segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A um ritmo cognitivo endiabrado



            Não devia pensar no lá fora, mas atrevo-me já que cá dentro estou tão aborrecido, extremamente aborrecido, mesmo aquele ar de erudito de quem gosta de cinema francês não me salva da conclusão inócua: lá fora é que se está bem, e meus caros atrevo-me já a oferecer-vos o meu lamento antecipado, mais nada vos posso dar, mas acompanhar o turbilhão cognitivo que com prazer cuspo na direcção desta folha não me parece fácil, prático e até mesmo higiénico, têm mofo, o quê?, já não entendem?, as palavras têm mofo, certo?, e tu?, entendeste à primeira?, para ti e só pra ti o meu mais puro e sem segundas intenções aplauso, de perninha cruzada naquilo garboso jeito com o pé a baloiçar como quem imagina o vento, onde?, lá fora, e mesmo aquele esgar momentâneo prontamente escondido que os tempos são outros da vizinha, um esgar que por mais pequeno e ínfimo não deixa dúvida  na intenção do pensamento que em roldanas mal oleadas, em máquinas antigas e enferrujadas, de peças tão velhas que os vértices são rombos e com camadas que nunca terminam de óleos de diferentes espessuras e marcas, pensou, atrevo-me a dizer, pensou a cabra: é homossexual, imediatamente escondido entre as montanhas de rugas que nasciam por todo o lado, ai de mim se tentasse seguir uma, dia perdido, atirado fora, mesmo cá dentro, enquanto olho lá para fora não queria deitar o nada que me é oferecido cá dentro por uma demanda sem fim lá fora, entre rugas primas dos Himalaias de uma senhora que de peito vasto e também ele antiquado apoiado no parapeito, enquanto as costas cochicham entre elas o tão bom é viver sem aquele preso ignóbil a arquejá-las, dobrá-las e corroê-las, mas atrevo-me, voltando agora à realidade contínua, admira-me a facilidade com que arribo no real agora, embora predestino a uma imaginação cada vez mais efémera, uma inspiração cada vez mais insípida que no fim inexoravelmente, não resisto, pois não?, a quê?, és novo por aqui não?, a usar o inexorável de alguma forma, sem ele natal não teria estrela, compreendes?, mas onde ia?, na inspiração, dizia que no fim inexoravelmente minha imaginação será tão rica como um ensopado de coelho com gato, não será isso ser imaginativo?, deixa-te de coisas que percebeste o que quis dizer, não é?, anui, isso, mui bem, progrido enquanto ventos rápidos e cortantes embatem no telhado e como um xilofone desdentado ele canta para mim músicas sem nome e murmura versos sem métrica, mas aqui continuo a dizer, mesmo quando a neve se acumula entre as borrachas da janela, mesmo quando as dobradiças mudam do branco para a cor de ferrugem diante dos meus olhos, mesmo quando a lareira me arrebita a cor roxa dos dedos e dá-lhes um tom escarlate, atrevo-me ainda assim enquanto conto as manchas da humidade no tecto a dizer, dizer-vos, dizer-te que lá fora é que ia estar bem, que lá fora é que coisas acontecem ao ritmo de um bom porno, que lá fora saltaria para aterrar no meio de galinhas que cantam ópera e cães, salve-se o cliché, que jogam às cartas.

*Sem acordo.

*Cumprimentos,
NR

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