sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Dois passos


  Do inicio ao fim são dois passos, curtos, endiabrados, pesados, em botas de soldado pejadas de lamas secas, leves como sabrinas, cor de rosa, cor do arco-íris, porquê?, dentro da inconstância da coisa qual a razão para me preocupar com o amanhã, quando do hoje nem com o fim me cruzarei, pois sessenta, setenta, talvez com sorte oitenta, nada mais são que uma poeira numa engrenagem de dentes decrépitos, que promove barulhos de correntes que passam entre conexões paralelas e perpendiculares, entre roldanas tortas, não me encontro aqui para me preocupar, não estou aqui para chorar, não me sento aqui em eterna imagem de condenado para me comiserar entre erros de um passado esquecido, não me olho ao espelho para minhas entranhas encrespar de nojos mal contidos, não coço minha barba a pensar na comichão que te espalha quando me ajoelho perante ti, e tu toda molhada, não tenho ponta de siso ou cio, não tenho ponto de origem, ou de término, não tenho mijo, nem sangue, não tenho nada a não ser o rescaldo na panela que é a corda bamba onde respiro em constantes desequilíbrios, mas de onde nunca caí, nada mais possuo que esta camisola branca inundada de suores frios, não interessa onde vivo, onde quero viver, pois nada mais sou que uma poeira ínfima, invisível ao olhar simples, não persisto, não conduzo, não guio. Somente crio, a cagar-me para o quê, a mandar para bem longe aquilo que deveria, e a dizer que sim a tudo que brota, qual enxurrada, dos meus órgãos mais escondidos, pois afinal do inicio ao fim são dois pequenos, para uns, pesados para outros, passos.
    Assim como do amor ao ódio são também eles passos, tudo o que lhe resta a ele, Jasmim de alma, de corpo embrulhado em jornais de ontem é a esperança que nada mais importa que uma cama onde retornar, um corpo de mulher onde se colar, e um pão com queijo para se alimentar, se mesmo assim o espírito se remói de dores inchadas de importâncias intocáveis, ali no sagrado barlavento do convés, talvez, mas somente talvez, fiques melhor enterrado, quem sou eu afinal para desaguar no sentido daquilo que prego?, mas hoje, não constato, simplesmente transmito, que nada realmente importa, amor e ódio são gémeos, sem signo, paridos de mãesputas antes do tempo começar a contar, um não subsiste sem o outro, felicidade não nasce sem infelicidade antes, depois, mas fundamentalmente durante.
    O amanhã ainda é o hoje, como o ontem será enquanto existir o hoje, o meu passado não tem arcaboiço para ser passado, o meu amanhã não tem o porte para ser um futuro, do início ao fim nada mais será que hoje. E nada mais quero que o hoje, que se fodam os preciosismos temporais, que no meio de tanta merda, de tantas inconstantes, de tantos percevejos mascarados de destino, de incontornáveis naperons fiados, no meio de coisas tão complexas que eu ignoro com a força de um corpo mole, a verdade é que vendia tudo o que possuo, que vendia tudo o que sou, somente para me encontrar debaixo de ti novamente.

 
*Sem acordo

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