quinta-feira, 19 de julho de 2012

Pirilampos


    A capa mexia-se ao vento com a mesma simplicidade que esta minha caneca azul de relevos ondulados sustem o meu ouro negro num eterno movimento concêntrico, montanhas sem fim a sustentam aparentemente,
    - sem tecto à vista?,
    - cansei de dizer sempre o mesmo,
    - com a violência do martelo na bigorna,
    - também, agora dedico-me a analogias simples, sem real lógica, sem transmissão temporal digna, sem mutação de conceitos ao longo do tempo, entendes?,
    - oui,
    ondulava,
    - como?, - de unha preta como noite sem facho,
    - apanhei-te,
    - desculpa?,
    - noite sem facho é outra,
    o que o indivíduo que me olha no espelho não entende, é que isto é um trabalho em progresso que requer uma adaptação, uma consolidação,
    - consolida amor, consolida, e zás,
    - JMB baza, xô, xô,
    (arre todos me interrompem, um gajo já não pode ler a maria e fumegar tabaco barato alapado nesta poltrona de excelso material desconhecido, olhar-me ao espelho enquanto me esforço para que a natureza siga o seu curso sem ser perturbado por um JMB de um outro lugar, de uma outra hora, por um eu igual a este meu eu que me perturba e critica, por uma imagem de uma mulher de mãos que brilham num qualquer topo de montanha, longínquo, tão longe que leva o Hubble a
entregar-se ao alcoolismo em frustração por um trabalho mal feito),
    a capa é azul, e dança, dança como uma mulher bela, sem igual aos meus olhos, e já passei meus olhos por muitas mulheres belas, mas esta, a luz, que luz, de onde vem a luz?, emerge do corpo, do seio dela, sem saber que ali está, também ela de tons azuis, leves, quase não se vê, mas sente-se como aquele arco íris tímido depois de ser apanhado por um duende verdinho a comer a irmã, a onde está ela?, bem isso, é uma incógnita virtuosa,
    - jackpot, ó Chico vê se acordas, afinfas- outra vez no que te é típico,
    - ó minha vadia desaparece, fazes-me isso bebé?,
    - oh meu amor, não me mandes embora, - uma alça escorrega pelo abraço, roça a pele, e até o ruído enquanto escorrega do ombro até ao pulso é carnal, tudo nela me grita: possuí-me, aqui, e agora, pois ali e mais tarde visto meu cinto e vou com o meu pai para a faina, - vá lá, - e um seio que nasce, branco como mármore, quanto vezes o agarrei, quantas vezes o brindei com uma língua em busca de relevo, quantas,
    - a porta é ali minha querida, - subo as calças, - agora põe-te a andar,
    - quem é a outra puta?, - mudou a página, mudou a postura, mudou o olhar, de um preso na minhas virilha, para um que se delicia com o meu corpo a arder ensopado em gasolina, - quem é a cabra?, - e agora?, como lhe dizer que a cabra é uma imagem que nasce na minha imaginação quando me sento no trono da casa de banho e acendo um cigarro?, como lhe explicar que o motivo pelo qual eu troco a boca dela, o cheiro dela, o corpo dela, é uma mulher que surge do nada, vestida com uma capa azul, que eu vejo a centenas de metros, numa montanha rodeada por uma mística luz azul, uma mulher que eu sei com toda a certeza que é a mais bela, mesmo com a face escondida na noite que se propaga por meus sonhos, falando do diabo, uma parte num mar de tormentas e raivas dispersas, os passos que se afastem fazem a madeira gemer de dores, as portas ressaltam enquanto são jogadas em sequência de dominó, e eu só fecho os olhos e lá está ela,
    - olá?..., - um silêncio em retorno, nem um olhar, mas agora mais perto enquanto deslizo e a lua emerge do esconderijo onde se dedicava a costuras mal feitas com outras fiandeiras nórdicas,
    -,
    - e se te calasses eu do espelho?, eu sei, usei mais uma expressão que gostaria de evitar, mas estou-me completamente a cagar para promessas que não posso cumprir, vai-te tu, vai-te JMB, todos ide e deixai-me só, tu também meu amor, larga o guisado e parte, pois nada mais quero do que estar com a mulher nua mas bela, de luz azul, também eu quero ser cercado por uma luz que me torne algo mais que uma formiga com ideias de Midas, nada mais quero que uma capa que dança bela ao vento, nada mais quero que o toque daquela que se ergue na montanha, nada mais quero que encaixados ver a lua a embater em corpos que suam.

 

 
*sem acordo

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