quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Comprimido para dormir

  Prefiro não estar aqui a está-lo para ser mais um mero número, mais uma fórmula na equação, numa rotina desfigurada de grados, onde somente me posso agarrar aqueles brados que solto durante as noites que agora sim são do meu gosto: frias, longas, chorosas, negras sem facho que as alimente de luz, brados que solto de cigarro enfiado na esquina da boca, brados que solto de cigarro enfiado entre minhas toscas mãos, dedos amarelos deste meu cigarro, unhas baças deste tabaco que arde e me alimenta a alma à medida que me destrói o corpo, este meu invólucro escravo de um sexo que entesa pela manhã, pelo dia, pela noite, especialmente durante estas noites frias mesmo ao meu gosto em que tu minha mulher, minha morena de cabelos encaracolados dormes só, nessa cama mesmo ao meu lado, mesmo aqui enquanto emito círculos de  fumo para o ar e desenho barcos, vagas, e aviões, ouço o teu dormir, o teu peito que sobe e desce a um ritmo certo, como se um maestro te desse com a batuta, agora inspira, agora expira, agora inspira, agora expira, umas vezes olho-te frontalmente e teus seios sobem em perfeita harmonia como quando olhamos as ondas que chegam naquela nossa praia, outras espreito-te pela esquina do meu olhar e mesmo assim ele entesa, meus testículos encrespam-se e em nada mais penso do que te acordar com meus dentes a trincarem teu ombro, com minhas unhas amarelas e roçarem tuas costas, com minhas mão a agarrarem, a puxarem, com minha boca a sugar-te, onde tu quiseres, e avanço para uma morena que dorme em minha cama em busca de também eu soltar-me das amarras da insónia e dormir comigo perfeitamente encaixado dentro de ti, 
  - não - que dizes mulher?, não?, - ainda não - então quando?, permite-me antes que eles de tão encrespados expludam como um armagedão precoce, porque me empurras?, - prova-me antes - agora entendo-te minha leoa, agora já sei, porque não te explicas melhor, tua bacia eleva-se ao mesmo tempo que em carnes tenras passeio minha língua, sem muito tempo passar sou eu que digo não,
   - não - não me olhes assim, tira essa cara que insinua que se não me enterrar no teu sexo me vais capar com a faca de trinchar o frango, não me olhes assim que não adianta, eu quero dormir, eu acordei-te porque quero dormir, quero deixar de amar esta noite, quero deixar de cantar serenatas a esta noite, sento-me naquele sofá no escuro, a fazer cigarro atrás cigarro, a tragar uísque daquele com a galinha na capa, hora após hora, enquanto tu nua dormes a um ritmo tão certo, tão perfeito, tão fácil, tão semelhante ao relógio em forma de pato que te acompanha em dueto na cabeceira, também eu quero dormir e para o ter, a ele, ao sono, tenho que ir para dentro de ti, perfurar-te carnes tenras, colar nossos peitos, morder-te no ombro, primeiro devagar, enquanto suspiras cada vez mais, cada vez mais alto, mordo com mais força, mordo até furar pele,
  no fim da noite adormeço, mesmo naquele momento em que o cabrão do sol chega para uma vez acabar minha noite, mas que interessa?, adormeci, vazio adormeci, tu cheia adormeceste e dormimos, nem que seja por dez minutos dormimos, abraçados como deve ser minha morena.


*Sem acordo
JD

2 comentários:

Daniela disse...

é incrível como não me consigo cansar ao ler estes textos, estas palavras. o dom para a escrita vagueia por aqui claramente, é um facto. **

James Dillon disse...

Tira o casaco, escolhe uma cadeira, calça as pantufas, faz desta tua casa também,

um obrigado pela visita e pelo elogio,

cumprimentos,
JD