quinta-feira, 5 de julho de 2012

O vento do leste

  Um grupo de homens caminha por uma rua indefinida,
  - indefinível,
  - perdão?, - olha-me este cabrão,
  - a rua tem uma definição mas não é definível, - maniento, de gel no cabelo, de crista erguida, de fatinho por medida, de cigarro John Special Player em doca seca no espaço entre os dentes sujos por aromas de alcatrões, imagino-o de traqueia escurecida como uma chaminé de um outro tempo onde enchidos típicos dançavam ao rumo do fumo que se erguia imponente, os enchidos abalavam em suave pêndulo aparentemente infindável, assim como um nudista a ler a revista maria numa qualquer casa de banho pública, alapado no conforto da imundice, enquanto dança com os olhos pelo o que existe um pouco por todo o lado por esta nossa tão rica e pródiga fina flora residente no topo desta megera de hierarquia que nos cerca, e ele ali com o penduricalho a dançar sem receios de a trilhar numa qualquer esquina escondida, este meu cabrão anda pela rua de sapatinho novo que ainda faz aquele som de protesto enquanto as costuras cedem para servir, naquele ploc ploc ploc de sola dura na calçada,
  - que queres dizer com isso?, - retorquo sem realmente querer saber, os olhos vazios e manientos, de irís de tão diferentes cores que me parece impossível encontrar uma em concreto,
  - a mulher gorda a mim não me convêm, - atiram uns,
  - porquê?, - outros,
  - não quero andar na rua com a gordura de ninguém, - de novo os primeiros,  berros em eco que caminham pela calçada, também connosco,
  quatro indivíduos soltos por um breve momento assoberbados pela simples génese,
  - qual é Chico?,
  - hoje é o dia em que tudo cambia,
  - e se não for?,
  - será amanhã então, sem problema,
  assim é, todos os dias pela mesma calçada monocromática, todos os dias com as mesmas vestes, todos os dias largamos o manto do dia para vestir uma capa cinzenta que por breves instantes nos faz sentir como super heróis, todos os dias pelo mesmo caminho, todos os dias quando o sol aterra da sua volta cíclica saímos para cortar as amarras que durante nos dias nos concedem a hipocrisia necessária para sermos normais, mas à noite?, à noite é quando os bichos e as bichas estranhas são paridos de vaginas velhas de mães que mais não são que putas ou galdérias, à noite surgem bestas de homens de camisas brancas bem abertas, com o pescoço curvado sob o peso de correntes de oiro sem gosto, de pelos do peito eriçados, ou em formatos encaracolados que fazem lembrar lá muito ao longe a sucessão de galáxias, que caminham de pernas bem abertas e usam cuecas brancas tingidas pelo uso com a pila bem apertada para o pacote se distinguir,
  - é um pacote com distinção, - dizem umas vacas ali ao fundo,
  - é o maço de tabaco parolas, - dizem outras com mais tino,
  homens porcos e imundos de cheiro a sovaco misturado com o almiscarado de perfumes de feira, de riso amarelo, de unha do dedo mindinho enorme, ainda maior com códoas de bôroas de à dois dias presas no seu seio, fungam, palitam os dentes como quem se ajoelha para rezar perante a sua homosexualidade reprimida, que suplicam por onde se enfiar mas,
  - não,
  - não,
  - não, - sucedem-se numa cadência que eles nunca atingiriam numa batalha entre cetins raros da cama de uma matriarca, deixam-se de súplicas para usarem aquelas manoplas tingidas a amarelo por cigarilhas nefastas, importadas por gentes ainda mais nefastas, manoplas ainda com restos de percevejos do palheiro onde batem uma ao fim do dia, e pegam na mulher como se fosse cadela, e contra um muro numa esquina de cheiros a urina fazem de sua vontade dela,
  durante a noite bestas e porcas caminham, uns só procuram desligar o que são para caminharem como se realmente tivessem algo como um destino sem definição, outros tornam-se animais predadores capazes de destruir, umas reúnem o tino para andarem num balanço perfeito entre o demais e o de menos, outras perdem-se entre provocações aparentemente inocentes para se encontrarem entre arrependimentos quando seres hediondos paridos do nada as tomam como suas.

 

 
*Sem acordo

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