domingo, 17 de fevereiro de 2013

Prelúdio (reedição)



Na janela ela diz-me adeus enquanto veste as cuecas, compõe o rímel e pensa no quanto lhe doem as coisas de mulher, irmãos juntam-se a mim num adeus sentido, pergunto-me quanto tempo demorará até acordar para a incontornável noção que nunca mais a verei, gaivotas produzem sons macabros que ecoam no pavimento, vozes de descontentamento surgem paridas do pão que não se encontra, do jornal que não se lê, do tabaco que não se fuma, as sirenes soam ao longe, cada vez mais próximas, também nós escutamos o pedido de ajuda enquanto batalhas dignas dos Campos de Pellenor se desenrolam em estabelecimentos comerciais dotados de descontos, pessoas comuns, honestas até onde a vista alcança que só quebram a lei quando sabem que não vão ser descobertas, alguns até admito que apanhariam uma carteira do chão sem tirar o dinheiro devidamente acautelado no seu interior, mas agora inebriados pelo desejo sanguinário parido do encantamento emanado do papel higiénico de marca branca cinquenta por cento mais barato que seu irmão consuetudinário: homens ordinários, comuns, misturados e iguais em perfeita sintonia urbana marcam-se com tatuagens de guerra, tintas azuis, ao longe parece-me ver highlanders de sotaque carregado a tocarem gaitas de foles nos tempos livres e gritam, bradam expressões indecifráveis mas carregadas de raivas e horrores mal contido enquanto carregam sob pessoas também elas comuns, ordinárias, mas que neste preciso momento não são mais que usurpadores e ladrões de saque que pertence a mais ninguém do que aos nobres Escoceses, mordem-se em banhos de sangue, arranham-se em busca de se cegarem mutuamente, lutam sofregamente pelo último pedaço de queijo Limiano, rasgam suas roupas como cães atiçados pelo cio e sangram prostrados em chãos duros e frios, agora tingidos de vermelho, a policia caminha em ordem, em linhas perfeitas com escudo encostado a escudo protegendo-se mutuamente, uma falange parece-me ao longe, imperfeita e falaciosa, pedem calma com megafones mal afinados, vozes que deveriam soar doces, parecem duras e hipócritas, ninguém se rende, ninguém se entrega, ninguém dotado de juízo iria desistir de tampões marca branca a cinquenta por cento de desconto, nomes são chamados, nomes hostis e macabros, a resposta faz-se sentir na forma de jactos de água gélida seguido de uma carga tola e desconstruída, homens comuns semivestidos, ensanguentados são espancados sem pausa ou piedade, são rebeldes em busca de preservativos, tarados sexuais, predadores em potencial, esfolem-nos, batam-lhes com uma força sem tecto à vista, sangue: quanto mais melhor, cambada de ladrões em buscas de coisas a meio preço, são piores que ladrões, piores que violadores, piores que pedófilos, berros de dor que se erguem do caos e se misturam com reminiscentes ataques verbais fundamentados pelos crimes que neste momento se assistem: fome é crime,
aproximamo-nos pela areia da Praça da República e espreitamos temendo ser também derrubados pela mera intenção de olhar a actividade recolectora, fugimos quando a suspeita começa a espreitar pela janela, passam por nós homens fortes em corridas tresloucadas com sacas cheias erguidas sobre a cabeça a pingar escarlate e com cheiro a cru,
os Bancos irrompem pelas costuras com casas hipotecas, catrefadas de casas arrumadas aleatoriamente dentro de cofres mal cheirosos, homens de gravata torcem o nariz em desdém pelo cheiro que se ergue das casas recuperadas: vêm pejadas daquele cheiro a plebe mal cheirosa, mero lixo da condição humana que não consegue pagar a casa e têm que a devolver ao remetente, tão nobres instituições, o sacrifício necessário para se atreverem a tocar em materiais munidos à priori por homens tão inferiores, são santos, são mais que santos: são entidades benfeitoras que do alto da sua mente subtil e mui inteligente, muito mais afiada que a do comum membro da plebe, encaixados em fatinhos feitos por medida por alfaiates antigos e prósperos, estes seres tão elevados na hierarquia desta nossa metafísica e mesmo assim atrevem-se, loucos, loucos a tocar em coisas sujas por tesos sem um tostão, que homens enormes,
