sexta-feira, 6 de julho de 2012

Sonhos secos


  - A tua cabeça... faz-me lembrar...,
  - o quê?, - pergunto em busca de um sentido para tal surpreendente forma de desbloquear uma conversa que (ainda não) existia, - o que tem a minha cabeça?,
  - bem, - parecia incomodado pelas palavras se terem desenhado na língua, moldado nas cordas vocais, era um homem, mas um homem com estranhos traços femininos, com linhas doces e atraentes, que numa noite escura, num beco lamacento eu beijaria sem pudores até que no momento em que a minha mão petulante, munida de uma vontade própria, férrea a cabra, procuraria a sua sexualidade para perceber que beijava o sexo errado, pararia?, não sei, nem interessa, c'est la vie, o factor surpresa em cima de uma mesa torta, com guardanapos usados a servirem de calços, a roçar seus seios fartos em meu nariz, seu corpo moreno em meu, surpresa, a cada esquina uma, a cada manhã de nevoeiros de um outro mundo o galgar de cascos Sebastianistas,sons a caírem em tons agudos como cacos que partem durante a discussão de fim de dia de casal entre borrascas, a surpresa como o sexo que se encontra não ser o mesmo que o rótulo anuncia,
  - sim?,
  - é que a tua cabeça, - recomeça o transgénico, digo-o em presunção, sem julgamento, deixei o meu cavalo moral em casa, ele ou ela respira e confessa-se finalmente, - faz-me lembrar um pénis,
  - circuncidado espero?, - cora, olha as unhas arranjadas mas curtas, metrossexual ou transexual?,
  (aplausos,
  - boa noite a todos, - diz um macaco vestido num fato curto que revela os pelos castanhos nos pulsos e nos tornozelos, come uma banana e sorve o ar em mania impossível de suprimir, - e agora, - coça o sovaco, - a questão para ganhar duzentos e cinquenta mil euros, - com os seus dedos escuros e gordos toca num botão que somente imagino, um holograma com uma pessoa surge do nada e fica no centro da sala, o público aplaudia enquanto a luz verde piscava, - a questão é: será metrossexual ou transexual?,
  - ainda tenho ajudas?,)

  - sim claro, desculpe, reparo agora que foi um comentário despropositado, - respondo com um sorriso e reúno-me comigo nesta sala de espera na cidade, cheia de humidade e bolor nos cantos, com as paredes com fracturas, e azulejos sujos e obscurecidos pelo tempo, contava-os para passar o tempo,
  - Senhor Jasmim?,
  - sou eu, - respondo à loira platinada de unhas cor de rosa, com roupa interior vermelha bem visível através da bata branca, quase transparente pelo uso,
  - o doutor vai recebê-lo agora,
  - obrigado, - olho o, a indefinida – até à próxima, para a próxima talvez traga prepúcio, - entro no consultório, fecho a porta, sento-me, enquanto o doutor licenciado nos mais obscuros cantos de uma mente escrevinhava gatafunhos num papel branco, pensei que quiçá tivesse a jogar ao galo de forma encriptada,
  - bom dia, - arre homem que susto,
  - bom dia,
  - então, qual o motivo da consulta?,
  - sendo concreto estou farto de beber o meu sangue até finalmente me afogar, sujar o chão do quarto enquanto me esvaio,
  - desculpe?,
  - tenho um sonho recorrente,
  - sim?,
  - estou a dormir, numa cama larga, num sítio semelhante ao meu quarto, quando a porta abre, ela faz barulho, tem um problema na dobradiça, entreabro os olhos devido ao ruído para ver um africano, um daqueles com ninhos de ratos no cabelo a apontar-me uma arma, reparo, não sei porquê que tem um silenciador, e sem um boa noite de cordialidade dispara três tiros que me atingem, não sei onde sendo sincero, acabo por cair da cama, minha querida esposa ainda dorme e ressona como uma porca, enquanto eu rebolo e escorrego no meio dos meus fluídos, sinto o sabor férreo do sangue a inundar-me o gosto, a escorrer-me pelo corpo dentro e fora como uma avalanche, o homem parte, sem olhar para trás e eu fico ali pelo menos uns trinta minutos a esvair-me, gota a gota, dor a dor, esguicho de sangue a esguicho de sangue, sem conseguir falar, sem conseguir dizer uma palavra, enquanto ela ressona, e fala para almofada, e esfrega seu corpo nu languidamente nos lençóis manchados, rotos, - paro para respirar, - e é isto doutor todos os dias, além de acordar com um tesão, acordo com medos loucos, suado, e cansado como se tivesse realmente lutado pela vida,
  - pois, estou a ver,
  - então?, daddy issues?,
  - prozac ou erva resolve isso, são cinquenta euros, siga, - pega no telefone, - Maria chama o próximo marado dos cornos.



*sem acordo.

2 comentários:

Eli disse...

De vez enquando fazes-me lembrar alguém que conheci em tempos, que ficou lá no passado.

Há coisas que atiradas assim à tela só fazem sentido dentro da cabeça de quem as visualiza.

O sentido está sempre lá, sempre.

:)

James Dillon disse...

Alguém de um bom passado espero,

:),

cumprimentos,
JD

P.S., quanto ao sentido existe, num quadro só meu faz tudo perfeito sentido, até aquelas manias mais petulantes.