quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Impossibilidade

  A Alice e o Tim Burton fumam paivas cumpridos, mal enroladas, com tarolinhos fofos mal queimados, 
  - parecem cheerios, - alguém atira da plateia, uma mulher loira com demasiada maquilhagem, sim, sim, daquelas que parece um quadro perfeito quando te deitas e quando acordas parece um rascunho de Van Gogh,
  - e a orelha dele?, - coerência, vá, vamos manter este comboio nos trilhos, vamos manter a coerência dos assuntos, não podemos começar agora a deambular por questões tão desmotivantes como a abertura ao ocidente da Cuba comunista; onde ia?,
  - a Alice e o Tim, - pff, já sei, 
  a Alice e o Tim Burton jogam a bisca lambida numa cidade lá no oeste, daquelas onde podemos ter o luxo de dar um bom banho à Texas,
  - desculpa?, - plateia cheia de questões, isto só a mim, vocês não sabem nada, será a ignorância tudo o que vocês trazem nessa bagagem de vida, José Mário Branco quando deambulava pelo FMI e por um zás um Manuel Alegre no Mário Soares não tinha aturar estes redundâncias cíclicas aparentemente infinitas,  - o que é um banho à Texas?, - questiona com tacto uma menina, uma mulher, morena, com salto alto que não consigo ver, mas decido imaginar: camurça vermelha, reviro os olhos impaciente, mas aqui em cima sinto-me machão, sinto-me cavalo, e sinto-o a roçar o velcro enquanto se desenvolve naquilo que os bichos do zoo usam para comer amendoins, um pendente sem fio que se segura pelo equilíbrio precário que encontra um declive entre aquilo que me prenda a vista,
  - aí que cão, - sussurra o assistente da linha lateral, não consegue ver nada, cataratas que crescem, dentes amarelos que ressoam na noite como o colete do gajo da brisa que limpa as beiras nas scuts, rói-te de inveja Chico, eu consigo ver a miúda com decote, morena, que segura um pendente como o gajo do circo faz malabarismos,  - cala-te meu palerma e regressa à tónica desta nossa sui generis metafísica, 
  - minha cara um banho à Texas pode ser definido como um acto que se executa com os primeiros tons de laranja que um qualquer sol envia para esse fatalista Estado, vamos dizer para bem da constatação da equação que ter ergues às seis da manha, nua como ovelha tosquiada, abres a porta da tua quinta e procuras um declive suave, cheio de erva, relva, coisas verdes e lanças-te a rolar como um barril, assim como um professor de matemática que outrora me abria os horizontes para a vida, enquanto rebolas sem contenção, sem âncora que te salvaguarde, teus seios a embaterem um no outro e ainda assim o pendente não cede a sua posição pitoresca, ancas abanam-se, glúteos que saltam, pedaços de corpo moldados com pele morena movem-se por todo o lado, mas enquanto catastroficamente desces o declive o orvalho lavar-te-à, ficarás fresca como as tripas depois da matança, ficarás fresca como os putos no rancho do Michael Jackson, percebeste?,
  ela anui, abana o cabelo para cair na perfeição à volta da face oval, molha os lábios com a ponta da língua, puxa os ombros para trás, enquanto espevita os seios contidos dentro de um corpete de outrora, e senta-se de perna cruzada, arre posso continuar?,
   a sala resume-se a um silêncio de quem estava ali para ver o lirismo fraco de Tony Carreira interpretado de forma desapaixonada pelo mesmo, mas aquele cabelo faz milagres, infelizmente tem que se aguentar comigo, com este monólogo acerca da importância para sociedade e cultura actual de Alice, Tim Burton e Quentin Tarantino, 
   - não queres antes enterrar-te dentro de mim, não te escondas que se nota, - e não é que se nota mesmo, o raio da morena tinha razão.



*Sem acordo.





1 comentário:

Bartolomeu disse...

Apesar de tudo, o tal "banho à Texas" não deixa de ser sedutor, assim como a imagem lavrada da ovelha nua pelo declive relvado, ervado.
Taoismos à parte, enterre-se na morena!