os Aliados surgem para comprovar o descontentamento de outros da mesma plebe suja e mal formada: professores de filosofia entram em retóricas vazias de real convicção, tolos buscam utopias marcadas por ideias tão obsoletas e patéticas como o altruísmo, a sério?, já tendes um estado social que cuida tão bem de vós, sempre a protestar esta plebe horrível e ainda querem mais conceitos imaginários nascidos à pressão e com a violência de uma rocha saída de um trebuchet atirados para esta nossa metafísica, de grupos de dez em grupos de dez, palavras de dez vezes mil, mas realmente o que importa o que eles dizem?, nada, deixa-os estar descontentes e com fome, são irrelevantes, são o nada que mune a sarjeta desta nação à beira mar de cor, são castiços de ver a perseguir um naco de carne putrefacta mas não tem nenhuma utilidade, se milhares se reúnem de capital de distrito em capital do distrito o que importa?, quem de relevo se importa?, eles não tem cavalos treinados para a guerra, nem fatinhos azuis escuros com uma gravata a condizer como os santos que comandam a batuta desta nossa sinfonia, estão descontentes?, paciência, passam fome?, pena, com seus dentes pretos e mal cuidados, ornamentados por cáries e gengivites rasgam as gargantas uns dos outros por bolachas sem sal em desconto, mas qual é a relevância?, são milhões, irrelevante, quem realmente tem relevo nesta nossa metafísica são aqueles em cadeiras ornamentadas a rico ouro milenar, aqueles que colam seus dedos em pirâmide erudita, olham para baixo com pena mal desenhada no rosto, um sorriso petulante que quase surge, praticamente imperceptível, no canto da boca, covinhas de curiosidade nascem na testa, no vértice dos olhos, e o nariz?, arre, o nariz contorce-se em trejeitos inesperados promovidos pelo odor desta plebe mal cheirosa que o vento empurra por cima do ricamente trabalhado tampo da secretária de madeira de cerejeira, odor oriundo de praças de capitais de distritos: construtores, professores, doutores, empregados de mesa, empregados têxteis, sapadores, um alguidar laboral comum onde todos choram porque têm fome, profetizam marés de revolta pois seus filhos comem arroz com terra e alimentam moscas também elas nojentas e magras, mas que interessa isso?, nada, porque os fatinhos dançam entre argolas de fumo de charutos importados e maltes raros e saborosos,
num movimento conjunto e equilibrado as massas movem-se, na estação espacial internacional assistem enquanto brincam com pipocas, pesadas e incontáveis massas caminham em busca de um outro cais para serem alimentadas, para seus corpos regenerarem dos ferimentos, da subnutrição, da desidratação, procuram bom porto para nutrirem a mente com cultura inacessível, com música proibida ou escondida sob a égide do euro, massas buscam vitimas para crescerem em valor e conhecimento, para se tornarem mais e melhor, sozinhos encontram-se isolados, abandonados, temem sair de casa, temem ser derrubados mal saiam por seres opressivos munidos de detectores de cheiros, de um só odor: de quem não tem onde cair morto, mas em grupo a coragem inunda-os e começam a ter pensamentos obscuros: compreendem o que existe dentro de cada um, que existe algo mais que a mediocridade latente que os visita e os faz sentir como um mero nada vazio de razão ou propósito, sem rumo em desespero presente a cada nascer do sol, em cada acordar olham o tecto do barraco, outros olham o tecto do mundo e pensam será hoje que terei a coragem para me atirar do colo de metal de D. Luís I?, será hoje que na neblina um Mouro me irá decapitar?, erguem-se a custo para encontrar a família a salivar à mesa coxa de uma perna, amparada por um papelinho gasto que do tempo tornara-se negro, choram de dores de barriga vazia entretida a fazer ecos com sons hediondos, sai de casa em desespero com um palmarés irrepreensível e procura um ombro onde possa ser útil, nada mais encontrando do que uma trinca, um esgar, e uma cuspidela de desprezo, pessoal altas e belas com carteiras de peles exóticas sacam papéis com números para pagarem coisas também elas subtis e geniais e ele saliva, enquanto embacia o vidro da monta da pastelaria, observa embasbacado cinco pães esquecidos na montra da padaria, foge em desalmada corrida quando o segurança de pau em mão corre para ele, que ladrãozinho de merda, o que esperava?, regressa ao fim do dia feito num oito depois de quilómetros corridos e galgados, de curriculum vitae sujo de lama na mão, procura no bolso moedas negras e escuras para amanhã imprimir mais dez mas apercebe-se que o bolso está roto, atravessa a porta com a cara de quem suplica ser abatido, a mulher e a filha olham-no com a esperança a irradiar de todos os poros, olham-no nos olhos com as retinas piscando de esperança latente, mas somente encontram um cão à chuva em eterna demanda por um dono, ele sem nada para lhes dar, nem um pão, nem uma canja, nem uma caixa de cereais abandonada numa esquina, nada que pudesse oferecer, a barriga levanta-se em protesto e emite sons irónicos,
agora na Ribeira rebeldes de espírito entretêm-se com concursos de cuspe naquela de tentar que o tempo passe, outros menos indolentes afiam catanas para assaltos a bombas de gasolina para porém comida na mesa para o pai senil e mãe encamada, raiva transborda para o rio que fica tingido de vermelho de intenções obscuras, filósofos e ricos de espírito amaldiçoam a sua sorte no topo dos braços frios do metal de D. Luís I, resmungam acerca da sua amaldiçoada sorte encostados às suas unhas, o metro passa sem se interessar pelo que pensam ou dizem, elas olham enquanto pregam pedaços de prosas eruditas criadas através de estudos conceituados e pesquisas laboriosas mas ninguém quer saber da teoria das cordas e dos buracos negros, isso é ficção, achas que alguma empresa munida de financiamentos extraordinários vai publicar coisas tão profundas e revolucionárias?, mesmo?, pensavas que sim?, devias ter pegado na carpete mitológica de Tolkien, mudavas as personagens, inventavas um ou outro novo nome, criavas umas belas e imponentes cidades através da mui bela arte do decalque e depois crias uma estória em que “a” mais “b” dá coisa e tal, não te esqueças que tem que acabar bem, e bang és adorado, ouvido, escutado, dão-te um fatinho, Tolkien chora lágrimas de enfado imaginário, é plágio mal disfarçado de merda literária mas atiro-o para o consumidor e eles amar-te-ão por isso, desde que não penses, ou escrevas sobre teorias maradas nutridas com longas e trabalhosas pesquisas, tudo bem untado com uma imaginação prodigiosa estarás bem, estes homens e mulheres que imaginam, que se aventuram a partir sem corda de segurança para terras de sonhos, que se deixam embalar pelo doce abraço do seu imaginário, ser engolido por ele, engoli-lo, arriscam a cada hora embates mirabolantes com a transcendência, mas esquivam-se, ou tentam esquivar-se, quando falham estão um passo mais perto de nunca regressar, ou regressarem loucos a falar sem sentido para todos excepto eles próprios e outros semelhantes, homens e mulheres descobridores imbuídos por cheiros de drogas maradas e absintos pesados que em noites isoladas embalados pelo tremelicar de velas usadas em rituais pagãos olham para o mundo que os cerca para o ver num ângulo nunca antes entendido, nunca antes conceptualizado, estes são espezinhados sem cesso, ignorados, atirados para o lixo sem dó por homens com a revista Maria debaixo do braço, homens que nem têm o cuidado de separar o papel do material orgânico, como um todo enfiam filósofos e filósofas em baldes sujos e esquecem-nos, no alto dos braços frios de metal de D. Luís I eles desesperam em desamparo social, são génios, são mentes cujo mero olhar de relance nos pode tragar a sanidade, são seres que formam a vanguarda da evolução, mas agora que falam, pregam, bradam suas ideias aos ventos colhem em detrimentos de louvores e amor olhares de soslaio como loucos vazios de erudição, falam com palavras compridas, polissilábicas?, complexas, consuetudinário?, não unem as ideias com mas, ou porquês, atravessam séculos de história transversalmente, ninguém os entende, têm que ser loucos, vazios, desamparados, bandidos, ladrões, sai daqui filha que aquele daqui a pouco saca da gaita, barbas fartas, dentes amarelos do tabaco, gengivas sangrentas, escorbuto latente, são merda bípede, são meros tolos vazios e sem mente, autómatos sem ideias decentes, teoria das cordas?, a sério?, isso não vende meu caro (louco), acorda, pesquisa sobre os buracos das toupeiras nos jardins de viúvas com mais de quarenta de anos, espera, desculpa, lamento, isso já é muito vanguardista, já sei, escreve sobre o movimento pendular de um relógio suíço, isso é material seguro,
