo ritmo que o coração dele que agora não rói as unhas, um suspiro que ela solta a cada baque de um coração, empalada pintada de um vermelho de seus e outros sangues.


*Sem acordo.



Cumprimentos,
NR

Sem comentários: