terça-feira, 6 de novembro de 2012

Só hoje

  As mesmas sinceras desculpas por tamanha presunção, por tamanho desfaso da norma social, mas hoje não me encontro de joelhos diante de vós ò mania do consuetudinário de estar sóbrio, em perfeito controlo das minhas emoções, de sair de casa às sete da manha com o frio de amarelar os dentes, hoje não quero saber do fato feito por medida que me aguarda, daquele sorriso que desenho toscamente nos meus lábios enquanto digo,
  - bom dia caro doutor, como está?, a família está boa?, ainda bem meu caro, logo vamos assistir a um jogo de golfe enquanto degustamos um vinho de rara casta e ouvimos Beethoven?, - para o caralho com a mania de ter que andar com ananás enfiado no dito, de enterrar na sarjeta a criatividade, de ter que esconder todas as ideias que se afloram nesta pele morena dia após dia,
  - meu caro doutor não acha que essa barba não está muito grande?, meu caro esse cabelo precisa de ser escovado, essa camisa está mal engomada trate disso pode ser?, esse tabaco de enrola não tem o status quo necessário comece a comprar este que é enrolado à mão por mulheres pretas, mulheres que são fodidas à vez por capatazes com a bandeira da União tatuada nos genitais, em terras sem nome, de unhas negras como a noite, por mulheres de seios ao léu, lá naquelas terras onde tabaco é melhor, compre este para a próxima ou então podemos necessitar de cancelar a sua assinatura neste nosso mui pródigo clube da mão fria, - o meu sorriso toscamente desenhado com lápis de cera importados, dança rudemente, ameaça desfalecer e revelar mil vagas de raiva dignas da Indonésia, de cansaço, só me apetece despir o fato e mandar tudo e todos para o caralho, 
   
   (as minhas sinceras desculpas pelo caudal insensível que aflora a este meu corpo, tento como tantas centenas vezes contê-lo, colocar uma rolha, de onde saem as palavras, da mente que cria esta raiva, tento fechar os olhos e recontar os números que já sei, iguais à ultima vez, mil e um, mil e dois, mil e três, mil quatro, que se foda, grito, como macaco ergo-me digno e orgulhoso do que sou quando sou e como sou, lanço palavras vis ao dia em que cedi à necessidade de estar aqui a fazer o que me disseram que era bom a fazer, e os cabrões orgulhosos das suas ideias me disseram com confiança mentirosa nas suas expressões de quem suposto me ama,
  - e vais ser feliz a fazê-lo, - meus amores também vos digo,
  - para o caralho convosco,)

  hoje encontro-me tão longe, o filtro natural que me faz pensar antes de dizer, antes de escrever, aquele filtro que homens vestidos de preto colocam na mente depois de fazeres oito anos, que te faz pensar mas não dizer, que a cada curva prende tua língua bífida atrás dos dentes, hoje removi-o, o juízo de tê-lo foi substituído pela necessidade da loucura que dia após dia bate na minha costa, bate e arrebita latente, preciso dela presente, porque hoje não quero saber do lugar montado para mim nesta megera de sociedade, não quero saber do caudal de merda que desagua em mim pelo que profiro, por isso te digo de peito eriçado, de peito inchado, grito aos ventos de forma mais alta que consigo,
  - vai-te foder sociedade, 

  não me interessa o que tenho, o dinheiro que todo o mês tilinta na minha conta podes ficar com ele, a casa que coloquei sobre a minha cabeça podes derrubá-la, o carro que dança por estrada entre riscos contínuos penhora-o minha puta, porque eu, porque eu, porque eu, nada mais tenho a conter, corrijo-me, nada mais posso conter, corrijo-me, nada mais quero conter, cansei-me, só hoje, cansei de ser mais um carneiro neste mundo em que os pastores dançam entre mulheres que se despem, cansei-me de ser um mero número, desisto de desenhar falsas expressões, de dizer olá quando penso morre, de dizer ainda bem que a gripe já lhe passou, quando tudo o que sonho é ver-te palerma a dançar sem a cabeça como as galinha na casa da minha avó naqueles dias em que nada me filtravam, à tantos anos,

   suplico o vosso perdão, de olhos marejados de lágrimas salgadas que sabem a mar morto, lamento que vossa visão avance por esta cavalgada, mas vossa ofensa podem pegar nela e colocá-la onde bem sabem, a vossa ofensa, tão digna, vocês montados em cavalos de belo porte, no alto de de montanhas naturais, alimentados de tetas nascidas do chão como couves, onde me julgam, e resmungam, não quero saber, não me importo, a vós vos digo,
  - nada mais interessa se serei mais um, nada mais quero saber se isto é o que é, estou aqui o quê?, umas miseras oito décadas, seis quiçá capaz de pensar claramente, e não posso fumar porque mata?, idiotas, não comes carne porque mata?, idiota, não fodes porque mata?, palerma, nada mais tenho a dizer, deixem-me fumar, alimentar minha cirrose e fornicar como um coelho com a doença das vacas loucas pela simples razão que o tempo que estou aqui é tão pouco porque não ter um pouco de diversão, quando no fim, se fizeres a aritmética a factura equivale a uma ou duas décadas que irias passar com a próstata inchada, a fazer diálise, e a ver o Goucha a insinuar que é homossexual
  - já sabemos, sempre soubemos,

  perguntam-se vocês, enquanto se questionam pela minha sanidade física e mental,
  - qual é o teu ponto?,
  - não existe cambada de bacocos, todos os dias me ergo para fazer aquilo que é suposto fazer, enquanto o que eu quero é o oposto, alimento-me do que o capitalismo me proporciona, tudo o que quero em troca de anos e décadas é uma semana livre de vós megera de sociedade, livre de vós preconceitos, livre de vós moralidade vigente que me capas o tesão, me agarres pelos testículos e me fazes ganir, tudo o que eu quero é dizer boa noite, quando o sol nasce, e santinho quando te devia dizer olá, tudo o que eu quero tirar a máscara e entregar-me ao caudal que corre sob esta minha pele, sem interrupções, ideias, palavras que se desenham, hieróglifos que parem da cópula apaixonada entre meus neurónios, tudo o que eu quero é um pedaço de papel e uma caneta, tudo o que eu quero é a minha solidão, tudo o que eu quero é uma queca para descarregar frustrações, tudo o que eu quero é o que tu puta de sociedade não me deixas ter porque para te fazer feliz tenho vestir a capa e dizer, bom dia doutor,

  se o mundo não muda, e eu não mudo este braço de ferro termina inexoravelmente comigo enfiado numa cave a dançar sem vida de corda no pescoço enquanto insectos se alimentam do que antes fora meu invólucro, mas onde quer que me sente e olhe te digo também sem tacto,
   - vai para o caralho!


*Sem acordo


1 comentário:

Eli disse...

Lê-se de uma enfiada que é para sentir algo nas entranhas posteriores em vez de fingir que nada existe.

Nota-se a inspiração bravia - ainda mais do que a minha, atrever-me-ia a dizer.

Cumprimentos.

P.S. Atribuí-lhe a simbologia de um prémio, lá no blogue... :)