putos novos limpam as unhas sujas de terra com navalhas enormes e afiadas enquanto pensam em quantas gargantas terão que cortar para garantirem o salário mínimo deste mês, homens do mar sem barcos para pescar penteiam suas longas cabeleiras em rabos de cavalo que chegam aos pés, oleiam seus cabelos com brilhantina comprada à quatro décadas e guardada em arrecadações secretas, velhas desdentadas caminham em precário equilíbrio a roçar o rio que corre indecentemente desligado da raiva que desagua nele, pregam peixes velhos e cadavéricos, de olhos escuros e escamas podres, trocam castanhas putrefactas mal assadas e castanhas cozidas em águas de esgotos por favores de teores apartados da moralidade vigente, e outros: dezenas aqui, centenas ali, milhares do outro lado, juntam-se em comum nada fazer a não ser aproveitar o sol,
entretanto estranhos engenhos são construídas com fundos comunitários, milhares de milhões de moedas de puro ouro pagas a instituições fantasmas que nunca ninguém viu, ou ouviu falar, moedas oferecidas com sorrisos rasgados sem papel em retorno para que estranhos objectos mecanizados fossem construídos, com propulsores alimentados a energias fósseis, milhares de galões ao minutos queimados, ao mesmo tempo o porco caquéctico, com as costelas marcadas na pele e as patas coxas assa na brasa, o monstro de metal eleva-se no horizonte, primeiro uma mera mancha do tamanho de um polegar, ao aproximar-se transforma-se numa enorme montanha pentagonal opressiva de relevos duros e vértices abruptos, estranhos pegões caem no solo provenientes do seu massivo corpo, o sol esvai-se coberto pelo metal sujo e escuro, os pegões aterram com um baque de terra a ser penetrada, um ou outro ai de dor surge do anonimato da multidão, captado enquanto os motores fósseis eram desligados, mulheres que distraídas pintavam as unhas com vernizes feitos a partir do sangue de gaivota e merda fervida são cortadas em dois pelos frios pegões, no meio da imensa área coberta um estranho monitor desce do seio da tenebrosa máquina, insert coin lê-se, chamam tradutores, os eruditos ficam confusos, colocar moeda?, eles anuem, para quê?, capta-se o consenso tácito no meio da escuridão: para teres luz do sol, colocas uma moeda para que a máquina abra as janelas e o sol entre, ou achas meu caro estúpido que podias estar aqui ao sol a fazer balões com preservativos usados, ninguém te quer, e podias gozar o sol como se fosse uma oferta deste nosso mui amado, activo e cuidadoso estado social?, achas que a luz do sol é barata meu gnu?,
eu corto o ás de espadas alimentado com a bisca e um rei seco com o duque de copas, enquanto pessoas normais e corriqueiras se tornam iguais a filósofos conquistadores de novos campos e conceitos que um dia darão à luz novos parâmetros formais da ciência, homens do lixo e prostitutas, putas e mulheres que distribuem publicidade, electricistas e antigos membros do GOE todos se tornam iguais na miséria do choro, na miséria da vida quando nem a luz do sol nos pode banhar pois se tornou  como a água da torneira, do rio, da praia: vitima da tributação por ele o omnisciente estado social que cuida de nós,
            - um para vós, temos quarenta e nove, - resmungo, Onhas ergue o olhar, o corpo dele comido pela sombra,
            - vamos arranjar fuzis?, ou quê?,
            - siga,
            - eu tenho sede,
            - siga então.




NR,
n.a., os meus parabéns por chegarem ao fim^^

*Não segue o acordo ortográfico

1 comentário:

Anónimo disse...

Nelson,

Eu cheguei ao fim e gostei bastante! Acho que cruzas brilhantemente a sociedade de um portugal passado e presente, com todos os problemas do actual estado social, onde a fantasia e a realidade se cruzam e intersectam com o dia-a-dia de uma cidade...
Apresentas parágrafos densos e que mostram plenamente o esforço do autor no prolongamento das descrições. Tens um estilo de pontuação inovador, contudo posso afirmar que a tua escrita tem muitas nuances da escrita do António Lobo Antunes.
Estou certa ou estou errada? ;o)
Espero que não desistas, porque acho que és mesmo bom naquilo que escreves. :)

Um beijinho :)