terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O desdém da sanidade



             O que me rodeia pára no tempo como uma ampulheta sem grãos que a alimentem, (entendem?), como um bullet time muito, tão Max Payneiano (alguém entende a referência?), enquanto um mundo se desvanece entre corrupios concretos de sanidade em bruto, que lhe (que me) são enfiados (enfio?), pela goela abaixo,
             a ilusão cai por terra, a mentira (seria a verdade?,) cai por terra, alicerces fracos é o prognóstico de vários médicos eruditos na arte de fungar em desdém, alicerces construídos por lamas secas, mal secas ainda: segregam líquidos negros que caem dos vértices que os unem,
                (aplausos de uma audiência sem tecto: homens, mulheres,
                - hei!, - arrebita um lince de pelo branco enrolado no colo de uma matriarca desdentada, agora que observo em detrimento de ver: uma fila de dentes brancos (branco baço, branco gasto) pelo tabaco rasca (tabaco mascado), pelo café (café em grão), de bombordo para estibordo cada vez mais brancos, ou cada vez mais dentes),
                nestes dias cinza em que tudo parece andar tão devagar, chuva que cai com a ocasional interrupção para me permitir andar de uma porta para outra, tão lentos que são, tão obtusos que são, passos toscos em câmara lenta de alta definição,
                (o lince salta em perseguição de um novelo de lã caído,
                - mau, larga isso parvo, - lança uma sirigaita cinquentona, de rabo abanicado firmemente taxado a uma cadeira XL nórdica, toda atarantada, toda ela tiques e retiques dos tiques que já passaram, de rosáceas rosa na cara, indignada, inchada de indignação (imagine-se?), indignada pelo fanfarrão do lince que brinca com luxúria felina com o novela de lá: o atira ao ar, o apanha de novo, morde, ronrona para ele enquanto roça o queixo nos seus fios, e espeta suas garras para ver se ainda vive,)
                mas continuo com a pergunta (enquanto ignoro aquilo que me dizem, ou aquilo que ocorre numa (nesta minha) audiência digna de circo (deste circo?), agora sadio também faço perguntas,
                - que circo?, - não, a verdadeira dúvida seria (é), - será isto sanidade?, ou um mero disfarce da minha mui sui generis loucura?,  serei agora sadio?,
                (- antes eras louco meu danado, - diz-me o lince com um piscar de olho que não engana,)
                - era?,
                (a plateia ri-se de maldizer, olham tresloucados para mim, olhares deles para mim, enquanto murmúrios trazidos pela brisa do ar que não existe me confirmam a impressão leve, tanto maldizer, tanto escárnio com um único destino: eu,
                - seu danado,
                - seu cão,
                - no chão andam os cães – olha-me este de bigode eriçado,)
                tudo tão lento, parece originalmente diferente, do contra para meter nojo, és A então sou X, sou Republicano até ganhar depois sou Democrata, entretanto, lá fora o dia anda, tão lento mas condenado a terminar,
                ( - coitado – diz-me uma audiência em uníssono de macacos que saltam de árvore em árvore,
                - donde surgiram as cabras?,
                - cabras?,
                - das árvores,)
                as nuvens que nunca param, e o sol que se mexe inexorável (ai que orgulho sentem minhas fiandeiras atarracadas de óculo caído (esquecido?) na ponta do nariz, como o Zeca (o irmão do Antunes), na sueca da tasca, ao domingo, enquanto vira minis e traçadinhos ao bater de punho cerrado na mesa aos berros roucos, de cara inchada,
                - renuncia, renuncia,)
                sadio vejo coisas que antes nunca vira, compreendo coisas que antes nunca compreendera, entendo que tenho que balir em concordância com os demais, tenho que anuir e contentar-me com um pastor qualquer, um qualquer, qualquer um, todos menos Caeiro, digo sim (mesmo que pense não), pois agora o juízo domina-me, e filósofos gritam-me que sim, atiram-me tratados e convenções, e dizem-me,
             - diz sim, e nunca não, - e eu sigo-os de passo incerto, perturbado por grilhetas de ferro em ferrugem, que se enterram na minha carne tenra a cada arrasto em amostra de passo de gente grande, mijo-me sem pudores, o líquido escorre por minhas coxas mal cobertas e molha-me os pés esburacando sem receios terras secas e áridas de um agora tão cheio de sanidade que transborda, sigo-os e não faço perguntas, não os questiono, sigo-os a todos, sem medos, sem perguntas, qualquer um, sigo qualquer um, sigo todos convicto todavia que nenhum deles, certo que nenhum deles é Reis,
              (a plateia agora dança e anui convicta, mais certa da minha sanidade: abre-se como uma flor de lótus macabra, desenhada a lápis de cera por uma criança de dois anos,)
           - olha abriu-se – diz-me o demónio do lince aos meus pés, saído de um ali que não existe (agora não vejo coisas, não escuto vozes, não penso no que não existe, como um qualquer fundamentalista religioso recuso a sua existência com uma virilidade somente comprometida pelo odor a mijo que emerge de mim como de um condenado de ábaco debaixo do braço prestes a morrer na arena,
            (ainda se abria a plateia, davam espaço no centro para que um homem (ou assim me parecia) saísse do buraco onde estivera (aqui não era com toda a certeza), encara-me e brada-me,
            -imaginas?, - um homem alto, de mãos grossas e de dedos ainda mais largos, de unhas sujas, com bostas sujas presas entre elas, esquecidas, endurecidas pelo tempo, o meu silêncio atormentou-o por um mero segundo (daqueles lentos) para se reerguer retemperado e com uma nova pujança, - imaginas?,)
                lá fora ainda não é noite, mas já não é dia, as nuvens já não são cinzentas, são tão escuras, não escuras de borrasca, somente escuras de serem escuras, escuras da falta de luz que não existe pois o sol ora partiu, ora se escondeu, ali na rua carros de cores garridas passam a grande velocidade, um de cada vez, um por cada cigarro que fumo, tão velozes (ou tão lentos?,) sadio as coisas andam tão devagar, enquanto a dúvida se ergue, também questões se alevantam, átomos se animam ao fantasiarem sobre big bangs de outrora, e eu,
                ( - imaginas?,)
                interrompem-me,
          - responde-lhe, - diz-me o lince fora da audiência, na realidade, lanço-lhe um olhar de incógnita, ele pisca-me o olho direito, ronrona e roça em minha perna seu corpo: da ponta da cabeça à ponta da cauda, - responde-lhe, - insiste,
                ( - imaginas?,)
                agora entendo: sem Caeiro, sem Reis, sem Vós doce transcendência, sem Vós puta de transcendência (desamparado de vós), das ilusões (das ilusões?,) entendo que quem me vê do outro lado da tela quer que eu diga, todos desde da velha, à sirigaita, até ao homem, todos querem a mesma conclusão,
                ( - imaginas?, - pergunta uma última vez, um berro possante saído das profundezas da alma corroída, - imaginas?,)
                eu agora tenho sanidade enfiada por mim pela garganta abaixo de funil,
                - eu imaginar?, nunca, eu sou são, eu sou sadio,
                (e uma centena de mãos irrompem em aplausos e desvanecem em pó um a um,)
                enquanto eu sou deixado só a olhar lá para fora sem imaginar o porquê do dia ser cinzento.


NR
*Sem acordo

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