terça-feira, 2 de outubro de 2012

Amoralidade Vigente

             Te digo,

       - resiste, suporta, cerra esses dentes, emite esgares de tensão, - folhas de pele tesas de endiabradas sensações que crispam em costas minhas, de oceanos meus, em dunas onde amo aquelas a quem roubo o corpo, a inocência, o amor próprio, também a elas digo, - resistam, suportem, - pensando melhor, - uivem de joelhos a uma lua em tons de laranja – nasceu hoje a puta, nasceu de amores entre quem se odeia, mas se come, de joelhos colados, em cópula, em concha que permanece imutável, entre meus e nossos dias,  vos digo, a elas, a quem chaves para minhas dunas dei, únicas se pensavam, acordam e perguntam-se de cara pálida como pó de arroz, de lábios cortados, de mãos sujas, de unhas partidas, imundas, com as costas cortadas por fios vermelhos da nádega ao pescoço, com pescoço marcado por meus dedos, que como ferro em brasa, - vos marquei, - e por isso meus amores, em minhas dunas, a olharem oceanos meus, nesta costa minha em que aquele escudo dança, assim como o verdadeiro James Dillon dançou na coberta de uma Sophie Inglesa para terminar com um buraco negro de pólvora no lugar onde antes batera um coração Irlandês  - peço desculpa, tirem esse olhar morto, dispam a surpresa e o espanto por em cima de vós me ter colocado para não mais sair enquanto não me senti sozinho cá dentro, até meus ditos não mais estivessem encrespados, perdoem-me, - arre vá!, - perdoem-me por me ter saciado em vossos seios, perdoem-me por garrafas de uísque rasca que traguei de vossos seios, de vosso umbigo, de vosso sexo, desculpem o cabelo que vos arranquei, a roupa que vos rasguei, o ar que vos roubei, os suspiros que vos proporcionei, perdoem-me os gemidos, os gritos que despejei no ar frio da maresia, suplico-vos que esqueçam o quanto vos sujei,
             no fim do dia,
            - resistam,
           pois eu não mais o farei, o monocórdico da coisa não parte para um outro lugar, assim como eu não me torno aquilo que me salvaria, para isso antes a forca, para isso antes a guilhotina, para isso antes o alçapão, antes terminar do que acabar como eles, aqueles autómatos que nunca se questionam com o pavor da luz que poderá um dia apagar, e o certo deixa de ser certo, o absoluto torna-se relativo e o relativo torna-se um nada com caprichos de coisa,
            - resistam, resistam meus amores, em praias, em terras altas, em planícies resistam, que se o ser é isto é tão patético como o nada ser, se nada mais  subiste para quê vos abandonar meus amores de uma noite, de uma só duna, uma em cada,
           não se envergonhem da lingerie rasgada, não se envergonhem de meu flácido sexo abandonado no meio da areia, não escondam a cara, olhem-me bem aqui no centro e escutem, só o digo agora,
            - não o lamento, mas perdoem-me, não o compreendo, mas peço-vos: não se envergonhem, quando o decoro vos inundar como uma rameira ciosa, lembrem-se: que se foda a moralidade vigente.


*Sem acordo


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