terça-feira, 9 de outubro de 2012

Capítulo I. Dia 1 de um amanhã



  Tu és minha boa pastora,

  És uma estrela que me guia,

  És o norte na minha bússola,

  - Odeio-te,

  Como posso ser um perdido?,

  Um abandonado?,

  Quando tu me guias e proteges?.




Quantas vezes não me disseram que isto era um diário, quantas e quantas, indeferidas, redundantes, vazias vezes mo disseram, sem dó nem piedade que isto era um romance, quantas verdades poderiam ser recontadas entre alusões a uma qualquer metafísica, mas sem dó estes homens e mulheres que rastejam num chão imundo me encontram de cântico na garganta,
- é diário?,
- não, – redundante, suplicante, destituído de qualquer formato real, nunca saberei o que é até ao dia em que perecer, nunca ninguém o saberá até ao dia predestinado: aquele em que navego no Lete, antes desse exacto minuto ninguém saberá, nem mesmo eu, o que isto, na falta de melhor vocábulo, é, no entanto sem querer ser mais um daqueles que só concluem inocuidades: é tudo menos um diário,
- é romance?,
- não, – não se calam, insípidos observadores cegos, – não é romance, – destituído de grande parte da minha força de espírito já nem sei o que digo, ergo o maxilar e olho-os, olho-vos, como um homem, despido de alma, não perdida, mas afogada numa avalanche de enfado cognitivo,
do nada pergunta um mundo em uníssono,
- isso é o quê?, – arre, raivas mal contidas brotam de poros aleatórios, que habitam nesta minha pele cheia de pós nas pregas que teimosas pendem, quando uma pergunta tem uma resposta óbvia, a resposta surge mesmo com pólvora molhada, sem cesso, sem olhar para trás, aqui e agora meus caros, a solução ao enigma é: uma incógnita virtuosa, porque em verdade vos digo que sem deixar de ser algo totalmente inócuo, atrevo-me na loucura que me inunda, parida desta raiva que não contenho, a insinuar que este isto é algo muito maior que meu mero diário, ou meu mero romance,
olho para os molhos de folhas na minha frente, em minha secretária, que não é mais que um monte de terra molhada toscamente moldada por minhas rudes mãos tão pouco calejadas, neste vislumbre de realidade pálidas como se censuradas, sem povo para tal penúrias, habituadas às dores de mimos, pouco habituadas ao trabalho de escriba, galguei meio mundo numa demanda egoísta, através de desertos, senti durante o caminhar uma necessidade inerente a qualquer ovelha tresmalhada, a qualquer mamífero sem tecto: dar uma de pensamentos, reunir imagens e sons e coloca-los toscamente em algo que se assemelhe a um manuscrito,
não sou escritor,
se o fosse qualquer tosco com uma caneca ou um pedaço de carvão se denominaria Camões, escrevo como falo, como digo, como conto, sou o que sou, e assim me tornei o que sou nem que o seja somente na retórica que prego ao mundo, amigos, conhecidos, a verdade é que sou um jogral, um contador de estórias, um prodígio de palavras, pobre em vocabulário, mas rico como Judas em ideias, quem me conheceu e está a passar os olhos por este musgo linguístico sorrirá ironicamente, nos seus sofás, esticados como gatos capados, em poltronas de pele, a fazerem aquele som que roça o peido e que assusta a fauna, perto das suas lareiras, de pantufas e robes enfiados, a expelir fumo para o ar, com uma estante de livros atrás, livros que nunca lerá mas sempre terá, tudo isso aliado a um ar de erudição passiva, aquele ar de quem sabe mais do que todos os outros, eles irão rir porque superficialmente me conhecem e com um ar pomposo atiram uma bola de espesso fumo para o ar e entre dentes,
 – inventas cada uma,
assim sendo meus caros, na religiosidade própria de um cão condenado de nada me adianta acreditar em Vós, nada espero da Vossa magnânima presença, nada me será oferecido, mesmo assim não Vos questiono divindade, Ignoro-vos, ferozmente e sem eloquências prodigiosas ignoro-A, desfaso-me de meandros horripilantes e atiro-A para a sarjeta, não penso em Si como um gato chamado Jack não pensa de onde provêm a sua comida, não quero saber, não me interessa, pois eu vivo para perecer, embora não seja homem suficiente para enfiar um balázio na têmpora e acabar com o suplício, ou quiçá seja um pouco mais do que me desenho, pois desistir seria fácil, demasiado fácil na sua dificuldade intrínseca, deveras simples terminar empapado em sangue e meus próprios dejectos, numa cave esquecida, servindo de banquete para ratos e outros que tal, não sou, no entanto, desligado de tudo o que me rodeia, dou comigo sumptuosamente conectado aos pequenos caprichos que equaciono enquanto procuro um sentido, irritante Transcendência esta que me guia, mas que eu ignoro com veemência, sou a chacota das fiandeiras do destino, manco em corrida, fugo da brasa que me queima sem nada adiantar porque onde pisarei amanhã chamas brotam do chão hoje,
