quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Falo como digo

  As esperanças alimentam-me, simultâneamente envenenam-me. O amor faz-me sorrir, ao mesmo tempo que rasga de mim pedaços imensos do que me definem como um eu único. Detesto o ponto final mas acabo a usá-lo, como detesto ser taxativo e final, mas o sou agora enquanto danço meus dados pelo teclado. Vamos (ponto). Corremos (ponto). Sentado (ponto). Tão mecânico como as engrenagens de um motor em que A mais B promove invariavelmente o movimento, tão óbvio como o efeito de lançar este camião que visualizo contra aquele monte de caliça que também tento ver, mas custa, torna-se demasiado original para este meu eu de sentenças curtas e finais.

  Escrever é um prazer, talvez o derradeiro, como o faço: instintivo, despreocupado com o correcto ou errado gramaticalmente é algo que me retira de um invólucro carnal escravo de emoções e desejos carnais, de um corpo que se mostra todos os dias desfasado daquilo que sou, quando o de mais simples e básico me faz a mente divagar por corpos de mulheres despidas em camas de cetins escarlates, mulheres de tez morena, de olhos avelã, de cabelos longos e selvagens, mulheres que declamam  Florbela Espanca debaixo de um tecto onde a lua nova, rainha do firmamento, grita palavras em Sindarin,
  - Elen síla lúmenn’ omentielvo, - diz ela,

   desejos irrelevantes na longa caminhada que promovo para mim mesmo, preocupo-me com a minha língua, tento salvaguardá-la de abusos e violações por conquistadores patéticos, mas a gramática é minha para violar, é minha para abusar, é minha para a usar como amante neste labirinto de sentidos cruzados, é minha irmã nas trocas que promovo entre o que digo e penso, 

  se escrevo bem ou mal é irrelevante, pois nestes lugares por onde deambulo acabam por me dar o que preciso para despejar minhas pequenas parábolas, meus pequenos mundos, para criar meus pequenos companheiros que falam em minha mente, e discutem em minha mente, as regras existem como eu existo em contínua relativização do que é suposto, até ao âmago me questiono acerca das mais simples acções, só tenho pena que sem a imortalidade me ficarei pelas questões mais singelas, mais óbvias, pelas desconstruções mais directas,

  tempo, se ao menos parasse este tempo, se ao menos te dobrasse meu universo em dois e te visse, a mim, do outro lado do espelho, se ao menos estas minhas frases me proporcionassem o sustento, me perderia neste mundo que crio para mim, aqui, onde em cada dia crio novas janelas, e paredes, novos tectos, compro mobília e sento pessoas velhas, novas, anãs, gigantes, trago seres retirados do folclore de mentes tenebrosas de tão geniais e trago heróis de Valhalla para aqui se sentarem, aqui onde me sinto em casa,

  é irrelevante se o que escrevo é lido, não sendo porventura modesto o suficiente, ou falso o suficiente para não oferecer a quem realmente visita um sincero obrigado, pois nada vos posso dar além do meu retirar do chapéu, apagar do cigarro, e vénia , talvez um dia quando andar por estes sítios se tornar tão controlado como o que vejo da janela da Almeida Garrett  vos convide a uma visita a minha praia e vos deixe sentar à volta de minha fogueira,

  é irrelevante se escrevo bem ou mal, nasce do instinto de o fazer e na eterna demanda por satisfação pessoal, naquela incessante busca por um próximo sorriso,

  confesso que agora sorrio, todavia controlador e paranóico que sou, tenho que lamentar as raivas que ainda assim brotam mesmo quando bem me encontro, raivas porque aqui não posso fumar, enquanto Garrett tosse de loucura tresmalhada parida por fanáticos, também o sendo no outro lado da barricada, deixem-me inclinar sob meu portátil, enquanto ouço algo pastoso, raspo meu rabo na cadeira ao ritmo, e penso no quão bom, enquanto atiro barro a esta parede invisível, seria massajar minha língua com golfadas de fumo nocivo e mortal.


  Cumprimentos,
  JD


*Sem acordo

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