desde que emancipei de Vós doce Transcendência embarquei em caminhos que abandonei ao primeiro sinal de emboscada por parte do destino: tentei entoar cantos revolucionários, desmistificar suposições Tolkianas, encantar palavras imbuídas na mesma fonte do arcanismo macabro inerente a  mundos de fantasia, de nada me adiantou, no entanto, trilhar os caminhos outrora abertos por mentes muito mais vastas, ricas e cultas que a minha, de nada me adianta agora, embora sonhe com virtuosismos sou um poço de nefasto, entoei sonhos em menino: cargas prodigiosas de cavalaria apontadas a escudos de infantaria, o sonho de vencer o impossível, muita coisa me foi dita, muitas querelas assombraram meu espírito enquanto divagava na crista de sonhos perdidos mas nada escutei,
– quem és tu?, – perguntam-me com símbolos homens e mulheres através de um espelho baço, no entanto o que se deve questionar e eu faço-o a mim próprio, sem dúvida a derradeira pergunta que me aterroriza nos meus mais macabros sonhos é simplesmente,
 – para onde vou?, – será que sou assim tão diferente dos carneirinhos que possuem este mundo, presumi, ainda presumo que sim, vivo agora, como sempre o fiz: com desejo de respirar noutra época, fecho os olhos por um momento, levo assim a minha mente a trespassar o cheiro a sarjeta no ar que cobre esta já hedionda metafísica, dou por mim muito longe: entre lutas de falanges, onde honra e glória eram a faísca do viver, encontro paisagens que transcendem muito a realidade onde a sarjeta impregna o ar, muitos dizem-me, talvez devesse acatar e simplesmente dizer que sim,
 – nasceste fora de época, – ou então, – nasceste na realidade errada – aquiesço sem nada dizer, continuam, – o teu lugar era no meio de uma horda Viquingue,
 – será?, - fugiu-me, para meu espanto,
imagino, sinto a minha pele arrepiada só de surripiar o vislumbre imaginário que a minha mente cria, o som da tromba a ecoar pelo vale, o toque de carga, mas quem no seu perfeito juízo poderia sonhar estar no meio de tal barbárie?,de algo que pode ser definido como suicídio?,
aparentemente..., mas bem, afinal a vida é a merda que os deuses dispõem,
agora estou velho, com um pé na barca do Letes e outro ainda em terras mortais, quem me cerca, quem procura a minha sapiente, imagino eu, companhia diz-me, com um tom de quem pensa que me pode ordenar,
 – devias pensar em escrever as tuas memórias velhote, – tolos que só sabem martirizar o meu descanso, interrompem-me sempre quando estou a seduzir o velho barqueiro com uma garrafa de uísque, a arma de caça, ou alguma pólvora para a fogueira, tão cansado de ser inquietado, em desespero, dei comigo a acenar em concordância, sempre fiz o que o meu instinto me ditou: mandei à merda pareceres judiciais, sintaxes mórbidas de autoridade e opiniões de estranhos, considerei a moralidade a maior megera, a autoridade de um estado  maior anedota, a força do executivo um hino à fraqueza, ironicamente fui chamado mais vezes do que consigo relembrar de anarquista, mesmo agora, só consigo sorrir, pois nunca soube como definir a palavra anarquista, nunca soube o que sou, não vou começar agora na praia da senilidade,
Arre,
por estas e tantas outras razões incontáveis ou intransmitiveis pelos meus parcos atributos literários nunca tentei iniciar um manuscrito, sempre achei que iria começar a andar em círculos, iria enxovalhar tudo e perder-me no meio de predicados marados,
 – a tua experiencia de vida, – dizem aqueles que são família, – daria um bom livro, – eu sorrio e tento, de novo, embarcar no rio do esquecimento, agarram-me e dizem, – não, – aqui estou e fico para não partir, o tempo escoa muito lentamente e cedi, na velhice cedi, tento agora escrever o que não pode ser passado para papel: um sem número de sensações de um vasto leque de cores, não conseguirei, se, hipoteticamente, tal divague recheado de vicissitudes morais saísse para olhos incautos lerem, em verdade vos digo, além de morrer bacoco e espezinhado, morreria um herege prostituto, um macaco sem galho, um revolucionário sem revolução, um humanista homicida,
arre Vós ò Transcendência,
mas por mais que tente somente encontro incoerentes nefastas memorias, nada de concreto se aflora, tento sofregamente apaziguar as ondas oriundas desta pedra que atirei para o charco da minha mente, preciosismos ou não, como descrever cada acontecimento com a devida precisão?, não sou escritor e não penso em mim como um, sou um mero homem sem nenhum dote em especial, um homem que viveu cada ano da sua vida sob a égide: este é o ano em que tudo cambia (1),
cada história, enfim, deve pelo menos começar pelo princípio, mesmo que arranque pelo fim, o princípio surgira no meio para o meio ocupar a conclusão e a conclusão remeter-nos-à para o início que é o fim, fui claro?, assim sendo começarei pelo inicio, tentarei ser linear, não sou escritor como já referi, o inicio será o principio daquilo que me lembro e do que me recordo, a partir daquele momento que embora não seja o primeiro da minha existência, é talvez o primeiro que recordo e onde pensei e respirei por mim e não como um autómato,
espero sinceramente estar morto quando alguém ler esta camada de musgo e não me podia interessar menos a vossa opinião, simplesmente quero partir, ir para não mais voltar.



*1. Dealema

*Sem acordo

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